FAZER LOGIN( Ponto de vista dela )
Depois daquela noite no restaurante, eu achei que Dominic Vance desapareceria da minha vida tão naturalmente quanto havia aparecido.
Afinal, era o que acontecia normalmente.
Algumas pessoas cruzam o nosso caminho por alguns minutos, deixam uma boa impressão e depois seguem suas próprias vidas.
Eu tinha uma rotina cheia demais para ficar esperando reencontros improváveis.
E, sinceramente, eu nem sabia por que estava pensando tanto naquela possibilidade.
Dominic era apenas um homem gentil.
Um desconhecido que tinha me ajudado em uma manhã complicada.
Um encontro inesperado em um restaurante.
Nada além disso.
Ou pelo menos era isso que eu repetia para mim mesma.
Na segunda-feira seguinte, voltei completamente para a minha realidade.
Projetos acumulados.
Clientes exigentes.
Prazos impossíveis.
Minha mesa parecia ter uma habilidade especial para se encher de documentos sempre que eu tentava organizar tudo.
Eu gostava do meu trabalho justamente por isso.
Arquitetura exigia atenção.
Exigia criatividade.
Exigia que eu estivesse sempre pensando alguns passos à frente.
Era uma das poucas coisas na minha vida que eu conseguia controlar.
Por volta das dez da manhã, Leo apareceu na porta da minha sala com uma expressão curiosa.
— Aléxia?
Levantei os olhos do computador.
— O que aconteceu?
Ele entrou segurando uma pasta.
— Chegou uma solicitação de alteração do projeto.
Peguei a pasta da mão dele.
— De qual cliente?
— Grupo Vance.
O nome chamou minha atenção por um segundo.
Não pelo grupo em si.
Mas pela lembrança.
Dominic.
Afastei imediatamente aquele pensamento.
Era apenas uma empresa.
Um cliente.
Nada mais.
Abri o documento e comecei a analisar as alterações solicitadas.
Eram observações técnicas.
Detalhadas.
Muito bem elaboradas.
— Eles são exigentes — murmurei.
Leo deu uma risada.
— Empresas grandes sempre são.
Continuei lendo.
O responsável pela aprovação estava identificado no final da página.
Dominic Vance.
Passei o dedo pelo papel por alguns segundos.
Era estranho pensar que aquele homem, que parecia tão tranquilo tomando café comigo, era o mesmo nome por trás de uma das maiores empresas do país.
Eu sabia que ele tinha um bom emprego.
Mas não imaginava aquela dimensão.
Talvez fosse por isso que ele parecia tão seguro.
A confiança dele não vinha apenas da aparência.
Vinha de anos construindo algo.
Fechei a pasta.
— Vou revisar e responder ainda hoje.
Leo assentiu e saiu.
Tentei voltar ao trabalho.
Mas, pela primeira vez, a imagem de Dominic apareceu associada a algo além daquela manhã no carro.
Dois dias depois, eu estava saindo de uma reunião quando meu celular tocou.
Um número desconhecido.
Normalmente eu ignorava ligações assim.
Mas, por algum motivo, atendi.
— Alô?
Uma voz conhecida respondeu.
— Espero não estar incomodando.
Meu coração deu uma pequena acelerada antes mesmo de eu perceber.
— Dominic?
Ele riu do outro lado.
— Eu estava tentando descobrir se você reconheceria minha voz.
Sorri sem querer.
— Você conseguiu.
— Então considero uma vitória.
Balancei a cabeça.
— Como conseguiu meu número?
A pergunta saiu automaticamente.
Do outro lado, houve uma pequena pausa.
Curta.
Quase imperceptível.
— Seu cartão de visita.
Eu fiquei em silêncio.
Depois lembrei.
No restaurante, antes de ir embora, eu tinha entregado meu cartão quando ele perguntou sobre meu trabalho.
Fazia sentido.
— Verdade.
Sorri.
— Esqueci completamente.
— Eu queria saber se você chegou bem naquele dia.
Olhei para o corredor vazio da agência.
Era uma pergunta simples.
Gentil.
Mesmo assim, algo naquela atenção me surpreendeu.
— Cheguei.
Fiz uma pausa.
— Obrigada por perguntar.
— E também queria saber se você aceitaria aquele café que ficou pendente.
Sorri.
Então era isso.
O café.
— Você realmente não esqueceu?
— Eu tenho boa memória.
A resposta parecia simples.
Mas tinha algo no jeito que ele falou que me fez sorrir.
— Quando?
— Que tal hoje?
Olhei para o relógio.
Eu tinha mais algumas horas de trabalho pela frente.
Mas também percebi que fazia tempo que eu não fazia algo apenas por prazer.
— Hoje pode ser.
— Eu passo para buscar você.
Abri a boca para responder, mas parei.
Buscar?
Eu poderia ir sozinha.
Era o que eu normalmente faria.
Mas antes que eu recusasse, ele completou:
— Ou podemos nos encontrar em algum lugar. Como você preferir.
A segunda opção me fez relaxar.
Ele não estava impondo nada.
Apenas oferecendo.
— Vamos nos encontrar em uma cafeteria.
— Combinado.
Desliguei a ligação alguns segundos depois.
E fiquei parada olhando para o celular.
Era curioso.
Eu não costumava aceitar convites de pessoas que conhecia há tão pouco tempo.
Mas com Dominic parecia fácil.
Talvez porque ele não tentasse parecer perfeito.
Ou talvez porque, até aquele momento, ele tivesse sido exatamente aquilo que demonstrava.
Um homem gentil.
Atencioso.
E inesperadamente interessante.
Naquela tarde, enquanto eu caminhava até a cafeteria escolhida, não fazia ideia de que aquele encontro simples seria apenas mais uma peça de uma história muito maior.
Eu achava que estava apenas conhecendo alguém novo.
Uma pessoa que apareceu por acaso.
Mas algumas pessoas entram na nossa vida de uma maneira tão precisa...
Que, às vezes, fica difícil acreditar que foi apenas sorte.
As semanas seguintes ao julgamento trouxeram uma sensação estranha para Dominic.A de não ter mais nenhuma sombra pairando sobre os próprios passos.Ele se pegava, várias vezes ao dia, esperando por uma ligação urgente.Uma notícia ruim, algum sinal de que o perigo ainda espreitava em algum canto.Mas os dias passavam, tranquilos, e aos poucos ele começava a aceitar que aquela paz era real.Na Vance Holding, a rotina também mudava.Henrique entrou em sua sala numa manhã, carregando a agenda semanal, mas com uma expressão diferente da habitual.— Senhor Vance, reparei uma coisa.Dominic ergueu os olhos do computador.— O quê?— Você tem chegado mais tarde ultimamente.E saído mais cedo.Henrique não conseguiu esconder um pequeno sorriso.— Nunca pensei que veria isso.Dominic riu, um som leve que, meses atrás, seria impensável durante o expediente.— Estou aprendendo que a empresa consegue sobreviver sem mim controlando cada minuto do dia.— E Aléxia?— Ela tem uma reunião importante h
O dia do julgamento chegou mais rápido do que Dominic esperava.Ele acordou cedo, o terno escuro já separado sobre a cadeira, exatamente como Henrique havia deixado na noite anterior.Aléxia, ainda deitada ao seu lado, abriu os olhos ao sentir o colchão se mexer.— Já vai?— A audiência é às nove.Ele se sentou na beira da cama, passando a mão pelo rosto, tentando organizar os pensamentos.Ela se aproximou, encostando a cabeça em seu ombro.— Como você está se sentindo?Dominic pensou por um instante antes de responder, com uma sinceridade que ainda estava aprendendo a praticar.— Nervoso.Mas de um jeito diferente de antes.Não é medo de encontrá-lo.É a estranha sensação de que, depois de hoje, essa história finalmente vai ter um ponto final de verdade.Aléxia segurou sua mão.— Eu vou com você.— Você não precisa.— Eu sei que não preciso.Ela sorriu, um sorriso pequeno, mas firme.— Mas eu quero.Você esteve ao meu lado em cada momento difícil que enfrentamos juntos, mesmo quando
Três semanas se passaram desde aquela noite na casa isolada, e a vida, aos poucos, começava a encontrar um novo ritmo.Dominic e Aléxia ainda estavam reconstruindo pedaços da confiança que tinha sido abalada, mas cada dia trazia um passo a mais nessa direção.Numa manhã de sábado, Aléxia acordou no apartamento dele, a luz do sol entrando pelas cortinas semiabertas.Esticou o braço, sentindo o lado da cama vazio, ainda quente.Encontrou Dominic na cozinha, tentando, sem muito sucesso, preparar panquecas.— Isso deveria estar redondo? — perguntou ela, encostada no batente da porta, tentando segurar o riso.Ele olhou para a panqueca deformada na frigideira, um pouco derrotado.— Estou interpretando "redondo" de forma bem livre hoje.Aléxia riu, aproximando-se e roubando um beijo antes de pegar a espátula de suas mãos.— Deixa que eu termino.Você cuida do café.Trabalhando juntos, entre risadas e pequenas provocações, terminaram o café da manhã, sentando-se na varanda para aproveitar a m
Dominic passou a tarde inteira organizando os pensamentos, tentando encontrar as palavras certas para o que precisava dizer.Dessa vez, não havia prazo.Não havia ameaça pairando sobre a conversa.Só ele, escolhendo, finalmente, contar tudo por vontade própria.Ligou para Leandro pedindo o mesmo lugar tranquilo de antes — a pequena casa isolada, cercada por árvores, longe do barulho da cidade.— De novo? — perguntou Leandro, um leve tom de curiosidade na voz.— De novo.Mas dessa vez é diferente.Dessa vez eu escolhi.Leandro não fez mais perguntas, apenas providenciou tudo com a mesma discrição de sempre.Ao entardecer, Dominic mandou a mensagem para Aléxia."Posso te buscar às sete? Não é urgência. É só... a hora certa, finalmente."A resposta dela veio poucos minutos depois."Estarei pronta."Às sete em ponto, ele parou o carro em frente ao prédio dela.Aléxia desceu, vestindo um casaco simples, o rosto carregando uma mistura de curiosidade e calma que ele não esperava encontrar.—
Dominic ligou para o pai assim que Álvaro foi levado pela polícia.A ligação demorou a ser atendida, cada segundo de espera parecendo carregar dezoito anos de silêncio entre os dois sobre aquele assunto.— Filho?A voz de Richard Vance soou tensa, quase temendo o motivo daquela ligação tão cedo pela manhã.— Pai.Dominic respirou fundo, sentindo o peso das palavras antes mesmo de dizê-las.— Acabou.Álvaro foi preso.Do outro lado da linha, um silêncio longo se instalou.Quando Richard finalmente falou, sua voz saiu embargada, algo que Dominic raramente ouvia vindo dele.— Depois de todos esses anos...— Depois de todos esses anos — Dominic confirmou, sentindo os próprios olhos arderem.— Você está bem? — perguntou o pai, a preocupação evidente mesmo através do telefone.— Estou.Cansado, mas estou.Richard ficou em silêncio por um instante, como se sentisse que havia mais alguma coisa por trás daquele cansaço.— Isso tudo começou por causa de uma mulher, não foi?Dominic hesitou, sur
A propriedade rural ficava isolada, cercada por plantações abandonadas e uma mata baixa que crescera livre havia anos.Quando as viaturas chegaram, o silêncio da madrugada foi quebrado apenas pelo som de botas pisando na terra seca.Dominic observava tudo a uma distância segura, ao lado de Leandro, o coração batendo com uma mistura de urgência e um cansaço que parecia acumulado de dezoito anos inteiros.— Equipe posicionada — informou um dos agentes pelo rádio.Leandro levou a mão ao fone.— Confirma visual do alvo?— Positivo.Ele está na varanda da casa principal.Sozinho.Dominic sentiu o peito apertar.— Deixem-me falar com ele antes.Leandro se virou, surpreso.— Isso não estava nos planos.— Eu sei.Dominic já estava saindo do carro.— Mas eu preciso disso.Preciso olhar para ele uma última vez, sabendo que, dessa vez, ele não vai poder fugir.Leandro hesitou, depois assentiu, avisando a equipe pelo rádio para manter distância, mas ficar pronta para qualquer movimento.Dominic c







