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####CAPÍTULO 03

last update publish date: 2026-09-30 23:10:00

O VELÓRIO DO MEU PAI

ANASTASIYA

A convivência sob o mesmo teto torna-se insuportável a cada dia que passa.

— O clima dentro de casa é denso, sufocante, Irina, que passa a trabalhar na loja de carros com meu pai, demonstra uma ambição ainda mais voraz e perigosa que a de Katrina.

— Ela não quer apenas uma comissão ou um salário no fim do mês; ela quer o controle absoluto de tudo.

— O que meu pai não enxerga, cego pela ilusão de ter a filha biológica ao seu lado, é que Irina começa a desviar dinheiro do negócio.

Ela adultera os livros de caixa, emite recibos falsos e transfere valores altos da loja para uma conta pessoal.

A verdade explode em um fim de tarde tempestuoso. Papai decidiu fazer um balanço financeiro, e a surpresa com o contador e a descoberta do rombo financeiro nas contas.

— Mas a descoberta de que é roubado justamente pela filha que tanto defende caiu sobre ele como um golpe fatal.

— Uma discussão violenta se inicia no escritório, o sangue sobe à sua cabeça, a pressão arterial atinge níveis críticos e, no auge do desespero e da raiva, o coração dele cede. Descobri só mais tarde, pelo funcionário da loja.

Papai sofreu um infarto fulminante ali mesmo, no chão da loja.

— Estou em casa, terminando de limpar o chão da sala após chegar da faculdade, quando o telefone fixo toca.

— O som agudo ecoa pela casa vazia, corro para atender, limpando as mãos no pano.

— Ajoelha e chora, Anastasiya, o papai teve um infarto e está no hospital, a voz de Irina vem fria, rápida e sem um pingo de emoção do outro lado da linha.

— Estou no caixa da loja agora. Vá você para o hospital, porque vou fechar as portas e ir para casa.

O ar foge completamente dos meus pulmões. Sinto minhas pernas fraquejarem.

— O quê, o papai teve um infarto?! Irina, em qual hospital ele está?!

— Ela simplesmente desliga na minha cara, sem me dar mais nenhuma explicação.

— Tomada pelo pânico, disco com as mãos trêmulas para o celular de Katrina.

—:O sinal toca várias vezes até que ela atende, ao som de secadores de cabelo ao fundo.

— Katrina, papai, sofreu um infarto, e está na emergência do hospital municipal, você não vai pra lá?!

— Assim que o cabeleireiro terminar a minha escova e eu fazer minhas unhas, eu vou, ela responde, com um tom de voz tão calmo e indiferente que congela até a última gota do meu sangue.

— Vá você na frente e fique lá, com ele, e por favor não me amole minha paciência.

Desligo o telefone em choque. Nem em um momento de vida ou morte aquelas duas demonstram o mínimo de compaixão humana.

— Saio desesperada de casa, correndo para o metrô, e durante todo o trajeto, no meio da multidão, fecho os olhos e rezo.

— Apenas rezo, apesar de toda a exploração, e das humilhações e frieza com que ele vem me tratando após a morte da minha mãe, ele ainda é meu pai, não quero perdê-lo.

Quando piso na recepção barulhenta da emergência do hospital, identifico-me com as mãos trêmulas.

— A espera é uma tortura silenciosa, e pouco tempo depois, um médico de plantão caminha em minha direção.

—O olhar pesado e o balançar lento de sua cabeça me entregam a resposta antes mesmo que ele abra a boca.

— Sentimos muito, minha jovem, nós tentamos as manobras de reanimação, mas o senhor Mikhail não resistiu.

— O óbito foi declarado há poucos minutos, você precisa assinar a documentação do corpo.

A notícia me atinge como uma marretada no peito. Sinto o chão sumir.

Desabo sobre a cadeira plástica da recepção, cobrindo o rosto com as mãos, chorando em um silêncio rasgado. Ninguém chega para me segurar, nem Katrina ou Irina aparecem.

— Enfrento todo o pesadelo sozinha, e com os olhos vermelhos e a garganta seca de tanto chorar, assino os papéis de liberação, caminho até a sala fria do necrotério para fazer o reconhecimento do corpo do meu pai e entro em contato com a funerária para organizar a cremação, que sempre foi o único pedido claro que ele repetia em vida.

No dia do velório, Katrina e Irina finalmente surgem.

— Estão impecavelmente vestidas de preto, com óculos escuros e lenços de renda, encenando um espetáculo de dor e viuvez diante das poucas pessoas que aparecem.

— Para quem olha de longe, Katrina parece uma mulher devastada.

— Mas a raiva queima no meu peito porque sei a verdade: enquanto eu estava sozinha em um necrotério reconhecendo o corpo do meu pai, Katrina fazia as unhas e Irina contava o dinheiro do caixa.

Após o término da cerimônia e a cremação, retornamos para a casa que um dia pertenceu à minha mãe.

— Trago nos braços a urna de bronze contendo as cinzas do meu pai.

— Estou física e mentalmente exausta, destruída por dentro.

— Mas Katrina não espera nem mesmo o café esfriar para mostrar quem realmente é.

— Nem bem nos recuperamos dos gastos pesados com a doença da sua mãe, agora temos que arcar com despesas de hospital, velório e essa cremação cara do seu pai, diz Katrina, parada diante do espelho do hall, ajeitando o colar no pescoço.

— Não tem outro jeito: vamos colocar a loja de carros e esta casa à venda imediatamente para quitar tudo.

Olho para ela, perplexa, abraçando a urna contra o meu peito.

— Você não pode vender nada, essa casa era da minha mãe! É preciso abrir o inventário, chamar um advogado, fazer a partilha dos bens...

— Katrina se vira devagar. Um sorriso irônico e vitorioso surge em seus lábios pintados de vermelho.

— Ela puxa uma pasta de couro de dentro da bolsa e j**a sobre a mesa de centro.

— Não existe inventário para você esperar, Anastasiya. antes de passar mal na loja, o seu pai assinou a transferência definitiva de todos os bens.

— A casa e a loja estão, legalmente, no meu nome, veja com seus próprios olhos.

Aproximo-me com as pernas bambas e pego as folhas, a linha que leio, sinto uma punhalada no coração.

— É a assinatura do meu pai, manipulado e cego até os seus últimos dias, Mikhail passou todo o patrimônio que é meu por herança da minha mãe para o nome da amante.

—'Ele me deserdou por completo, tira tudo da própria filha para entregar nas mãos da mulher que nunca o amou.

— Nós já temos um comprador fechado para a loja e para esta casa continua Katrina, saboreando cada palavra.

— Vamos vender tudo e comprar um apartamento de alto padrão no centro para mim e para a Irina.

— E você, querida... vai precisar arrumar as suas trouxas e procurar um lugar para ficar.

— O nosso novo apartamento não tem espaço para você.

A crueldade é tão visceral que minha voz simplesmente não sai.

— E o que faço com agora essa urna das cinzas dele? — Pergunto com a voz embargada, indicando a urna em meus braços

. — As cinzas do meu pai ficam com vocês ou comigo?

Katrina faz uma careta de profundo nojo e dá um passo para trás.

— Fica com você, é claro, não quero resto de defunto perto de mim.

— Jogue essas cinzas em um rio, no lixo, onde você quiser, pra que guardar isso?

E você tem exatamente uma semana para sumir daqui com as suas coisas.

É nesse instante que a última ilusão se desfaz, Katrina nunca amou meu pai, ele foi apenas um degrau, um idiota útil usado para usurpar o patrimônio da minha mãe.

— No dia seguinte, vou para a faculdade arrastando os pés, carregando uma dor que parece não caber no meu peito.

— Sentada em um banco isolado do pátio, desabo a chorar.

É quando Giovana, minha amiga de turma, me encontra e se senta ao meu lado.

Entre soluços, desabafo tudo, conto sobre a morte do meu pai, a fraude nos documentos, a perda da casa da minha mãe e a ordem de despejo para que eu suma em sete dias.

— Giovana me ouve com os olhos arregalados, queimando de indignação. Ela me abraça forte e segura minhas mãos.

— Você não vai para a rua, Anastasiya!

, não vou deixar, irmã de um grande amigo dos meus pais, uma médica, a Dra. Beatrice McGregor.

— Ela está desesperada atrás de uma babá com conhecimento em Psicopedagogia para morar no emprego e cuidar do filho dela, que precisa de atenções especiais.

—:O salário é excelente, você vai ter um quarto só seu e pode continuar a faculdade à distância!

Olho para Giovana, sentindo pela primeira vez em anos uma pequena chama de esperança se acender no meio da escuridão.

— Você acha... acha mesmo que eu consigo essa vaga, Gi?

— Tenho certeza absoluta, vou ligar para a Dra. Beatrice agora mesmo e preparar a sua ida!

E pela primeira vez desde que perdi minha mãe, sinto que o destino me estende a mão.

— Não sei o que me espera naquela mansão, não conheço os McGregor e nem imagino que, ao cruzar aquele portão, minha vida vai se entrelaçar de forma irreversível com a do poderoso e implacável magnata Martin McGregor.

— Com uma única mala de roupas, meus livros da faculdade e a urna de cinzas do meu pai nas mãos, estou pronta para fechar essa porta, minha nova jornada começa agora.

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