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capítulo 4

Penulis: Loba azul
last update Tanggal publikasi: 2026-10-30 01:24:41

:Capítulo 4: O Gelo

O impacto físico da minha mão contra o ombro dela não foi planejado. Quando a professora simplesmente puxou o corpo num movimento brusco e seco, desvencilhando-se do meu aperto com um desprezo incandescente, o silêncio na ladeira tornou-se absoluto. Ela virou as costas para mim e retomou a sua caminhada em direção aos portões da escola, com a espinha monumentalmente reta e os passos firmes, sem sequer olhar para trás.

Deixei a minha mão cair lentamente ao lado do corpo. Os meus vapores entreolharam-se inquietos, os fuzis tensionados nas bandoleiras, aguardando a ordem de execução ou de captura, completamente perdidos diante da minha paralisia inexplicável. No meu mundo, uma afronta daquelas em praça pública era punida com sangue. Mas, por algum motivo sombrio que desafiava a minha própria lógica predatória, eu não queria destruí-la.

Ergui apenas a mão direita num gesto milimetricamente silencioso, ordenando que ninguém movesse um único músculo. Observei a silhueta dela desaparecer atrás dos portões enferrujados da escola municipal, sentindo uma pulsação possessiva, perigosa e inédita fincar raízes no centro exato do meu peito.

Voltei para o interior escuro do SUV blindado. O motorista não precisou de ordens; ele engatou a marcha e o carro começou a subir as vielas estreitas e íngremes em direção ao topo absoluto da comunidade.

Enquanto a paisagem caótica do morro passava pela janela escurecida, encostei a cabeça no banco de couro, a mente trabalhando num ritmo frenético. Ninguém ali fora fazia a menor ideia de quem eu realmente era, além da faceta do Gelo. Para eles, eu era o cria que sobreviveu à carnificina das ruas, o homem implacável que tomou o poder e fechou a favela para o resto do mundo. E isso era verdade. Mas era apenas metade da minha existência.

Aos dezoito anos, quando eu já tinha as mãos sujas de sangue e o controle de boa parte do armamento local, o meu passado bateu à porta de forma bizarra. O meu pai biológico me encontrou. Um bilionário do asfalto, dono de um conglomerado internacional de tecnologia e infraestrutura, que estava morrendo de um câncer terminal e não tinha herdeiros legítimos além do bastardo que ele havia abandonado na miséria. Ele me ofereceu o mundo, a fortuna, o sobrenome e o poder corporativo, achando que eu beijaria os seus pés por me tirar do inferno.

Mas ele não entendeu que eu já era o rei do meu próprio inferno.

Eu aceitei a herança, assumi a presidência da empresa e o controle das contas bilionárias, mas recusei-me a abandonar o morro. O asfalto era um ninho de cobras engravatadas, de mulheres fúteis que se vendiam por bolsas de grife e acionistas hipócritas. Eu precisava de uma âncora na realidade brutal, um lugar onde o poder fosse medido pela força bruta e não por assinaturas em contratos. E foi assim que a minha manobra perfeita nasceu.

O carro parou diante de imensos portões de aço no ponto mais alto e inacessível do morro. Eles se abriram silenciosamente, revelando a minha fortaleza. Diferente dos barracos amontoados lá embaixo, a minha casa era uma mansão encravada na rocha, desenhada por arquitetos que foram trazidos de fora com os olhos vendados. Havia muros impenetráveis, tecnologia de bloqueio de drones e uma visão panorâmica e deslumbrante de toda a cidade do Rio de Janeiro. Era aqui que eu existia na minha forma verdadeira. Perfeito, intocável e letal.

Desci do carro e caminhei pelos corredores amplos e silenciosos da casa, parando diante do espelho de corpo inteiro no meu quarto. A logística para manter as duas vidas separadas era um mecanismo de relojoaria que não admitia falhas.

No asfalto, eu havia forjado um "acidente grave" de helicóptero logo após a morte do meu pai. Esse teatro me permitiu criar a máscara perfeita. Para a alta sociedade, a minha perna direita ficou permanentemente comprometida, obrigando-me a usar uma bengala e a mancar, e o lado esquerdo do meu rosto carregava cicatrizes profundas. A maquiagem prostética e o silicone hiper-realista que eu usava na empresa afastavam as mulheres interesseiras que tinham nojo da minha aparência "deformada" e faziam os concorrentes me subestimarem, achando que eu era um aleijado amargurado e fraco.

A transição entre o bilionário e o traficante ocorria no submundo da minha cobertura no asfalto. Eu possuía uma garagem subterrânea blindada, sem câmeras de segurança, conectada a um elevador privativo que só funcionava com a minha biometria. Eu entrava ali mancando, como o CEO debilitado, limpava o rosto, trocava de carro e saía pelo acesso de serviço como o Gelo, fisicamente impecável e letal. E o morro era fechado. Literalmente. Nenhum morador saía sem permissão para frequentar as mesmas festas da elite que eu patrocinava, e nenhum engravatado do asfalto tinha autorização ou coragem para pisar nas minhas ruas. Dois mundos blindados, divididos por uma linha invisível e violenta que só eu cruzava.

Fui até a imensa parede de vidro da varanda, apoiando as mãos no parapeito, olhando lá para baixo, na direção exata de onde ficava o telhado da escola municipal.

Eu tinha o controle absoluto de tudo. Do mercado financeiro legal ao mercado de entorpecentes ilícitos. Eu ditava quem vivia e quem morria. Mas aquela mulher... a imagem da professora Dila, com o queixo erguido e os olhos em chamas, ainda queimava na minha retina. Ela não tinha se encolhido. Ela não tinha implorado. Ela simplesmente virou as costas para o dono daquela porra toda.

Um sorriso lento, obscuro e desprovido de qualquer calor humano repuxou os meus lábios. Ela era um elemento fora da curva. Uma anomalia na minha equação perfeita. Se ela achava que a sua pose de educadora inabalável ia mantê-la segura dentro do meu território, ela estava prestes a descobrir que, no meu tabuleiro, o jogo nunca terminava quando a peça virava as costas.

Eu não a traria para o asfalto. Pelo menos não ainda. Eu queria vê-la queimar no meu próprio território. Queria dobrar aquela espinha reta dentro do ambiente onde ela se achava a salvadora.

Liguei o rádio comunicador que estava preso no meu cinto, apertando o botão na frequência exclusiva dos meus subgerentes de confiança, a voz saindo baixa e letal.

— Quero dois vapores monitorando as saídas da escola, dia e noite. Invisíveis. Não encostem um dedo nela. Mas quero saber a hora que ela respira, com quem ela fala e qual é o caminho que ela faz para ir embora. A professora agora é assunto meu.

O chiado afirmativo do outro lado da linha foi a única resposta necessária. Desliguei o rádio, os meus olhos fixos no ponto distante do colégio. A caçada no morro tinha acabado de começar.

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