MasukRolo os olhos para cima.
— Lógico, que burra que eu sou.
— E eu morei alguns anos aqui no Brasil a trabalho. Mas isso tem muito tempo.
O garçom serve nossas taças e Park se vira ligeiramente em minha direção para brindarmos. O vinho é delicioso.
— Gostou do vinho, senhorita Márcia?
Ele se inclina para falar pertinho do meu ouvido. Sinto seu perfume refrescante e sofisticado. Uma mistura de cheiro de mar e odor de pecado. Fecho os olhos para degustar melhor o vinho e me viro para ele, do mesmo jeito que fez comigo e sussurro:
— De-li-ci-o-so.
Digo enfatizando cada sílaba. Ele percebe o jogo de sedução. Acrescento:
— Pode me chamar de Márcia, capitão.
Ele faz um aceno com a cabeça discreto e se volta para o tripulante ao seu lado. O salão do restaurante está lotado. Não para de entrar gente. Mesas com famílias, amigos, conhecidos. Pessoas se conhecendo. Barulho, conversa alta. A banda começa a tocar em um canto.
Sinto-me deslocada. Não conheço ninguém, estou sozinha no navio e minhas novas amigas estão distante em algum lugar do restaurante.
Pronto. Excelente momento para uma crise de ansiedade. Eu a sinto chegando sorrateira. O ar me falta. Meus olhos enchem-se de água e me seguro para não chorar. Que merda! Eu me lembro então das recomendações do meu psiquiatra para quando eu estiver em uma crise: “Puxe o ar e solte devagar”. Faço isso repetidas vezes quando sinto uma mão enorme pousar sobre a minha.
— Vem comigo.
O capitão Park me puxa pelo pulso com firmeza, mas seu toque é suave e seus dedos parecem acariciar a minha pele. Ele segue em direção ao deck externo. Abre a porta e me coloca sentada em uma cadeira de frente para o mar.
Durante o trajeto, percebi que os olhares estavam sobre nós, mas Park com seu olhar frio e sisudo, não permite a aproximação de nenhum curioso.
Ele se agacha diante de mim e segura minhas mãos.
— Eu sei o que é uma crise de ansiedade. Não deixe que ela tome conta de você. Está indo muito bem, respire e solte o ar devagar.
Eu o obedeço e sigo fazendo as respirações ritmadas. Estou de olhos fechados agora e não sei se tenho coragem de abri-los com Park tão perto de mim.
Sinto o vento fresco do oceano, o cheiro do mar misturado ao perfume de Park e a firmeza de suas mãos envolvendo as minhas, em vez de me acalmar me deixam ainda mais tensa.
— Não está funcionando — Choramingo.
— Você usa medicamentos para ansiedade? — Ele pergunta com um tom de preocupação na voz que me agrada. Aquece meu coração. Eu só confirmo com a cabeça.
— E você tomou os medicamentos hoje? — O tom de voz dele já sai enviesado, como se estivesse me repreendendo. Eu acho engraçado e solto um sorriso. Faço que não com a cabeça.
— Márcia, olha para mim.
Eu reluto por uns instantes, puxo o ar profundamente e abro os olhos devagar. O capitão Park está sério me encarando.
— Os medicamentos existem para tratar doenças. A ansiedade é uma doença. Você não é fraca por ter ansiedade. Não faça mais isso.
Minha boca está seca. Tudo o que o capitão Park diz é verdade e faz total sentido para mim. No entanto, parece uma fraqueza que eu deveria combater. Que bobagem a minha.
— O senhor têm razão, capitão Park. Eu vou tomar os meus remédios assim que chegar na minha cabine. — E agora? Que vergonha que eu passei.
Digo e escondo meu rosto entre as mãos. Eu sou mesmo patética. As lágrimas começam a brotar em meu rosto quando percebo alguém se aproximar. É Juan, o barista que me serviu café hoje mais cedo e que está trabalhando como garçom no restaurante agora. Ele traz uma bandeja com uma taça de champanhe.
Park se levanta, e estende a mão para mim. Ele pega a taça da bandeja de Juan e me entrega, ao mesmo tempo que apoia sua mão enorme sobre o ombro do garçom.
— Não sei o que seria de mim sem você, Juan, meu melhor tripulante.
Juan abre um sorriso branco e coloca a bandeja debaixo do braço.
— É o que digo senhor: O álcool pode causar problemas, mas também é a solução para muitos deles.
— Obrigada, Juan. Não sei o que dizer.
O homem, que agora sei que é mexicano por causa da bandeira em seu crachá se inclina para mim e cochicha.
— Não diga nada, senhorita. Aproveite a companhia deste senhor “hermoso”.
E entra novamente no restaurante como se não tivesse vindo me socorrer.
Agora estamos em silêncio e um clima estranho pesa entre nós dois. Park olha para mim, ajeita os óculos no rosto com a ponta do indicador e dá um meio sorriso.
— A senhorita está melhor? Podemos retornar? Tenho certeza de que deixamos o restaurante inteiro curioso.
Arregalo os olhos e fico vermelha, com certeza.
— Meu Deus! E agora?
Pela primeira vez vejo Park abrir um sorriso gigantesco. E que sorriso lindo!
— Ninguém aqui fez nada de errado e não devemos nada a ninguém. Vamos voltar, senhorita. Precisa comer.
O capitão Park põe a mão no meu ombro ao me guiar para o interior do restaurante e abre a porta gentilmente para mim. Ele abre caminho com seu porte vultoso a minha frente e enquanto caminhamos de volta para a mesa, sinto os olhares sobre nós. Bebo toda a taça de champanhe em minhas mãos. Enquanto não tomo meus ansiolíticos ela vai me ajudar.
No curto trajeto do deck até a mesa, percebo que os homens e as mulheres nos observam de maneiras diferentes. Os homens parecem admirar o capitão Park, como se ele fosse um herói em seu uniforme de marinheiro. Alguns olham para mim de cima a baixo, de um jeito meio cobiçoso.
Já as mulheres olham para Park com desejo, sonhando em tê-lo ao lado delas. Por outro lado, olham para mim com inveja e desdém, como se questionassem quem é essazinha que anda na companhia do capitão.
O vento forte do mar b**e em meu rosto e bagunça os meus cabelos. Fecho os olhos para sentir melhor o perfume salgado e o frescor marinho em minha pele. Park me abraça por trás com suas mãos grandes e fortes e acaricia a minha barriga de seis meses de gravidez com suavidade. Sinto seus dedos deslizando por meu corpo e seus beijos que percorrem minha nuca e descem por minhas costas.Após o nosso casamento, passamos 15 dias viajando com meus pais a bordo. Fizemos um cruzeiro até a Argentina, com direito a vários passeios em terra e retornamos ao Rio de Janeiro para deixá-los em casa.Eu aproveitei o desembarque para visitar a minha ginecologista. A minha menstruação não tinha chegado e eu sentia alguns enjoos diferentes. Primeiro, enjoei do meu creme de cabelo importado e super perfumado que eu amava. Fiquei tão mal por causa disso… Depois, em uma manhã, não suportei sentir o perfume que o Park usava e pelo qual eu era apaixonada. Fiz ele tomar banho para tirar o cheiro e para que eu par
Entro no salão onde dancei tango com Park pela primeira vez. Só que agora, estou sendo conduzida por meu pai ao altar em que sou aguardada por meu noivo, o capitão Park. Quem poderia imaginar que um cruzeiro de sete dias em um navio transformaria a minha vida para sempre? Que uma traição que a princípio parecia ter me destruído, me guiaria até os meus dias de maior felicidade e ao encontro do amor da minha vida?O salão foi organizado com cuidado. As mesas com os convidados, ocupadas por toda a tripulação, estão adornadas com flores brancas e adornos prateados, seguindo o tom das minhas joias e do meu vestido.A Marcha Nupcial começa, e o mundo parece se recolher em silêncio. O corredor se alonga diante de mim como uma ponte entre o passado e o que virá depois. Cada passo que eu dou é uma memória se despedindo, um sonho se cumprindo.E então eu o vejo. Park.De pé, no altar, com aquele porte distinto que sempre o faz parecer parte do mar, inabalável, eterno.Ele usa o uniforme branco
“Park Ji-Hoon”— Patron! Acabou o expediente. O juiz de paz chegou e os seus padrinhos também! É hora do noivo ficar pronto!Ergo os olhos e vejo tudo embaçado. Suspiro cansado. Olho para o relógio e vejo que já são dezessete horas. Estou bastante atrasado. Me levanto de um pulo. Eu fiquei tão concentrado no trabalho que nem me dei conta de que a hora tinha passado tão rápido. Vou tomar um banho e me vestir para o meu esperado casamento. Ser homem é tão mais simples e prático. A Márcia deve estar se arrumando há horas. Estou curioso para vê-la e tê-la definitivamente como minha esposa para sempre em minha vida.Juan e o delegado Cauã serão os meus padrinhos. O primeiro por ser meu amigo fiel e da mais absoluta confiança, o segundo, por ter nos ajudado com eficiência e presteza nas ocorrências no navio, causadas pela maldade da Na-Ri. Ele tem a minha amizade e a minha eterna gratidão.— Se meu padrinho está dizendo, quem sou eu para afirmar o contrário.Levanto-me de trás da minha mesa
“Henrique”Estou há mais de um dia enfurnado neste hotel mequetrefe esperando uma ligação da dona Heloísa. Quando eu dei por mim que ela não estava atendendo às minhas ligações e nem respondendo minhas mensagens, fui lá bater à porta desses velhos malucos, vai que eles tiveram um infarto ou algo do gênero?Mas, nããão! Os velhos safados foram embora e me deixaram aqui e só agora chega a mensagem da dona Heloísa mandando eu voltar para casa, pois ela e o seu Carlos estavam no navio com a Márcia.Eu tô sentindo cheiro de armação por aí. Bem que aquela coreana que trabalha no navio me falou que a Márcia estava se engraçando com o capitão do cruzeiro. Eu deveria ter enchido a cabeça na mãe dela, mas fiquei com vergonha de admitir que era corno.E agora, estou aqui, ferrado de grana e cheio de dívidas. A Márcia sempre me ajudou a pagar as minhas despesas, pois ela ganha bem, é funcionária pública, tem estabilidade. Tem mais é que me ajudar, mesmo. Somos um casal, afinal de contas.Meus curs
A manhã começou agitada por aqui. Tomei o café da manhã na cama com o meu noivo, entre beijos e alguns momentos mais ousados, em tempo recorde. Após um banho quente e relaxante, nos dirigimos cada um para a sua missão: Park trabalharia intensamente na parte da manhã e à tarde passaria o comando do navio para o Imediato, para poder se arrumar para o casamento, enquanto eu, minha mãe e minhas madrinhas, éramos assistidas por Olivia, a estilista do navio, uma americana formada na Escola de Moda Parsons, em Nova Iorque. Ela era a responsável pelo figurino dos atores dos espetáculos diários que aconteciam no teatro do navio.A Olivia tem duas auxiliares que ficam doidas com ela, a Francisca e a Inês, duas portuguesas que são irmãs e aprendizes dela. O português da estilista é perfeito, haja vista trabalhar tanto tempo com duas portuguesas.— Márcia, estes são os vestidos que o ateliê enviou. Três modelos para você escolher. O mesmo vale para vocês três, mãe e madrinhas.A Olivia, sabendo q
“Park Ji-Hoon”A mãe da Márcia me encara de um jeito divertido. Parece que as reservas dela quanto a mim caíram, assim espero.— Que bom que a senhora já compreendeu do que se trata. — Respondo. — Facilita muito as coisas para mim e para a senhorita Márcia.A senhora Heloísa se ajeita na cadeira e olha para a filha.— Márcia, as suas amigas, a Bete e a Marta me contaram sobre o que aconteceu. Eu sinto muito e lamento não ter te escutado. Inclusive, mandei uma mensagem para o Henrique o repreendendo e recomendei que ele retorne para casa, pois não tem mais o que conversar com você.Márcia estende a mão sobre a mesa e segura a mão da minha sogra. Seus olhos estão marejados e ela exibe um sorriso sincero e aliviado no lindo rosto.— Obrigada, mãe, por compreender o que aconteceu.A senhora Heloísa faz um gesto balançando a mão para os lados como se estivesse espantando o passado incômodo que, felizmente, acabou. Ela olha agora para mim e continua seu pensamento.— Capitão Park, vejo que







