FAZER LOGINFinalmente... Vivendo.
Aquilo não tinha preço. Por um momento fechei os olhos, deixei o ar bater no rosto, meus olhos se enxergam de lágrimas, e minha vida toda bateu na minha mente. Todos os tratamentos, o tempo longe de casa. sempre se contendo, sempre olhando as outras crianças viver. E agora... Eu tinha tão pouco tempo. Prometi a mim mesma que não importa quem tentasse me parar, eu não morreria sem viver antes. ... Quando desci, as pernas vacilaram. A visão escureceu nas bordas, como sempre acontecia quando a adrenalina ultrapassava o limite. Alguém segurou meu braço. — Moça, você está bem? perguntaram. Assenti devagar. Eu estava. Estava muito bem. Outra pessoa trouxe água. Dessa vez não desmaiei. Não apaguei. Só precisei respirar fundo, sentir o chão sob os pés, lembrar meu nome. E sorri. Sorri porque nunca tinham me deixado ir a um parque de diversão. Sorri porque agora eu era maior de idade, porque, pela primeira vez, eu tinha ido sozinha a algum lugar. Enquanto me afastava, ainda tonta, pensei em tudo o que me foi negado em nome da prudência. Em quantas vezes me disseram: “não agora” “não é seguro” “talvez depois, quando estiver melhor”. Depois nunca chegou. Talvez fosse isso que mais doesse. Não a doença. Mas a ideia de ter sobrevivido por tanto tempo sem realmente viver. O que vale mais? Uma vida inteira preservada, intocada, silenciosa… Ou um tempo menor, vivido com intensidade, riso e escolhas próprias? Enquanto as luzes do parque brilhavam ao meu redor, eu já sabia a resposta. E, pela primeira vez, não senti medo dela. Eu a perseguiria, porque dessa vez eu tinha escolha, e seria viver intensamente o pouco que ainda me restava. Peguei um carro de aplicativo ainda com o cheiro doce grudado nos dedos. O algodão-doce derretia devagar na boca, leve, infantil… quase irônico. Eu comia como quem saboreia uma vitória pequena, mas imensa demais para ser explicada. O vidro do carro refletia meu sorriso. Era euforia. Era paz. Quando cheguei em casa, mal coloquei o pé para dentro e vi minha mãe vindo apressada pelo corredor, as mãos trêmulas, os olhos marejados como se tivesse passado horas em oração. — Graças a Deus… ela murmurou, me puxando para perto, como se eu pudesse desaparecer a qualquer segundo. Me abraçando desesperada. — Ela chegou, Carlos! Chegou. Meu pai estava logo atrás. O olhar dele era puro medo. Medo cru, nu, de quem já perdeu muito e sabe exatamente o que pode perder de novo. — Eu estou bem. disse com calma. — Só fui ao parque, só isso. O silêncio caiu como um impacto. — Você não pode fazer isso, Lara. minha mãe disse, a voz falhando. — Você não pode se expor assim. Não pode ser tão imprudente. — Porque não nos disse? Porque sair sem avisar? completou meu pai, embora o tom dele fosse mais contido. Respirei fundo. — Porque vocês nunca me deixariam ir. Me segurei pra não chorar antes de falar. — Eu não vou mais morrer sem viver. Não vou! Minha mãe levou a mão à boca, como se eu tivesse cometido um pecado. — Você não entende… ela disse, desesperada. — Cada coisa dessas pode tirar tempo de você. — E o que eu fiz até agora mãe? perguntei, sem elevar a voz. — Ganhei tempo… pra quê? Pra definhar? O olhar dela se quebrou. — Eu não quero te perder filha! — E eu não quero passar o que me resta sem sentir nada. respondi. Meu pai passou a mão no rosto, exausto. — Nós só queremos você por mais tempo. — A que custo, pai? perguntei com doçura. — Uma vida inteira sem vida? Minha mãe balançou a cabeça, incapaz de aceitar. — Não assim. Não desse jeito. Eu só quero viver! Me afastei antes que minhas pernas desistissem. Antes que a culpa me alcançasse. Aquilo que eles pediam… Era egoísta demais. Era me pedir para morrer aos poucos, enquanto eles fingiam que estavam me salvando. Antes de sair pro meu quarto, disse: — Eu vou cumprir minha promessa, pai. Vocês vão me ver casar com o homem que escolheram. Mas, ao menos uma vez na vida… me deixem escolher também. Me deixem livre pra viver o resto que me sobra, é só isso que eu peço. Minha mãe abraçou meu pai chorando. Me afastei deles e fechei a porta. Me joguei na cama e abracei o travesseiro como se ele pudesse me segurar no mundo. O choro veio silencioso, pesado, verdadeiro. Porque eu sei que eles estavam sofrendo, que sofrem comigo, mas eles vão ficar. Eles... Vão continuar aqui, e eu? Eu não. Tudo teria um fim pra mim, em breve. Eu não vou abrir mão do tempo que me resta. Pouco depois, ouvi a porta se abrir devagar. — Posso entrar filha? a voz do meu pai saiu baixa. Assenti. Ele sentou na beira da cama, demorando alguns segundos antes de falar. — Eu entendo você, minha filha… disse calmo, suspirei dividido o olhando. — Entendo mais do que gostaria. Mas você não pode sair assim sem avisar. Virei o rosto para ele. — Então me deixem viver, pai. Minha voz quebrou. — Eu saí daqui com seis anos. Seis anos sem saber o que é vida. Hoje… hoje eu senti. Sorri entre lágrimas. — Eu senti medo. Senti adrenalina. Meu coração pulsou forte… e mesmo assim eu sorri. Olhei para ele. — Pai… eu só quero viver. Só isso. Ele me puxou para um abraço forte, daqueles que tentam segurar o tempo. — Eu sei... murmurou, chorando. — Eu sei mesmo. Se afastou limpando os olhos. — Eu vou te dar liberdade. Nós… nós te sufocamos sem perceber. Vou conversar com sua mãe. Sorri e o abracei outra vez. — Vocês são os melhores pais do mundo. Mas agora… agora é hora de me deixar viver. E de se desapegar… Ele chorou mais. Eu limpei o rosto dele com cuidado. — Eu amo vocês. Sempre vou amar. Ele beijou minha mão com reverência. — Eu te amo muito, minha menina. Deitei sobre as pernas dele que fez carinho em minha cabeça. — Eu te amo pai. Prova que me ama também, me deixa ser feliz. Ele suspirou limpando os olhos. — Eu vou provar... E, pela primeira vez naquela noite, dormi sem medo. Porque viver, mesmo que por pouco tempo, finalmente tinha deixado de ser proibido. ....Tomei um banho, tirei a barba, escolhi a melhor roupa. Esperei por esse dia, quando não dói mais, quando a superação chegasse e ela chegou, demorou... Demorou muito, eu precisei ser forte, mais ela chegou. Porque como dizem por aí, tudo passa. Dirigi em silêncio. O cemitério estava calmo. Como sempre. Fiquei diante do túmulo por alguns segundos antes de falar. Antes de ter coragem pra isso. Fazia muito tempo que não vinha aqui. — Oi… Minha voz saiu baixa. — Faz tempo que eu não venho aqui, mas acho que hoje é um dia que eu queria muito falar... Coloquei o buquê de flores sobre a lápide. Dei um meio sorriso, meio triste, meio aliviado. Até feliz. — Levei muito tempo pra aprender a viver de novo... confessei como se ela pudesse realmente me ouvir. — Mas você sempre soube que eu seria feliz… mesmo quando eu não sabia como seguir. O vento passou leve, quase respeitoso. — Obrigado... continuei. — Por ter me destinado a felicidade assim... Passei a mão pelo rost
Sugeri a clínica. Exame de sangue. Verdade nua e crua. A coleta foi rápida demais pra algo tão grande. O resultado só sairia à tarde. No carro, o silêncio pesava. Até ela virar pra mim. — Gabriel… se eu estiver grávida… eu tô com medo. Essa doença já tirou tanta coisa de mim. E se tirar isso também? E se eu perder? Apertei a mão dela com força. Ouvir aquilo me penetrou em um lugar que eu não acessava a um bom tempo, desde o dia que ela passou mal na minha frente. No medo. — A gente vai fazer isso junto. Não existe você sozinha nisso. Respirei fundo antes de continuar. — Você passou a vida inteira olhando só pro negativo. E quando, por um segundo, você olhou pro lado positivo… nos fez viver tudo isso. Tudo o que somos hoje. Ela suspirou olhando pra baixo, nervosa, as mãos uma na outra. Toquei seu rosto devagar, fazendo ela me olhar de novo. Nossa... Linda, muito mais linda daquele jeito. Seu medo inocente me deixava louco. — É só isso que eu te peço, meu amor. Pensa p
Mas então ela enrijeceu. Se afastou de repente. Os olhos arregalados, intensos. — Não… não… Meu coração disparou. — O que foi? perguntei, já em alerta. Ela me empurrou de novo, com urgência. — Eu vou vomitar! Mal deu tempo. Ela quase me derrubou do sofá e correu em direção ao banheiro. Fui atrás no mesmo instante. Ela se curvou diante do vaso, os cabelos longos caindo pra frente. Segurei tudo com cuidado, afastando do rosto dela. Esperei. Em silêncio. Quando terminou, parei ao lado, passando a mão nas costas dela. — Respira… devagar ... pedi. — Você tá bem? Ela assentiu, ainda ofegante. Mas algo estava errado. — Isso não é normal. falei, já sentindo o estômago afundar. — Os remédios não dão esse efeito agora. Ela me olhou, cansada. — Eu sei. Foi isso que me gelou. — Vou ligar pro Cristian. — Gabriel, não precisa… ela tentou. — Não quero voltar pro hospital. Se acharem que eu regredi… Segurei o rosto dela com firmeza, mas com carinho. — Olha pra mim
LARA: DIAS DEPOIS: Percebi que o hospital tinha mudado quando não senti o peito apertar ao atravessar as portas de vidro. Não era o lugar. Era eu. Segurei a mão do Gabriel com naturalidade, como se aquilo sempre tivesse sido simples. Ele me apertou de leve os dedos, um gesto silencioso de “estou aqui”, e caminhamos até a sala de espera. Não havia pressa. Não havia urgência. Pela primeira vez, eu não me sentia uma visitante temporária da própria vida. Cristian nos recebeu com um sorriso aberto, diferente daquele profissional, contido, que eu conhecia tão bem. — Vocês estão ótimos... disse antes mesmo de olhar os exames. — E isso não é só impressão. Sentamos. Ele analisou os resultados com calma, fez algumas perguntas de praxe, ajustou um horário de medicação, nada que soasse como sentença. — A resposta continua positiva... explicou. — Seguimos com acompanhamento, mas vocês já sabem… estamos em outro lugar agora. Assenti. Eu sentia isso no corpo. No jeito como re
Nossa... como era bom estar aqui, nessa cidade, nesse tempo mais quente. Chegar em casa me fazia sentir tanto alívio, eu sei que ainda não acabou, mas era um começo incrível pra mim. Eles retiravam as malas do carro, fui até o porta malas com um sorriso pequeno. — Eu pego. Peguei uma das malas e entramos pra dentro. Ah meu Deus, meu lar... — Eu vou pedir pra ajeitarem alguma coisa pra gente comer. Minha mãe disse sorrindo. — Vamos levar as malas pro quarto. Subimos com as malas. O quarto ainda tinha cheiro de casa quando me joguei sobre a cama e me deitei. Não era o aroma neutro de hospital, nem o frio dos lençóis sempre trocados. Era meu. Nosso. Gabriel fechou a porta com cuidado, como se o mundo lá fora ainda pudesse me assustar. — Vem aqui.. Ele sorriu deitando por cima de mim. — Gosto de te ver assim. Abrir um sorriso com tanta satisfação — Você... Pensa em voltar pra casa? — Só se for com você. Olho dos olhos pra boca dele. Tão apetitosa. — Eu acho.
LARA: ALGUNS DIAS DEPOIS... O tempo aqui estava mais longo do que eu gostaria, meus pais voltaram porque problemas estavam precisando ser resolvidos na empresa. Minha mãe ficou em conflito de ficar comigo ou ir, mas eu quase implorei pra ela ir com meu pai. Não que eu não goste de estar aqui com ela, pelo contrário, eles me davam tanto apoio, mas ela ficaria sozinha. Eu vivia dormindo, o Gabriel sempre comigo, e quanto eu tinha lucidez era dedicado a passar o pouco do tempo que eu tinha com ele. Ela acabou entendendo, mais me liga todos só dias e me perguntando cada momento de estou bem. E eu estava. Por incrível que pareça. Mesmo com todos os efeitos, mesmo com toda exaustão e tantas idas só hospital, eu estava bem, de verdade. Naquele dia, estava em mais uma visita ao hospital, o médico responsável pelos testes dos medicamentos pediu pra falar comigo. Fiquei tão nervosa, mas não sabe o tamanho do alívio quando ouvir, ali sentada naquelas cadeiras, diante dele, com a mã







