Se connecterPietro Cavallini
Já passava das nove da manhã quando cheguei na Cavallini Arquitetura. O elevador me levou direto pra cobertura onde ficava nosso escritório: vidro, madeira, concreto e classe. Mas a cabeça? Ficou na varanda. Mais especificamente... nela. Fernanda. A mulher mais contraditória que já conheci. Uma hora me odeia, outra me manda à merda com poesia. E ontem... ela tava de moletom, olheira, cabelo bagunçado... e ainda assim, linda. Doente. Real. Cheia de caos. Merda. Eu tava pensando nisso de novo. — Pietro! — ouvi uma voz familiar quando entrei na sala de reuniões. Lucas Ribeiro. Meu sócio. Amigo de faculdade. O cara responsável por metade dos lucros e 90% das reclamações no W******p. — E aí, tá vivo? — ele perguntou, já com um copo de café na mão e o notebook aberto. — Sobrevivendo — murmurei, largando minha pasta na mesa. Sentei, tentei focar, mas os papéis viraram borrões, os números se embaralharam e as plantas arquitetônicas começaram a parecer linhas sem sentido. A imagem dela, regando as plantas de ressaca, com o rosto cansado e ainda assim cheia de presença, não saía da minha cabeça. — A planta da cliente do Morumbi tá dando problema. Ela quer mudar a fachada toda de novo. — Lucas falou. — Tá ouvindo? — O quê? — pisquei, voltando do transe. Lucas me encarou. — Cacete, Pietro... você acabou de aprovar uma fachada com escorregador. Isso aqui é um condomínio ou um parque de diversões? Olhei pro projeto à minha frente. Tinha mesmo um escorregador desenhado ali. Puxei o papel, tossi e tentei fingir dignidade. — É... acho que escorreguei na concentração. — Tu tá com a cabeça onde, cara? — ele riu, mas os olhos eram de preocupação. Suspirei, passando a mão pelos cabelos. — Sei lá. Em casa. No prédio. Na... varanda. Lucas ergueu uma sobrancelha. — Presa nova? Fiz cara de quem não entendeu. Ele só riu de novo, sem dizer mais nada. Continuamos a revisar os projetos, falar de clientes novos, obras em andamento, prazos, fornecedores... mas a cada intervalo de silêncio, lá estava ela de novo. Fernanda. A vizinha barraqueira. A dona dos palavrões mais bonitos que já ouvi. A maluca que tava invadindo meu sistema. E o mais perigoso? Eu tava começando a gostar disso. (***) Tentei focar. Juro. A planta tava ali na minha frente. A curva da escada, o encaixe do jardim vertical, a maldita proporção do teto. Mas tudo que eu conseguia ver era outra curva. A da bunda dela naquela maldita calça de moletom. Aquela visão me assombrava desde a varanda. E não era só o corpo. Era o jeito de falar. A acidez. O caos. A verdade crua jogada na cara como se fosse uma pedra. Eu tava perdido. — Cara, cê vai ou não vai revisar esse orçamento comigo? — Lucas falou, batendo a caneta na mesa e me encarando com uma expressão de "alô, Terra chamando". — Hã? O quê? Ele soltou um suspiro impaciente e cruzou os braços. — Pietro, na moral... o que tá acontecendo com você, velho? Você tá impaciente, viajando, respondendo tudo no automático. Desde ontem. Fechei a pasta devagar, apoiei os cotovelos na mesa e passei as mãos pelo rosto. — É minha vizinha. Lucas franziu a testa. — Sua vizinha? — É. A nova vizinha. Fernanda. — E o que tem ela? Olhei pro teto, depois encarei meu amigo. — Ela é... diferente. Uma doidinha. Fala palavrão como quem respira, tem uma ironia afiada que parece faca. Suspirei. — E o pior... é que eu tô gostando das loucuras dela. Lucas arregalou os olhos e soltou uma gargalhada debochada. — Você? Gostando de uma mulher de verdade? Com personalidade? Eu achei que seu tipo era só as que respondiam com emoji de fogo e mandavam nude antes do café. — Vai se ferrar — murmurei, mas nem com raiva. Eu sabia que ele tava certo. Lucas apoiou os braços na mesa e me encarou como se estivesse vendo um alienígena. — Você tá me dizendo que tá interessado de verdade? Nela? — Eu tô dizendo que... — fiz uma pausa — ...não consigo parar de pensar nela. E olha que ela me odeia. É o tipo de mulher que fala "vai à merda" como quem oferece café. — E você sempre gostou de desafio, né? — ele riu. — Só cuidado pra não se apaixonar de verdade. Aí tu tá fodido. Fiquei em silêncio. Porque, no fundo... Eu tava começando a achar que já tava fodido sim. E o nome da merda era Fernanda VasquesPietro CavalliniUma semana. Sete dias que, no fuso horário insano de Dubai, pareceram durar um ano inteiro. Minha rotina havia se transformado em um looping exaustivo de plantas de engenharia estendidas sobre mesas de reunião, relatórios metalúrgicos e discussões ásperas com o consórcio de seguros. Eu e o Lucas praticamente não dormíamos. Passávamos as madrugadas revisando cada linha de código dos sistemas de automação predial da Torre Leste, alterando as especificações de segurança conforme as exigências — muitas vezes absurdas e puramente políticas — do Príncipe Al-Asmakh.Mudar o que um membro da família real manda em Dubai não é uma questão de sugestão técnica; é uma ordem de Estado. Se ele queria uma redundância tripla nos sprinklers e o isolamento térmico importado da Alemanha em tempo recorde, nós tínhamos que redesenhar o cronograma inteiro e fazer acontecer, custasse o que custasse.No meio desse turbilhão de cálculos, prazos sufocantes e a pressão esmagadora de segurar as a
Fernanda VasquesA luz do deserto não pede licença; ela inunda o espaço com uma claridade dourada, quase mística, que atravessa os imensos panos de vidro da Sky Pool Villa. Quando meus olhos se abriram, vagarosos, a primeira coisa que registrei foi o silêncio absoluto daquele palácio suspenso, quebrado apenas pelo rumorejar distante e quase imperceptível do sistema de climatização do hotel. A segunda coisa — e infinitamente mais interessante — foi o peso reconfortante do braço de Pietro cruzado sobre a minha cintura.Virei-me de lado com extrema cautela, apoiando o peso do meu corpo sobre o cotovelo, cuidando para não fazer o colchão absurdamente macio se mover. Fiquei ali, flutuando numa preguiça deliciosa, apenas admirando o homem adormecido ao meu lado.Sem a armadura impecável dos ternos de alta costura, sem o olhar afiado de engenheiro e a postura de comando que costumava intimidar até os bilionários árabes, Pietro parecia quase vulnerável. Quase. Suas feições fortes e a mandíbul
Pietro Cavallini Quando entrei na suíte do Atlantis The Royal, a tensão acumulada nos meus ombros pesava toneladas. A fúria racional que usei para desmontar os argumentos de Youssef começava a dar lugar a uma necessidade brutal de descompressão. Joguei a pasta de couro e o celular na mesa de entrada. O silêncio do quarto era quebrado apenas pelo som abafado da água caindo no banheiro principal.Caminhei até lá, despindo-me pelo caminho. A camisa social azul-escura, impregnada com o cheiro sutil de fumaça e fuligem da obra, foi jogada no chão, seguida pelos sapatos, pela calça de alfaiataria e pelas meias. Eu precisava me limpar daquela sujeira, daquela conspiração que tentava me cercar.Abri a porta de vidro fumê do imenso banheiro de mármore Carrara. O ambiente estava imerso em uma névoa densa e aquecida, perfumada com o aroma do sabonete de verbena que a Fernanda usava. Através do vidro jateado do box monumental, vi a silhueta dela. As curvas do seu corpo desenhadas de forma suave
Pietro CavalliniO canteiro de obras da Torre Leste exalava o cheiro acre de concreto queimado, fiação derretida e plástico carbonizado. A opulência de Dubai, que brilhava a poucos quilômetros dali, parecia pertencer a outro mundo sob a luz dura dos refletores temporários que iluminavam o vigésimo quarto andar.Eu usava capacete de segurança, botas reforçadas e uma expressão que fazia até os engenheiros mais experientes evitarem contato visual. Cada passo ecoava sobre os destroços, enquanto eu analisava os danos causados pelo incêndio.Logo atrás de mim, Lucas me acompanhava com o tablet corporativo nas mãos, registrando imagens, relatórios e cada detalhe da destruição estrutural. O silêncio entre nós dizia tudo.Aquilo não era apenas um acidente.Era um prejuízo milionário.E eu pretendia descobrir exatamente quem iria pagar por ele.No centro da área isolada pelas fitas amarelas da perícia, o encarregado-geral da obra aguardava minha chegada. Youssef, um engenheiro libanês respeitad
Fernanda VasquesSe alguém me dissesse, há algum tempo atrás, que eu cruzaria o oceano a bordo de um jatinho particular para pousar no coração do Oriente Médio, eu provavelmente riria com aquele tom de ironia de quem já não acreditava em reviravoltas do destino. Mas o mundo capota, e as estruturas que o Pietro constrói não são apenas de concreto; elas mudam a geografia da minha própria vida.Depois de longas horas de voo, observando o céu mudar de tonalidade sobre continentes que eu só conhecia pelos livros de geografia, o comandante anunciou o procedimento de descida. Olhei pela janela da cabine e perdi o fôlego. Dubai, vista de cima, não parece real. É uma miragem geométrica que desafia a vastidão implacável do deserto da Arábia. Arranha-céus que parecem agulhas de cristal rasgando as nuvens, ilhas artificiais em formatos impossíveis que redesenham o golfo Pérsico e uma opulência que brilha mesmo sob o sol forte da tarde.Quando os pneus do jato tocaram a pista do terminal executivo
Pietro CavalliniO trânsito da Marginal Pinheiros parecia zombar da minha urgência. O reflexo dos faróis vermelhos no para-brisa do carro era a moldura perfeita para a fúria gélida que ditava o ritmo dos meus pensamentos. Eu estava possesso. A arrogância dos príncipes, a incompetência da equipe técnica em Dubai e a sombra cada vez mais nítida de uma conspiração internacional contra a Cavallini Arquitetura & Design faziam meu sangue ferver. Minhas mãos apertavam o volante de couro com tanta força que os nós dos meus dedos estavam brancos. Trinta e seis horas. Esse era o prazo que o Al-Maktoum me dera antes de puxar o gatilho jurídico que poderia congelar meu império.Quando estacionei o carro na garagem do prédio, o eco dos meus sapatos contra o concreto do subsolo parecia uma marcha de guerra. Subi pelo elevador privativo sentindo o peso do mundo esmagar meus ombros. Eu não queria aquela viagem. Não agora. Não quando a estrutura da minha vida pessoal finalmente exalava o perfume de um







