FAZER LOGINPOV: MARI
Na terça-feira à noite, eu cheguei no andar dele sentindo que um caminhão tinha passado por cima da minha coluna. Gabriel estava no sofá. A camisa social com as mangas dobradas até os cotovelos, o notebook no colo e o fone sem fio em uma orelha. Ele falava baixo, num inglês impecável e arrastado de cansaço, resolvendo algum incêndio do outro lado do oceano. Quando escutou a porta abrir, ele ergueu dois dedos na minha direção, sem desviar os olhos da tela. Fui direto pra cozinha. Larguei minha bolsa na bancada e fiquei ali, parada de frente pra geladeira de inox, esperando o meu cérebro voltar pro meu corpo. Não voltei pra sala. Puxei o meu próprio computador da bolsa, abri na ilha de mármore e comecei a responder a enxurrada de e-mails da agência que eu tinha ignorado durante a tarde. Quando Gabriel finalmente fechou a tampa do Mac e tirou o fone, o relógio do micro-ondas já marcava quase meia-noite. Ele arrastou os pés até a cozinha, esfregando o rosto com as duas mãos. Parou do outro lado da bancada e me olhou de verdade pela primeira vez na noite. — Desculpa. — Não precisa. Fomos pro sofá. A cidade zumbia lá embaixo, indiferente, mas dentro do apartamento o ar parecia denso, difícil de puxar. Ficamos ali, os dois com os notebooks descansando no colo, assistindo ao noticiário no mudo sem absorver uma única palavra. Olhei pra ele de relance. Gabriel estava com aquela expressão cravada de quem saiu da reunião, mas a reunião não saiu dele. A linha do maxilar rígida, o olhar fixo no nada. E eu percebi, com um gosto amargo na boca, que estava exausta demais pra tentar arrancar ele daquele estado. O problema não era o cansaço físico. Eu aguentava virar noites trabalhando. O que me deu um soco no estômago foi perceber que eu estava cansada demais até pra sentir falta dele direito. Arquivei essa constatação na gaveta mental das coisas que eu não sabia resolver. Na quinta-feira, eu decidi que ia arrancar a nossa noite de volta na marra. Passei na adega voltando do escritório e comprei um vinho tinto que custava mais do que eu deveria pagar. Subi pro apartamento dele com a garrafa na mão e a energia cega de quem quer forçar as coisas a voltarem ao normal. Entrei com a minha cópia da chave. Gabriel estava de costas, em pé na sacada, com o celular colado na orelha e a mão livre gesticulando no ar. O tom de voz dele era duro, corporativo. Ele ouviu o barulho da chave. Não virou. Apenas ergueu a mão esquerda pra trás. Os mesmos dois dedos. Dez minutos. Deixei a garrafa de vinho em cima da bancada. Puxei a banqueta alta e sentei. Dez minutos viraram vinte. Vinte viraram meia hora. Fiquei encarando o rótulo da garrafa até a frustração começar a queimar no meu peito. Respirei fundo, abri a mochila e puxei o notebook. O clique da tela acendendo pareceu alto demais na cozinha silenciosa. Revisei planilhas, ajustei o cronograma da Beatriz Moran, alterei fontes que não precisavam ser alteradas, fingindo pra mim mesma que aquilo era foco profissional e não falta de opção. Quando ele finalmente encerrou a chamada e entrou na cozinha, a tela do meu computador iluminava o balcão. A garrafa de vinho continuava exatamente no mesmo lugar. Fechada. Intocada. Ele olhou pro rótulo escuro. Depois olhou pra mim. Os ombros dele caíram, derrotados por um cansaço que pesava uma tonelada. — Desculpa. Continuei digitando, sem tirar os olhos da tela. — Não precisa. Ninguém foi na gaveta procurar o saca-rolhas. Ninguém fez uma piada pra quebrar o clima. A garrafa ficou ali entre nós dois, como um monumento ridículo a uma noite que tinha sido planejada com intenção e morrido por falta de espaço. Na sexta-feira de manhã, a conta do sono atrasado chegou. Eu estava na copa da agência, encarando a máquina de café expresso, quando Tati parou do meu lado. Ela não disse "bom dia". Ela apenas encostou o quadril na pia e me avaliou com aquela precisão de raio-x que me tirava do sério. — Você tá com uma cara péssima. — Valeu. É o excesso de trabalho. — Não é trabalho. Tomei um gole do café puro, queimando a língua, e fingi que ela não tinha acertado o alvo. Tati cruzou os braços, firme. Ela não ia recuar. — Sabe quando você constrói uma rotina milimétrica com alguém... — comecei, rodando a caneca entre as mãos, os olhos fixos no líquido escuro. — E de repente, sem ninguém fazer nada de errado, a rotina começa a sumir? Ela não respondeu de imediato. O barulho dos teclados na sala ao lado preenchia o fundo. — A rotina de vocês não sumiu, Mari. — A voz da Tati saiu mais suave do que o normal. — Ela só ficou mais pesada. É diferente. Ergui o rosto. — Você acha? — Tenho certeza. Vocês passaram meses construindo a base. A base tá aí. Só que agora o nível de dificuldade subiu. Fiquei mastigando aquilo. Tentando decidir se a resposta me acalmava ou me deixava mais apavorada. — Isso é pra ser um consolo de amiga? — provoquei, sem humor. — Não. É um diagnóstico de quem tá vendo de fora. Ela deu dois tapinhas no meu ombro e saiu da copa, me deixando sozinha com o resto do café amargo e uma verdade difícil de engolir. O golpe de misericórdia veio no sábado de manhã. Eu estava de calça de moletom, sentada no sofá do meu apartamento com os joelhos encolhidos, quando Gabriel saiu do banho. Ele parou no meio da sala, secando o cabelo com a toalha. — Meu voo pra Lisboa tá confirmado. Parei com a caneca no meio do caminho até a boca. — Que semana? — Na próxima. Vou na segunda, volto na sexta à noite. Alinhamento de fundação com os parceiros europeus. Meu cérebro fez o cálculo antes mesmo de eu querer pensar no assunto. Eu abri o aplicativo de calendário no celular por puro reflexo, embora eu soubesse de cor o que estava lá. A minha tela acendeu. Um bloco enorme e vermelho na quinta-feira. A reunião de fechamento do primeiro polo de expansão com a Beatriz. O dia mais importante da minha carreira até ali. — Tudo bem — murmurei, bloqueando a tela do celular e jogando o aparelho na almofada. Gabriel parou de secar o cabelo. Ele abaixou a toalha, os olhos escuros travados no meu rosto. Ele sabia. — Você tem a quinta-feira. Apertei os dedos na cerâmica da caneca. — Eu sei. — E eu sei que você sabe. A frase ficou pendurada no meio da sala. Não tinha acusação no tom dele. Não tinha raiva, nem cobrança, nem drama. Tinha apenas o peso esmagador de uma constatação mútua. Nós dois tínhamos visto o abismo se abrir no chão da sala ao mesmo tempo, e nenhum dos dois sabia como pular por cima dele. Virei o rosto de volta pra televisão desligada. Ele jogou a toalha no encosto da cadeira. E foi ali, escutando os passos dele se afastando pro quarto, que a realidade bateu com força. Antes, a nossa rotina era o lugar seguro onde a gente se encontrava sem esforço. Agora, o nosso relacionamento tinha virado um quebra-cabeça que exigia planejamento, sacrifício e encaixe. E tentar encaixar o tempo todo, descobri tarde demais, esgota pra cacete. Ou, se quiser algo ainda mais seco e com mais impacto no silêncio: E tentar encaixar o tempo todo, descobri tarde demais, também cansa.Nota da Autora ❤️E assim termina a história de Mari e Gabriel.Ou pelo menos a parte deles que vocês puderam ver.Obrigada por cada comentário, cada teoria, cada surto e cada mensagem ao longo dessa jornada. Vocês fizeram Meu CEO Impossível ( Não Estava no Contrato) crescer capítulo após capítulo.Se você gostou dessa história, aproveita para conhecer também meus outros livros aqui na plataforma:📚 Meu Chefe é o Pai do Meu Bebê📚 Capturada pelo Alfa da Floresta Negra📚 O Contrato Dizia Esposa, Ele Entendeu Propriedade📚 O Dono do TigrinhoAgora eu preciso fazer uma pergunta.Porque existe um homem nesta história que muita gente não conseguiu esquecer.Vinícius Serrão.Controlador.Frio.Obcecado por vencer.Acostumado a ter tudo sob controle.E que acabou de perder a única coisa que acreditava que jamais perderia.Mas existe uma história que eu ainda não contei.Uma história mais intensa.Mais sombria.Mais obsessiva.Mais perigosa.E definitivamente mais quente.🔥O problema é
POV: GABRIELO barulho da máquina de expresso cortou o silêncio do apartamento às sete da manhã.A terça-feira começou igual a qualquer outra. Sem viagem marcada. Sem data especial. Sem nenhum aviso no calendário dizendo que aquele dia era diferente.E, ainda assim, era.A prova mais simples de que aquilo que a gente tinha vivido no Rio não tinha sido exceção. Não tinha sido um intervalo bonito dentro da correria. Era a nossa vida. A vida real. A rotina. O que sobrava quando ninguém estava tentando impressionar ninguém.Tirei as duas canecas da máquina.A fumaça subiu devagar. O cheiro do café se espalhou pela cozinha enquanto o ar frio entrava pela fresta da varanda.Mari passou por mim usando calça social de alfaiataria e uma camisa de seda clara, segurando um salto em uma mão e o celular na outra, os olhos correndo por algum e-mail que provavelmente já tinha chegado com problema.Coloquei a caneca dela sobre a bancada.Encostei o quadril no mármore e cruzei os braços.— Eu queria t
POV: MARIO café virtual da minha mãe virou uma intimação irrevogável para um almoço de domingo na casa dela, no Rio de Janeiro.O calor úmido do fim de manhã grudava na roupa quando a gente passou pelo portão.Eu já tinha vindo imaginando a casa cheia de voz, cheiro de comida e minha mãe na cozinha fazendo mil coisas ao mesmo tempo. O que eu não esperava era parar no meio da entrada e encontrar Caetano sentado à mesa da varanda, como se tivesse nascido ali.Ele levantou o copo de cerveja que estava na mão e abriu um sorriso escandalosamente satisfeito.— Até que enfim — ele falou. — Eu já tava achando que a ponte aérea tinha caído.Eu pisquei uma vez, ainda tentando entender como ele tinha chegado antes de mim.Gabriel parou do meu lado. O olhar dele foi de Caetano pra mim e voltou, sem nenhuma pressa.— O que você tá fazendo aqui? — perguntei, apontando pra ele com a mão livre.— Dona Isabel me adotou faz meia hora — ele respondeu, sem o menor remorso. — E eu aceitei.A risada da m
POV: MARI A agência estava em festa desde o fim da tarde. Salgado frito, espumante aberto, papelão de caixa de entrega, gente falando alto demais. Tudo misturado no andar térreo do sobrado, que naquela noite parecia menor do que era e mais cheio de vida do que em qualquer outro dia. Eu estava na copa, tentando passar cem brigadeiros para bandejas de acrílico sem derrubar nada, quando a Tati entrou com o celular na mão e a playlist estourando baixo no bolso. — Se o próximo estagiário mexer nesse som, eu juro que mato — ela resmungou, já olhando para a tela. — A essa altura, o crime seria deixar tocar Evidências — falei, sem tirar os olhos das forminhas. Ela me lançou um olhar rápido e veio pegar um brigadeiro antes que eu pudesse impedir. — Você tá estranha desde ontem — ela disse, mastigando. Não respondi na hora. Eu ainda estava com aquele abraço do Gabriel preso no corpo. O jeito como ele tinha entrado na minha cozinha, me puxado pra perto e ficado quieto como se estivesse
POV: GABRIEL O despertador vibrou mudo em cima da mesa de cabeceira. Seis da manhã. A claridade ainda era cinza lá fora. Terminei de dar o nó da gravata de frente pro espelho, mas meu olho não saía do reflexo da cama. Mari dormia de bruços. O lençol jogado na altura da cintura, a pele das costas subindo e descendo devagar. O quarto inteiro ainda cheirava a ontem à noite. Peguei a chave do carro. Fui até a porta. Parei com a mão na maçaneta e voltei. Sentei na beira do colchão. O peso fez ela se mexer um pouco, mas não acordou. Afundei a mão no cabelo embaraçado dela e encostei a boca na curva quente do pescoço. Fiquei ali mais tempo do que devia, respirando a pele dela, engolindo a vontade de cancelar a agenda inteira. Levantei de vez. * A sala de reunião do conselho mantinha o ar-condicionado cravado no limite do frio. Eu estava na cabeceira da mesa de vidro fumê. O diretor de operações trocou o slide, e o calendário da operação europeia piscou na parede. — O cronograma por
"Você achou seu lugar." A voz da minha mãe repetiu em loop na minha cabeça. O ar frio do escritório batia nas minhas costas. Minha perna direita, que sempre balançava debaixo da mesa quando a ansiedade atacava, estava fincada no chão. Dura. Estável. Na minha frente, Beatriz arrastou o dedo por cima da planta baixa impressa. — Faria Lima, Mari. Um escritório de verdade. A gente precisa tirar a base daqui se quiser dobrar o faturamento. Você sabe disso. Minha garganta não fechou. Meu estômago não despencou. Apoiei as mãos espalmadas no papel. — Não. Beatriz parou a tampa da caneta no ar. — A gente aluga o galpão da zona sul só para a logística. — A minha voz saiu raspando, mas firme. — A base fica aqui. A gente expande a loja, derruba a parede do fundo. Mas a raiz não sai daqui. O silêncio engoliu a sala por três segundos inteiros antes da Tati encostar no batente da porta. Braços cruzados, aquele meio sorriso de sempre. — Você não precisa escolher entre crescer e f







