FAZER LOGINMinha mãe me olha uma última vez, uma mistura de pena e raiva.
— Você está cometendo um grande erro filha. Olha a confusão que você está fazendo, vai se arrepender e acabar voltando... e eu vou estar te esperando. Senti todo meu corpo queimar. Erro? Ela acha que só porque ela fugiu de casa e se afundou nos seus vícios, eu vou também? Não... Não vou mesmo. Eles saem. O silêncio que fica é pior que os gritos. Eu não consigo respirar. Entro na adega sem olhar pra ninguém, pego a primeira garrafa de uísque que vejo e encho um copo até a borda. Viro de uma vez, sentindo o fogo descer queimando tudo por dentro. Puro, sem gelo. Olho pro Malcon, que me observa da porta. O outro cara está parado no balcão, de costas, as mãos apoiadas na madeira, os ombros tensos. — Põe na minha conta. digo, a voz rouca. — Malcon... por favor. Não me demite. Isso não vai acontecer de novo. Eu preciso disso aqui. Ele suspira, passando a mão pelo rosto. — Você disse que esse infeliz era um ex namorado. O cara me olha com os olhos escuros, intensos. — Eu não preciso me explicar. Não mesmo! Malcon nega me olhando. — Vai se recompor, garota. A gente abre em vinte minutos. A Kely se aproxima, colocando a mão no meu ombro. — Vem... eu te ajudo. Eu entro com ela, mas sinto o olhar do cara queimando nas minhas costas. Ele era um homem primitivo, bruto e egocêntrico, mas o jeito que ele me defendeu... aquele "não na minha frente" ainda ecoa na minha cabeça. OLIVER: A adrenalina ainda pulsa no meu pescoço, quente e irritante. Olho para o Malcon, que me encara com aquela cara de quem sabe demais. — Ela mentiu, caralho. rosno, batendo com a mão no balcão. — Tinha dito que o cara era um ex-namorado da primeira vez. Agora descubro que o infeliz é o padrasto? Malcon cruza os braços, o semblante obscurecido. — Você tem noção de que a gente pode estar lidando com um abusador aqui, Oliver? Meu sangue gela e depois ferve. A imagem daquele sujeito santarrão tocando naquela garota, faz minha visão escurecer. Se eu puser as mãos nele de novo, não vai ser só um empurrão. — A parada é séria. Malcon continua. — É um bom momento pra passar aquele contato do cartão pro Kauan. Ele é investigador, vai saber cavar o passado desse desgraçado. — Vou fazer isso agora. respondo, seco. Tiro o cartão do cara do bolso, não consegui jogar fora aquela merda, porque sabia que não ia sossegar até saber o que trava pegando. Escrevi o número pro Kauan e pedi pra ele rastrear aquele número, tentar encontrar a identidade do cara, que com certeza era um caso de abuso pra ele. A mensagem é enviada, mas não é visualizada. — Me serve um copo. Preciso baixar essa pressão. O bar começa a lotar. O som da banda de rock e o falatório deviam me distrair, mas meus olhos não saem dela. Maya... esse era o nome dela. Ela voltou pro salão, o rosto tenso, mas trabalhando como se nada tivesse acontecido. Atrevida. Teimosa. — Libera o adiantamento do mês dela. Malcon diz. — Eu vou fazer isso. Digo sem tirar os olhos da garota. — Vai continuar com esse joguinho de não contar que você é o sócio do Kauan e quem manda na direção aqui? Malcon pergunta com um sorriso de canto. — Você viu o jeito que ela me trata? É divertido assim. Não quero ninguém babando meu ovo. Malcon nega com a cabeça, rindo baixo. — Brincadeira de gato e rato nunca acaba como a gente espera, irmão. Mas vou gostar de ver você amarrado. — Amarrado? solto uma risada irônica. — Que conversa tosca, Malcon. Bebeu o estoque todo? O turno vai chegando ao fim. Estou falando com o Malcon sobre a carga de bebidas importadas quando vejo um sujeito no balcão inclinado demais pra cima da Maya. Ele diz algo, oferece uma nota alta, uma proposta direta: — Pode ser seu, se sair daqui comigo, gatinha. A raiva sobe como um tiro. Quando ela entra na área interna pra deixar a bandeja, eu corto o caminho. — Não deixa ninguém passar por aquela porta, ouviu?! ordeno pro Malcon. — Oliver? O que vai fazer? Ha... O que eu vou fazer? Acabar com a hipocrisia dessa garota. Entro com tudo no depósito. O lado controlador fala mais alto que o senso comum. — Se prostituir, é sério? a pergunta sai como um chicote. Ela pula de susto, os olhos arregalados. — O que você está fazendo aqui? Clientes não podem entrar! — Eu te defendo de um louco de tarde pra você se jogar nas mãos de um qualquer por meia dúzia de notas à noite? dou um passo à frente, invadindo o espaço dela. — Isso não é da sua conta! — É minha conta sim! dou um sorriso carregado de veneno. — Que tipo de garota você é? Diz que precisa desse trabalho pro Malcon pra quê? Pra bater poit? O estalo do tapa dela ecoa no depósito. Meu rosto vira pro lado e o ardor é imediato. Porra! Ela me bateu caralho!? Olhei pra ela indgnado, e os olhos dela queimava. — Você não sabe nada da minha vida! ela vocifera, a voz embargada de fúria. — Eu preciso de grana, mas nunca faria uma coisa dessas! Me deixa em paz, ouviu? A vida é minha! Ela dá um passo pra trás, tremendo. Mas vira com olhos negros, indignado. — Eu posso não ter onde passar a noite, mas preferia dormir embaixo da ponte do que fazer o que você sugeriu. E quer saber? Vai se ferrar cara! Ela passa por mim como um furacão, j**a o avental na bancada e sai disparada pelo salão. Kely tenta chamar ela. — Maya? Ei... Onde você vai!? Mas ela sai atropelando quem estiver na frente. — Puta que pariu, e ainda dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar... Malcon diz negando, me olhando com repreensão. — O que você fez!? Não perco tempo dando satisfação. — Que merda! praguejo, saindo logo atrás. Pego a moto e acelero. Nem sei pra que lado ir, mas busco o mais claro, ela não seria maluca de ir pelo escuro, nesse horário. Vejo ela andando rápido pela calçada escura da estrada. Emparelho a moto ao lado dela. — Para garota! Me escuta! — Me deixa em paz! Você é perturbado? ela grita sem parar de andar. — Eu vacilei, tá legal? digo, desligando o motor e descendo. — Eu ouvi aquele merda falar e pensei que você fosse aceitar. Foi mal. — E você queria que eu fizesse o quê? Outra confusão? Eu preciso do trabalho, o Malcon vai acabar me demitindo por sua causa! Escuta aqui cara, não é porque me ajudou duas vezes que você tem algum direito de se meter na minha vida. Beleza... Caralho, ela tá certa. Solto a respiração pesada. —Ele não vai te demitir. Eu garanto. — E como você sabe, gênio? Porque é amigo dele? Grande coisa! ela para, me encarando com ódio. — Você vai ferrar minha vida, e eu não tenho mais nada pra ser tirado. Suspiro pesado, passando a mão no rosto. — Eu sei porque eu sou o cara que dirige este lugar junto com o Malcon. Eu sou o sócio do dono. O olhar dela muda na hora. O choque substitui a raiva. — Você o quê? ...— Minha filha não vai querer saber de filho de ninguém, não! E outra o dia que ela inventar vai ter bom gosto, vai querer alguém tranquilo, não um projeto de encrenca igual a você. Tira o cavalinho da chuva! — Tranquilo? Você não se olha no espelho né, a gente né tão diferente não, ô Bichão. Tá dizendo que tua mulher não tem bom gosto? — Não posso discordar, tá dizendo que você é um péssimo gosto amor? Luara diz o olhando de sobrancelha arqueada. Soltei uma gargalhada, apertando a cintura da Maya. — O Vini vai ser o herdeiro do Pub, Kauan. Vai ter marra, vai ter estilo e ainda vai ter o pai aqui pra ensinar como se trata uma dama... e como se lida com sogro chato. — Sogro chato é a mãe! Kauan devolveu, e o Malcon e o Dogiê tiveram que segurar o riso. — Se esse moleque chegar perto da Laurinha com segundas intenções, eu te mando de volta pro hospital, mas dessa vez é pra ortopedia, quebro tuas pernas. — Tenta a sorte, padrinho! provoquei, piscando para a Luara, qu
Tanta coisa mudou em poucos meses. O Pub, que era o meu campo de batalha, ficou para trás. Eu tive que me distanciar quando os olhares começaram a pesar e o Oliver... bom, o Oliver virou uma sombra. Ele não me deixava andar sozinha nem até a esquina. A proteção dele, que antes era rascante, agora era o meu porto seguro. Minha amizade com a Luara se tornou o meu refúgio diário, trocávamos figurinhas sobre enxovais e sobre como nossos maridos eram dois brutamontes de coração mole. Hoje era o dia. O dia de descobrir quem estava aqui dentro. Estava tão nervosa. Já tínhamos até sugerido nomes, tantos... Até pararmos em Penélope ou Vinícius. Mas não sei, meu coração sempre me disse que era um menino, ou era medo de ser uma menina. Porque não queria que ela passasse por dor algum. Pensei tantas vezes em ir ver minha mãe, mas no fim desisti em todas elas. Eu quebrava aquele ciclo, e nunca o traria pra minha filha, eu a queria longe. Seja sendo menina ou menino, eu o liv
— Eu sei que usou a história do desgraçado do padrasto dela.. Sei que ele te deu as "armas" para usar contra ela. Mas você tem noção do que está fazendo? Rosneei, o rosto a centímetros do dela. — Aquele lixo abusou dela, porra. Ele é um monstro. E você está se tornando o braço direito de um estuprador só por causa de um ego ferido? É esse o nível que você desceu? — Quê? Vi o choque atravessar o rosto dela. A máscara de vilã inalcançável rachou. Ela não sabia disso. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado com a podridão da verdade. — Eu sei que você é uma mulher vingativa, mas não achei que fosse cúmplice de um monstro. Me afastei, sentindo nojo até do ar que a gente dividia. — Então, aqui está o seu único aviso: Deixa a gente em paz. Eu não vou mandar recado. Eu vou pessoalmente garantir que você se arrependa de ter nascido. E você sabe muito bem que eu não blefo. Caminhei até a porta, mas parei com a mão na maçaneta, olhando ela por cima do ombro. — Não m
OLIVER A noite foi do caralho. Nunca senti tanta satisfação em dar uma festa pra comemorar algo. Ali era só os de verdade. O cara que me acolheu como filho, como melhor amigo, como aliados. Era nossas escolhas e nossa "Casa" como minha Ferinha falou, ali sim valia apena. Eu perdi tempo pra caralho, se soubesse que viveria isso, já tinha caçado aquela garota a muito tempo, mas... Ela tá aqui, toda minha agora. volta para casa foi no silêncio mais absoluto que aquele carro já viu. O barulho do motor era o único som, enquanto a Maya, exausta de toda a carga emocional da noite, capotou no banco do carona. Olhei para o lado e, por um momento, perdi o fôlego. Ali, naquele veículo, estava o meu mundo inteiro. Tudo o que importava estava respirando suavemente ao meu lado. A proteção que eu sentia era quase física, uma barreira invisível que eu tinha erguido em volta de nós. Quando estacionei na garagem do loft, não tive coragem de dar um susto nela. — Ei, Ferinha..
Se eu tivesse perdido esse bebê naquele depósito... eu nunca, em toda a minha existência, me perdoaria. Senti o olhar do Oliver em mim. Eu sabia que, enquanto eu me afogava em culpa, ele estava construindo muros de concreto ao meu redor. Dava para sentir a energia dele: possessiva, protetora, letal. — Quero contar para o pessoal. ele disse, a voz rouca quebrando o silêncio. — Tá... respondi baixo, sentindo um calorzinho começar a substituir o gelo no peito. Ele não perdeu tempo. Vi seus dedos grandes se movendo com agilidade na tela do celular. Eu fiz o mesmo, abrindo a conversa com a Luara. Maya: "Amiga, as previsões da Laurinha estavam certas. O feijãozinho tá aqui. Eu to grávida" Quase no mesmo instante, o celular do Oliver começou a vibrar sem parar no console do carro. Ele deu um sorriso de canto, aquele sorriso de quem acabou de ganhar a maior aposta da vida, e me mostrou a tela. Ele tinha criado um grupo: "Malcon, Kelly, Luara e Kauan". As mensagens subiam
O cheiro daquele consultório era um soco no meu estômago. Nunca fui fã de hospital, me faz ter sensação de fim de vida, só parada ruim. Estava ali, parado como um poste, sentindo minha mandíbula travar enquanto aquele médico de óculos na ponta do nariz olhava os exames da Maya como se estivesse lendo uma sentença. — Quais os seus nome? ele soltou, sem nem olhar pra gente. — Oliver, e ela é a Maya. respondi, minha voz saindo num rascunho de rosnado. Eu estava por um fio. — E então, o que trás vocês aqui é uma gestação não é isso? Mas porque a consulta encaminhada pra mim? A Maya começou a falar. Contou dos enjoos, daquela "virose" que a gente achou que ia passar, e do teste de farmácia. Mas quando ela abriu a boca pra falar da confusão no bar, da briga e do sufoco no depósito, o Dr largou a caneta, só então olhou pra nós sério. O silêncio que veio foi pesado. O cara me encarou com um olhar de quem ia me dar uma surra verbal e eu não podia revidar. — Preciso s







