FAZER LOGIN(Ponto de vista dela)
— Dominic?
Ele sorriu.
Dessa vez, não parecia o homem impecável da camisa social e postura corporativa que eu tinha conhecido na semana anterior. Usava uma camisa escura, com alguns botões abertos no colarinho, as mangas dobradas até os antebraços.
Parecia mais relaxado.
Mais acessível.
— Desculpa interromper sua noite — ele disse. — Eu estava passando pelo salão e achei que era você.
Olhei ao redor, ainda surpresa.
— Que coincidência.
Um sorriso apareceu no rosto dele.
— Parece que a cidade insiste em cruzar nossos caminhos.
Balancei a cabeça, divertida.
— Você ainda está falando de destino?
Ele riu.
— Talvez eu esteja começando a acreditar.
Revirei os olhos, mas sorri.
— Você é sempre tão convencido assim?
— Só quando as coincidências ajudam minha defesa.
A resposta me arrancou uma risada. Ele olhou para a cadeira vazia na minha frente.
— Você está esperando alguém?
Balancei a cabeça.
— Não.
Ele hesitou por um segundo.
— Posso me sentar?
Olhei para ele. A pergunta parecia simples. E, sinceramente, eu não tinha motivo para negar. Ele tinha sido gentil comigo na semana anterior. Não havia feito nada para me deixar desconfortável.
Fiz um gesto indicando a cadeira.
— Claro.
Dominic se sentou. Por alguns minutos, conversamos sobre coisas simples. O restaurante. A comida. A semana de trabalho. Descobri que ele também gostava daquele lugar pelo mesmo motivo que eu.
Não era pelo luxo.
Era pela tranquilidade.
— Eu gosto daqui porque ninguém parece estar tentando impressionar ninguém — ele comentou.
Olhei para ele.
— Interessante ouvir isso de alguém que parece sair de uma revista de negócios.
Ele soltou uma risada.
— Isso foi um elogio ou uma crítica?
Pensei por alguns segundos.
— Ainda estou decidindo.
Ele sorriu.
A conversa era fácil. Esse era o problema. Eu não costumava me sentir tão confortável perto de pessoas que eu mal conhecia. Normalmente, eu observava. Analisava. Mantinha uma distância segura.
Mas com Dominic parecia diferente.
Talvez fosse porque ele não tentava preencher todos os silêncios. Ele apenas estava ali.
Presente.
Quando o garçom passou pela mesa, Dominic pediu uma bebida. E foi nesse momento que percebi uma coisa.
Ele já sabia qual vinho escolher.
Já conhecia o cardápio.
Conhecia os detalhes do lugar.
Nada absurdo. Apenas pequenos detalhes. Mas eu percebia detalhes. Era parte do meu trabalho.
— Você vem muito aqui? — perguntei.
Ele me olhou por um instante. Uma pausa pequena demais para parecer estranha. Mas suficiente para eu notar.
— Às vezes.
Assenti. Talvez fosse apenas uma resposta normal. Não havia motivo para procurar problemas onde não existiam.
Continuei conversando. A noite passou mais rápido do que eu esperava.
— E você, o que faz? — perguntou em determinado momento, girando a taça devagar entre os dedos. — Além de aceitar caronas de estranhos.
Ri.
— Sou arquiteta. Trabalho numa firma no centro.
— Arquiteta.
Ele repetiu a palavra como se estivesse guardando aquela informação em algum lugar.
— Deve ser satisfatório. Ver um projeto sair do papel e virar alguma coisa real.
— É a melhor parte — admiti. — E a mais frustrante, dependendo do cliente.
Ele riu.
— Imagino que sim.
Quando percebi, já era hora de ir embora. Peguei minha bolsa e me levantei. Antes de me despedir, abri a carteira e tirei um cartão.
— Se um dia sua empresa precisar de uma arquiteta — falei, estendendo o cartão — já sabe onde me encontrar.
Ele pegou o cartão e olhou por um instante antes de guardar no bolso do casaco.
— Vou guardar bem guardado.
— Obrigada pela companhia.
Dominic também se levantou.
— Eu que agradeço.
Caminhei até a saída. Antes de abrir a porta, olhei para trás. Ele ainda estava me observando. Não de uma forma invasiva. Apenas atento. Como se estivesse tentando memorizar aquele momento.
Por um segundo, achei aquela sensação estranha.
Depois ignorei.
Eu tinha acabado de conhecer alguém interessante, de novo. Só isso. Nada mais.
Pelo menos era o que eu acreditava.
Porque algumas pessoas entram na nossa vida como uma coincidência.
E só depois descobrimos que elas já estavam esperando pela oportunidade de aparecer...
As semanas seguintes ao julgamento trouxeram uma sensação estranha para Dominic.A de não ter mais nenhuma sombra pairando sobre os próprios passos.Ele se pegava, várias vezes ao dia, esperando por uma ligação urgente.Uma notícia ruim, algum sinal de que o perigo ainda espreitava em algum canto.Mas os dias passavam, tranquilos, e aos poucos ele começava a aceitar que aquela paz era real.Na Vance Holding, a rotina também mudava.Henrique entrou em sua sala numa manhã, carregando a agenda semanal, mas com uma expressão diferente da habitual.— Senhor Vance, reparei uma coisa.Dominic ergueu os olhos do computador.— O quê?— Você tem chegado mais tarde ultimamente.E saído mais cedo.Henrique não conseguiu esconder um pequeno sorriso.— Nunca pensei que veria isso.Dominic riu, um som leve que, meses atrás, seria impensável durante o expediente.— Estou aprendendo que a empresa consegue sobreviver sem mim controlando cada minuto do dia.— E Aléxia?— Ela tem uma reunião importante h
O dia do julgamento chegou mais rápido do que Dominic esperava.Ele acordou cedo, o terno escuro já separado sobre a cadeira, exatamente como Henrique havia deixado na noite anterior.Aléxia, ainda deitada ao seu lado, abriu os olhos ao sentir o colchão se mexer.— Já vai?— A audiência é às nove.Ele se sentou na beira da cama, passando a mão pelo rosto, tentando organizar os pensamentos.Ela se aproximou, encostando a cabeça em seu ombro.— Como você está se sentindo?Dominic pensou por um instante antes de responder, com uma sinceridade que ainda estava aprendendo a praticar.— Nervoso.Mas de um jeito diferente de antes.Não é medo de encontrá-lo.É a estranha sensação de que, depois de hoje, essa história finalmente vai ter um ponto final de verdade.Aléxia segurou sua mão.— Eu vou com você.— Você não precisa.— Eu sei que não preciso.Ela sorriu, um sorriso pequeno, mas firme.— Mas eu quero.Você esteve ao meu lado em cada momento difícil que enfrentamos juntos, mesmo quando
Três semanas se passaram desde aquela noite na casa isolada, e a vida, aos poucos, começava a encontrar um novo ritmo.Dominic e Aléxia ainda estavam reconstruindo pedaços da confiança que tinha sido abalada, mas cada dia trazia um passo a mais nessa direção.Numa manhã de sábado, Aléxia acordou no apartamento dele, a luz do sol entrando pelas cortinas semiabertas.Esticou o braço, sentindo o lado da cama vazio, ainda quente.Encontrou Dominic na cozinha, tentando, sem muito sucesso, preparar panquecas.— Isso deveria estar redondo? — perguntou ela, encostada no batente da porta, tentando segurar o riso.Ele olhou para a panqueca deformada na frigideira, um pouco derrotado.— Estou interpretando "redondo" de forma bem livre hoje.Aléxia riu, aproximando-se e roubando um beijo antes de pegar a espátula de suas mãos.— Deixa que eu termino.Você cuida do café.Trabalhando juntos, entre risadas e pequenas provocações, terminaram o café da manhã, sentando-se na varanda para aproveitar a m
Dominic passou a tarde inteira organizando os pensamentos, tentando encontrar as palavras certas para o que precisava dizer.Dessa vez, não havia prazo.Não havia ameaça pairando sobre a conversa.Só ele, escolhendo, finalmente, contar tudo por vontade própria.Ligou para Leandro pedindo o mesmo lugar tranquilo de antes — a pequena casa isolada, cercada por árvores, longe do barulho da cidade.— De novo? — perguntou Leandro, um leve tom de curiosidade na voz.— De novo.Mas dessa vez é diferente.Dessa vez eu escolhi.Leandro não fez mais perguntas, apenas providenciou tudo com a mesma discrição de sempre.Ao entardecer, Dominic mandou a mensagem para Aléxia."Posso te buscar às sete? Não é urgência. É só... a hora certa, finalmente."A resposta dela veio poucos minutos depois."Estarei pronta."Às sete em ponto, ele parou o carro em frente ao prédio dela.Aléxia desceu, vestindo um casaco simples, o rosto carregando uma mistura de curiosidade e calma que ele não esperava encontrar.—
Dominic ligou para o pai assim que Álvaro foi levado pela polícia.A ligação demorou a ser atendida, cada segundo de espera parecendo carregar dezoito anos de silêncio entre os dois sobre aquele assunto.— Filho?A voz de Richard Vance soou tensa, quase temendo o motivo daquela ligação tão cedo pela manhã.— Pai.Dominic respirou fundo, sentindo o peso das palavras antes mesmo de dizê-las.— Acabou.Álvaro foi preso.Do outro lado da linha, um silêncio longo se instalou.Quando Richard finalmente falou, sua voz saiu embargada, algo que Dominic raramente ouvia vindo dele.— Depois de todos esses anos...— Depois de todos esses anos — Dominic confirmou, sentindo os próprios olhos arderem.— Você está bem? — perguntou o pai, a preocupação evidente mesmo através do telefone.— Estou.Cansado, mas estou.Richard ficou em silêncio por um instante, como se sentisse que havia mais alguma coisa por trás daquele cansaço.— Isso tudo começou por causa de uma mulher, não foi?Dominic hesitou, sur
A propriedade rural ficava isolada, cercada por plantações abandonadas e uma mata baixa que crescera livre havia anos.Quando as viaturas chegaram, o silêncio da madrugada foi quebrado apenas pelo som de botas pisando na terra seca.Dominic observava tudo a uma distância segura, ao lado de Leandro, o coração batendo com uma mistura de urgência e um cansaço que parecia acumulado de dezoito anos inteiros.— Equipe posicionada — informou um dos agentes pelo rádio.Leandro levou a mão ao fone.— Confirma visual do alvo?— Positivo.Ele está na varanda da casa principal.Sozinho.Dominic sentiu o peito apertar.— Deixem-me falar com ele antes.Leandro se virou, surpreso.— Isso não estava nos planos.— Eu sei.Dominic já estava saindo do carro.— Mas eu preciso disso.Preciso olhar para ele uma última vez, sabendo que, dessa vez, ele não vai poder fugir.Leandro hesitou, depois assentiu, avisando a equipe pelo rádio para manter distância, mas ficar pronta para qualquer movimento.Dominic c







