FAZER LOGINOs cabelos estavam cortados, desalinhado, a barba desenhada, o terno ajustado.
Mas o que mais me prendeu foi o olhar… escuro, intenso, quase arrogante. E quando seus olhos encontraram os meus, o mundo pareceu silenciar por um instante. Não desviei. Mesmo que meu corpo gritasse para isso, eu não desviei. O amigo que o acompanhava cochichou algo e riu baixo, e Gabriel apenas arqueou uma sobrancelha, mantendo aquele sorriso que parecia medir o ambiente e a mim. Meu pai pigarreou, trazendo de volta o som e o ar. — Bem… agora que estamos todos aqui, podemos conversar. Ele pousou uma das mãos no meu ombro com orgulho e continuou: — Como vocês devem se lembrar, a muitos anos atrás fiz uma promessa ao pai do Gabriel. Quando os nossos filhos eram apenas pequenos, nos nossos braços. Uma união entre as nossas famílias. O amigo de Gabriel desviou o olhar, fingindo interesse na mesa. E ele apenas cruzou os braços, impassível. — Sei que muitos acordos são apenas simbólicos... continuou meu pai. — mas este significa algo mais. O pai dele também acreditava em tradições, e eu pretendo honrar isso. Fez uma pausa e olhou para mim. — Quero ver minha filha se casar de verdade. Com véu, grinalda, tudo o que uma noiva tem direito. Essa é a condição. Meu coração acelerou por um instante. Ele já não pareceu surpreso, tão pouco parecia um sacrifício. Porque tudo, com toda certeza era somente uma piada pra ele. Ele apenas esboçou um sorriso discreto e respondeu com tranquilidade: — Isso não será um problema para mim, senhor Monteiro. A voz dele era firme, grave, como uma promessa maliciosa escondida em tom educado. Enquanto os homens voltavam a falar de negócios, as palavras dele ecoavam na minha cabeça. Por dentro, o sangue ferveu. Por fora, mantive o sorriso discreto, a postura impecável e o olhar tranquilo. Se ele achava que eu seria fácil de derrubar, estava prestes a descobrir o contrário. A reunião se estendeu por longos minutos até que começaram as despedidas. Meu pai conversava com alguns investidores enquanto eu recebia elogios e comentários sobre como havia “crescido” e como “era linda como a mãe”. Apenas dava sorrisos vazios, não a hora de sair dali. Por dentro, cada palavra parecia uma lembrança do papel que me haviam imposto: a filha perfeita, a promessa viva. Foi então que meu pai o chamou, com orgulho evidente na voz. — Venha rapaz... lembra da minha menina? Ele se aproximou, o sorriso presunçoso desenhando lentamente em seus lábios. — Como poderia esquecer? respondeu, com uma naturalidade que me fez querer rir. Eu o encarei de frente, sem desviar. — Eu já não posso dizer o mesmo. deixei escapar, com uma leve ironia no tom. — Foram muitos anos, éramos crianças não éramos... O brilho de surpresa em seus olhos durou apenas um segundo, mas foi o suficiente. Ele me olhava como quem tenta decifrar um enigma. .... Assinamos o papel com cuidado. Não era um simples contrato. Era um lembrete silencioso de que o tempo estava se esgotando e meus pais realmente queria me ver vivendo tudo. Três anos. O advogado repetiu como quem lia uma regra qualquer, mas para mim, aquilo soou como uma despedida disfarçada. Meu pai apenas assentiu, firme, escondendo o cansaço nos olhos. — Não será algo difícil, vocês viviam juntinhos quando eram pequenos. Meu pai disse, sorrindo com ternura. Gabriel ergueu o olhar, discreto, como se tentasse lembrar do que ele chamava de “nós dois”. O observava em silêncio, analisando cada traço, cada movimento contido. Ele parecia desconfortável naquela mesa. — Suas mães viviam falando disso, dessa conexão entre vocês. continuou meu pai, com a voz suave, quase nostálgica. Havia uma pausa no ar. Eu sabia o que ele estava fazendo. Não era sobre negócios, nunca foi. Era sobre garantir que eu não ficasse sozinha agora. E que de alguma forma, me mantesse perto deles por mais tempo. Mas isso não ia acontecer, era um fato. Depois de tantas tentativas, de tantas idas ao hospital, ele entendeu o que eu já sabia há meses: o tratamento não faria mais efeito. De repente, ele se aproximou, segurou a mão do gabriel e a colocou sobre a minha. Meu coração vacilou. O toque dele era quente, firme. — Conversem... Vocês precisam se conhecer de novo agora. Eu vou falar com o meu velho amigo. disse meu pai, com um sorriso leve. Quando ele se afastou, a sala pareceu maior… e o silêncio mais denso. Gabriel manteve a mão ali por um instante, talvez por respeito, talvez por não saber o que fazer. Eu o observei atentamente com olhos que sempre viram mais do que deveriam. Ele desviou o olhar quando percebeu. Eu não. Continuei o encarando, curiosa com cada reação dele, tentando descobrir se o menino que um dia dividiu o jardim comigo ainda existia atrás daquele homem que estava a minha frente. Ele tirou a mão, dei um leve sorriso ladino. — Seu pai quer que eu me mude pra sua casa. disse ele, a voz baixa, rouca. — É o que faz sentido. respondi, serena. — Agora que voltei. Assim ele pode me ver. Me ter perto. Ele assentiu, mas havia algo nos olhos dele, um misto de incômodo e confusão. — Escuta, a gente pode fazer isso rolar de boa entende? — Rolar... De boa? Que tipo de fala era aquela. — É. Sem esse lance de casamento formal, você pode viver sua vida e eu a minha. — Como solteiros é isso? Ele olhou pro meu pai além de mim. — Qual o sentido de casar então? Questionei provocando. — Você sabe que o sentido aqui é minha herança né? — Então faça direito. O olhar dele escureceu. — Eu não aceitei casar, pra viver como se não estivesse, não tem sentido pra mim. A mandíbula dele travou. — Mas se você não quiser, eu falo agora com meu pai. Me afastei pouco, pois ele segurou meu braço. — Não. Olhei pra ele abrindo um sorriso astuto. Eu ia mesmo deixar ele escapar, mas agora não vou mais. Não. Só por causa do seu ego, desse jeito de menosprezar tudo. — Podemos entrar em um acordo? — Um acordo? ele olhou em volta. — Podemos conversar em outro lugar? — Em casa é um bom lugar. Ele suspira pesado. — Não existe acordo Gabriel, é um casamento. E eu te vejo no nosso. Com licença. ..... A primeira coisa que quis fazer, foi visitar um parque de diversão. Não por impulso. Mas porque era um lugar que sempre existiu apenas nas minhas vontades contidas. As luzes coloridas piscavam contra o céu já escurecendo, a música alta misturava risadas, gritos e aquela sensação infantil de liberdade que eu nunca tive permissão para experimentar. Era barulho demais. Movimento demais. Vida demais. E eu amei cada segundo. Passar por tantas pessoas segurando balões, algodão doce. crianças pedindo aos pais pra ir nos brinquedos. Estava maravilhada com tudo. Entrei na primeira fila sozinha. Meu coração batia acelerado, pelo primeira vez sem enfermeiros. Sem olhares atentos demais. Sem o Cristian. Aí meu Deus... Se o Cristian sonhar que eu estou aqui ele enlouquece rsrs. Ele sempre dizia que era por cuidado. Mas, com o tempo, deixou de parecer apenas um médico. Virou um vigia. Alguém sempre pronto para me lembrar do que eu não podia fazer. Como se cada escolha que me fazia sentir viva roubasse alguns minutos do meu futuro. A montanha-russa começou a subir devagar. Senti o coração acelerar antes mesmo da queda. — Aí meu Deus... Aí meu deus! Rsrs. O vento batia forte no rosto, meus dedos tremiam presos à barra de segurança. Quando o carrinho despencou, o mundo virou de cabeça para baixo. Meu estômago revirou, o ar faltou por um segundo… E então veio o riso. Um riso solto. Alto. Verdadeiro. — Aahhhh!! Hahaha.. ...Tomei um banho, tirei a barba, escolhi a melhor roupa. Esperei por esse dia, quando não dói mais, quando a superação chegasse e ela chegou, demorou... Demorou muito, eu precisei ser forte, mais ela chegou. Porque como dizem por aí, tudo passa. Dirigi em silêncio. O cemitério estava calmo. Como sempre. Fiquei diante do túmulo por alguns segundos antes de falar. Antes de ter coragem pra isso. Fazia muito tempo que não vinha aqui. — Oi… Minha voz saiu baixa. — Faz tempo que eu não venho aqui, mas acho que hoje é um dia que eu queria muito falar... Coloquei o buquê de flores sobre a lápide. Dei um meio sorriso, meio triste, meio aliviado. Até feliz. — Levei muito tempo pra aprender a viver de novo... confessei como se ela pudesse realmente me ouvir. — Mas você sempre soube que eu seria feliz… mesmo quando eu não sabia como seguir. O vento passou leve, quase respeitoso. — Obrigado... continuei. — Por ter me destinado a felicidade assim... Passei a mão pelo rost
Sugeri a clínica. Exame de sangue. Verdade nua e crua. A coleta foi rápida demais pra algo tão grande. O resultado só sairia à tarde. No carro, o silêncio pesava. Até ela virar pra mim. — Gabriel… se eu estiver grávida… eu tô com medo. Essa doença já tirou tanta coisa de mim. E se tirar isso também? E se eu perder? Apertei a mão dela com força. Ouvir aquilo me penetrou em um lugar que eu não acessava a um bom tempo, desde o dia que ela passou mal na minha frente. No medo. — A gente vai fazer isso junto. Não existe você sozinha nisso. Respirei fundo antes de continuar. — Você passou a vida inteira olhando só pro negativo. E quando, por um segundo, você olhou pro lado positivo… nos fez viver tudo isso. Tudo o que somos hoje. Ela suspirou olhando pra baixo, nervosa, as mãos uma na outra. Toquei seu rosto devagar, fazendo ela me olhar de novo. Nossa... Linda, muito mais linda daquele jeito. Seu medo inocente me deixava louco. — É só isso que eu te peço, meu amor. Pensa p
Mas então ela enrijeceu. Se afastou de repente. Os olhos arregalados, intensos. — Não… não… Meu coração disparou. — O que foi? perguntei, já em alerta. Ela me empurrou de novo, com urgência. — Eu vou vomitar! Mal deu tempo. Ela quase me derrubou do sofá e correu em direção ao banheiro. Fui atrás no mesmo instante. Ela se curvou diante do vaso, os cabelos longos caindo pra frente. Segurei tudo com cuidado, afastando do rosto dela. Esperei. Em silêncio. Quando terminou, parei ao lado, passando a mão nas costas dela. — Respira… devagar ... pedi. — Você tá bem? Ela assentiu, ainda ofegante. Mas algo estava errado. — Isso não é normal. falei, já sentindo o estômago afundar. — Os remédios não dão esse efeito agora. Ela me olhou, cansada. — Eu sei. Foi isso que me gelou. — Vou ligar pro Cristian. — Gabriel, não precisa… ela tentou. — Não quero voltar pro hospital. Se acharem que eu regredi… Segurei o rosto dela com firmeza, mas com carinho. — Olha pra mim
LARA: DIAS DEPOIS: Percebi que o hospital tinha mudado quando não senti o peito apertar ao atravessar as portas de vidro. Não era o lugar. Era eu. Segurei a mão do Gabriel com naturalidade, como se aquilo sempre tivesse sido simples. Ele me apertou de leve os dedos, um gesto silencioso de “estou aqui”, e caminhamos até a sala de espera. Não havia pressa. Não havia urgência. Pela primeira vez, eu não me sentia uma visitante temporária da própria vida. Cristian nos recebeu com um sorriso aberto, diferente daquele profissional, contido, que eu conhecia tão bem. — Vocês estão ótimos... disse antes mesmo de olhar os exames. — E isso não é só impressão. Sentamos. Ele analisou os resultados com calma, fez algumas perguntas de praxe, ajustou um horário de medicação, nada que soasse como sentença. — A resposta continua positiva... explicou. — Seguimos com acompanhamento, mas vocês já sabem… estamos em outro lugar agora. Assenti. Eu sentia isso no corpo. No jeito como re
Nossa... como era bom estar aqui, nessa cidade, nesse tempo mais quente. Chegar em casa me fazia sentir tanto alívio, eu sei que ainda não acabou, mas era um começo incrível pra mim. Eles retiravam as malas do carro, fui até o porta malas com um sorriso pequeno. — Eu pego. Peguei uma das malas e entramos pra dentro. Ah meu Deus, meu lar... — Eu vou pedir pra ajeitarem alguma coisa pra gente comer. Minha mãe disse sorrindo. — Vamos levar as malas pro quarto. Subimos com as malas. O quarto ainda tinha cheiro de casa quando me joguei sobre a cama e me deitei. Não era o aroma neutro de hospital, nem o frio dos lençóis sempre trocados. Era meu. Nosso. Gabriel fechou a porta com cuidado, como se o mundo lá fora ainda pudesse me assustar. — Vem aqui.. Ele sorriu deitando por cima de mim. — Gosto de te ver assim. Abrir um sorriso com tanta satisfação — Você... Pensa em voltar pra casa? — Só se for com você. Olho dos olhos pra boca dele. Tão apetitosa. — Eu acho.
LARA: ALGUNS DIAS DEPOIS... O tempo aqui estava mais longo do que eu gostaria, meus pais voltaram porque problemas estavam precisando ser resolvidos na empresa. Minha mãe ficou em conflito de ficar comigo ou ir, mas eu quase implorei pra ela ir com meu pai. Não que eu não goste de estar aqui com ela, pelo contrário, eles me davam tanto apoio, mas ela ficaria sozinha. Eu vivia dormindo, o Gabriel sempre comigo, e quanto eu tinha lucidez era dedicado a passar o pouco do tempo que eu tinha com ele. Ela acabou entendendo, mais me liga todos só dias e me perguntando cada momento de estou bem. E eu estava. Por incrível que pareça. Mesmo com todos os efeitos, mesmo com toda exaustão e tantas idas só hospital, eu estava bem, de verdade. Naquele dia, estava em mais uma visita ao hospital, o médico responsável pelos testes dos medicamentos pediu pra falar comigo. Fiquei tão nervosa, mas não sabe o tamanho do alívio quando ouvir, ali sentada naquelas cadeiras, diante dele, com a mã







