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MARTIN O MAGNATA E A ILUSÃO QUE QUASE O DESTRUIU
MARTIN O MAGNATA E A ILUSÃO QUE QUASE O DESTRUIU
Tônia Fernandes

####CAPÍTULO 01

last update Veröffentlichungsdatum: 30.09.2026 21:53:42

ANASTASIYA

O cheiro de hospital é algo que se entra na pele, na memória e na alma antes mesmo de se prender às nossas roupas.

— Há longos e exaustivos oito meses venho diariamente a este lugar para acompanhar a mamãe, e esse odor antisséptico contínuo, misturado à frieza impessoal das paredes brancas e ao apito monótono e ritmado dos monitores cardíacos, torna-se o meu único cenário.

— Tenho apenas dezenove anos, mas sinto como se carregasse o peso e o cansaço de uma vida inteira sobre os meus ombros cada vez que atravesso estes corredores intermináveis para me sentar ao lado do leito da minha mãe.

O diagnóstico chegou até nós como um golpe devastador e impiedoso: câncer.

— A doença começa de forma silenciosa, escondida no pulmão e, quando os médicos finalmente conseguem identificar de forma precisa, o quadro já se espalhou de maneira agressiva e rápida até atingir o cérebro.

— Ver a mulher que sempre representa o meu porto seguro, a pessoa mais vibrante, forte e carinhosa da minha vida, definhar dia após dia diante dos meus olhos é uma dor aguda que rasga o meu peito sem trégua.

— Os remédios fortes e as dosagens elevadas de medicação a deixam confusa, desorientada e sonolenta na maior parte do tempo.

—:No entanto, em seus raros momentos de lucidez, o olhar que ela me direciona é carregado de um amor absoluto, de uma ternura profunda e de uma preocupação silenciosa que pressinto que só vou compreender em sua totalidade muito tempo depois.

Passo noites inteiras acordada na poltrona desconfortável ao lado do leito dela, segurando sua mão cada vez mais franzina, trocando as compressas frias em sua testa para aliviar a febre e prestando atenção em cada respiração curta que ela dá.

— Enquanto me dedico integralmente a cuidar dela, a ausência do meu pai, Mikhail Sokolova Volkova, torna-se cada vez mais gritante, incômoda e dolorosa.

E papai simplesmente não faz a menor questão de estar aqui conosco.

— Nestes últimos meses de agonia da mamãe, o seu desinteresse deixa de ser uma mera suspeita e vira uma certeza absoluta e escancarada.

— Ele raramente pisa no hospital. Nas poucas vezes em que decide aparecer, permanece em pé, encostado perto da porta de entrada do quarto, olhando fixamente para o relógio de pulso a cada dois minutos.

— Ele demonstra uma impaciência visível e irritante, agindo exatamente como se estivesse cumprindo uma pena insuportável ou um compromisso burocrático indesejado.

— Ele nunca se aproximou do leito para dar conforto para mamãe, nem com um abraço carinhoso, nem segurou sua mão, com afeto e jamais deu uma única palavra de esperança ou de consolo.

—Mikhail limita-se a assinar os papéis das despesas médicas na recepção e a pagar os boletos, algo que faz sempre com um bufar de contrariedade, balançando a cabeça e soltando resmungos mal disfarçados sobre o quanto aquele tratamento está custando caro para o orçamento dele.

— O seu pai já foi embora, minha filha? —Mamãe me pergunta em uma dessas tardes em que ela está lúcida, em um dos raros momentos em que conseguiu abrir os olhos e falar com um pouco mais de clareza, mantendo a voz fraca, rouca e falhada.

Ajeito o cobertor sobre o peito dela e engulo o nó que se forma na minha garganta.

— Ele teve que sair rápido para resolver uns problemas urgentes na loja de carros, mãe, minto sem hesitar, tentando a todo custo proteger o coração já tão fragilizado dela de sofrer mais uma decepção.

—A mamãe dá um sorriso muito fraco e triste, carregado de uma resignação profunda e dolorosa, e aperta levemente os meus dedos com o pouco de força que lhe resta nas mãos.

— Você não precisa inventar desculpas por ele, Anastasiya.

—: Eu sei exatamente com quem me casei e sei o homem que ele é, sinto um aperto no peito, essa é minha dor real neste momento, é ter que deixar você sozinha neste mundo.

Naquele instante, não consigo compreender toda a extensão e o peso real dessa frase.

— Na minha inocência de dezenove anos, acho que ela está se referindo apenas à saudade inevitável que vai deixar em minha vida.

— Eu não tenho a menor ideia do ninho de cobras que me aguarda assim que o último suspiro dela se apagar.

— A luta diária contra a evolução da doença mostra-se cruel, desgastante e implacável.

— À medida que as semanas avançam, as dores tornam-se cada vez mais intensas e insuportáveis, fazendo com que os médicos aumentem a medicação de resgate.

— O estado geral da mamãe agrava-se de forma acelerada. Numa madrugada fria, quando estou sentada ao lado dela segurando sua mão que já começa a esfriar, o monitor cardíaco ao lado da cama subitamente altera o seu ritmo até emitir aquele apito contínuo, agudo e estridente.

— O som avisa que o coração dela finalmente parou de bater.

O meu mundo rui por completo naquele exato segundo. Sinto o meu corpo perder totalmente as forças, minhas pernas vacilam e eu caio de joelhos no chão frio ao lado do leito.

— Agarro-me ao corpo sem vida da minha mãe e desabo em um choro desesperado, colocando para fora todo o sofrimento, o cansaço e a angústia acumulados ao longo daqueles oito meses de vigília diária.

— Com as mãos trêmulas e a visão embaçada pelas lágrimas, pego o telefone e ligo para o meu pai no meio dos soluços para dar a notícia do falecimento.

— Do outro lado da linha, a resposta de Mikhail vem de forma fria, seca, extremamente prática e sem demonstrar um único pingo de emoção ou sobressalto:

— Certo, vou mandar resolver a burocracia do funeral agora pela manhã, e me avise do horário do velório assim que marcarem.

Ele desliga em seguida, nem uma lágrima. Nem uma pausa na respiração. Nem um tremor na voz.

— O velório é o reflexo exato da solidão e do abandono que ele impôs à nossa família ao longo dos anos.

—E o corpo da mamãe é velado em uma capela simples e humilde, e as poucas amigas de infância dela comparecem ao local, chorando sinceramente ao meu lado, abraçando-me com carinho e recordando os momentos em que viveram juntas daquela mulher bondosa, generosa e honesta e muito trabalhadora que ela sempre demonstrou ser.

— Elas permanecem ao meu lado, oferecendo palavras de conforto e abraços apertados, enquanto o meu pai se mantém totalmente afastado no fundo da sala.

— Ele passa a maior parte do tempo mexendo no aparelho celular, checando mensagens e conversando em tom baixo e cochichado com homens desconhecidos que chegam à capela.

Papai se comporta como um estranho no meio do nosso luto, como alguém visivelmente incomodado e ansioso para que aquele compromisso social cansativo termine de uma vez por todas.

Horas depois, durante o sepultamento no cemitério, quando o caixão começa a baixar lentamente para dentro da cova fria, uma sensação esmagadora de solidão e desamparo me domina por completo.

— Olho para o lado em busca de apoio e vejo Mikhail observando a cena de braços cruzados e mãos nos bolsos do paletó, mantendo o rosto completamente inexpressivo e distante.

— Ele acompanha todo o ritual de despedida como quem cumpre uma obrigação chata e indesejada. Ele não chora em momento algum.

— Não se aproxima para me dar um abraço, não estende a mão para me apoiar nem oferece um ombro onde eu possa chorar.

— Assim que a equipe do cemitério lança a última pá de terra sobre a sepultura, ele consulta o relógio de pulso, caminha a passos rápidos até mim, dá dois tapinhas secos no meu ombro e diz com a voz firme:

Vamos para casa, Anastasiya, a vida precisa continuar e os negócios da loja não podem parar por causa disso.

— Tenho dezenove anos, estou inteiramente devastada por dentro, sozinha no mundo e cega para a triste realidade que me cerca.

—Na minha ingenuidade, tento me convencer de que aquele comportamento frio e distante é apenas a maneira particular dele de tentar lidar com a dor da perda.

— Eu não faço a menor ideia de que, na verdade, para Mikhail Sokolova Volkova, a morte da minha mãe não representa uma tragédia, é simplesmente o fim de um obstáculo incômodo que o separava de colocar em prática os seus verdadeiros planos.

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