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Senti os olhares dos meus colegas acompanhando-me enquanto caminhava em direção ao meu escritório. Alguns desviavam o olhar assim que os meus olhos encontravam os deles. Outros permaneciam a olhar, oferecendo pequenos sorrisos. Ambos demonstravam a mesma coisa.
Compaixão. Pena.
A esta altura, tinha a certeza de que toda a empresa já sabia. Não havia nada que eu pudesse fazer a respeito, a não ser ignorar.
Ignorar o facto de que a única coisa que mantinha a minha vida à tona me tinha sido tirada como se não fosse nada.
No corredor que levava ao meu escritório, mal tinha dado alguns passos quando ouvi vozes vindas de trás da esquina.
“Não consigo acreditar. A senhorita Dawson fez tanto pela empresa, e este era o projeto dela. A ideia dela. Porque é que o grande chefe o daria a outra pessoa?”, disse um jovem, incrédulo. “E a senhorita Nova? Ela acabou de chegar. Nem sequer sabemos se é capaz.”
“Ela pode não ser capaz, mas É importante”, resmungou uma jovem. “Viste como ele a apresentou, certo? Pareciam tão próximos. Deve estar a acontecer alguma coisa entre eles.”
Fiquei imóvel.
“Não devias dizer isso assim tão levianamente”, disse o primeiro homem após uma pausa. “Eles são irmãos.”
“Irmãos por afinidade, ou seja, não são biologicamente relacionados”, disse a mulher, baixando a voz. “Além disso, nunca ouviste os rumores?”
“Que rumores?”
A mesma pergunta ecoou na minha mente.
“Rumores de que eles mantêm um relacionamento em segredo”, continuou ela. “Isso acalmou há alguns anos. Alegadamente, tiveram um relacionamento secreto quando eram mais jovens, e o falecido senhor Nova, o pai de Damon, apanhou-os em flagrante. Foi por isso que ela foi enviada para o estrangeiro e os rumores desapareceram. Alguns até dizem que a razão pela qual ele nunca namorou nem se casou com ninguém é porque tem estado à espera dela.”
A minha respiração ficou presa. As palavras soaram como um tiro.
“Isso parece bastante perturbador”, resmungou o primeiro homem. “Não consigo imaginar. Eles não eram…”
Continuaram a falar, mas eu já não conseguia ouvi-los. A minha mente zumbia enquanto o impacto das suas palavras se instalava.
Damon. Athena. Juntos.
Memórias passaram pela minha mente. As palavras estranhas de Mara. Athena sentada confortavelmente ao lado dele. Todas as vezes em que ele saía e regressava com ela. A proximidade entre os dois.
Todas as coisas que tentei ignorar porque acreditava que era apenas a minha imaginação.
Uma onda de náusea subiu-me à garganta. Virei-me rapidamente em direção à casa de banho mais próxima.
No momento em que cheguei ao lavatório, comecei a vomitar, cada contração mais dolorosa do que a anterior, enquanto o conteúdo do meu pequeno-almoço saía.
Quando finalmente parou, encostei-me ao lavatório. A minha cabeça latejava. Olhei para o espelho e vi o meu reflexo.
Pálida. Lívida. Uma sombra da pessoa que eu era.
Não podia ser verdade.
Podia?
O resto do dia passou em fragmentos. Tentei manter uma aparência de normalidade, mas foi inútil. O meu corpo doía. O meu principal foco tinha desaparecido, e as palavras deles continuavam a ecoar na minha cabeça.
“Não.” Sussurrei, reprimindo todos os pensamentos com negação. Não parecia suficiente.
Ao anoitecer, o escritório estava quase vazio, e o céu já tinha escurecido quando saí.
Cada passo que dava parecia instável, enfraquecida pelas dores e pelo esgotamento dos últimos dias. Naquele momento, não queria pensar em ninguém.
No entanto, ao virar a esquina, deparei-me com a única pessoa que não queria ver.
“Cunhadinha! Ah, certo, aqui devo tratar-te por senhorita Dawson”, disse ela, rindo baixinho. “Cheguei mesmo a tempo. Também estás de saída, certo?”
Cerrei o maxilar. Ela franziu a testa.
“Pareces tão cansada. Estás bem?”, perguntou.
“Estou bem”, respondi friamente, passando por ela em direção ao elevador. Ela seguiu-me e entrou no espaço vazio enquanto eu carregava no botão do andar.
O zumbido baixo do elevador pareceu durar uma eternidade. Fechei os olhos, tentando ignorar a presença dela. Só precisava de ir embora.
“Sabes”, a voz dela quebrou o silêncio, “sei que mal interagimos, mas tenho andado a pensar em falar contigo.”
Não queria ouvir nada naquele momento. Foi preciso todo o meu esforço para manter a educação.
Mas, se a ignorasse, não sabia o que ela faria.
“Sobre o quê?”, respondi.
“Sobre o Damon.”
Fiquei tensa. O suspiro dela soou ao meu lado.
“O projeto Zenthros pertencia-te. Senti-me muito mal quando soube. Mencionei-o uma vez, depois de te ouvir falar sobre ele. Quem diria que ele realmente mo entregaria?”, suspirou, como se estivesse impotente, antes de fazer uma pausa. “Mas, pensando bem, não devia ser surpreendente, considerando quem REALMENTE tem o coração dele.”
O meu coração falhou uma batida. Lentamente, virei-me para ela.
Ela sorria, o rosto iluminado pelas luzes do elevador, mas havia algo nos seus olhos que fez o meu coração disparar.
“Não fiques tão surpreendida. Já deves ter ouvido os rumores, certo?”
Cerrei o maxilar.
“Não sei do que estás a falar, Athena”, disse, com uma voz mais áspera do que esperava. “O que SEI é que vocês são irmãos e eu sou a esposa com quem ele se casou. Nós amamo-nos, independentemente das dificuldades. Um único projeto não muda isso.”
No entanto, enquanto falava, as minhas palavras pareciam vazias.
Ela inclinou a cabeça, fixando o olhar em mim. Parecia compaixão. Escárnio.
Então, sorriu.
“Achas que ele se casou contigo por amor?”
O meu coração falhou uma batida. O que queria ela dizer com aquilo?
Um estrondo repentino ecoou. O elevador sacudiu violentamente. O meu corpo foi projetado para a frente, chocando contra a parede antes de ser atirado ao chão.
Uma dor aguda atravessou-me o corpo. Gritei.
Seguiram-se vários outros solavancos. As luzes piscaram antes de a escuridão se instalar.
O meu pulso martelava nos ouvidos enquanto pontadas, como agulhas, me atravessavam o ventre. O pânico apoderou-se de mim.
Não.
Não sei quanto tempo passou até ouvir passos abafados. Vozes ecoaram do lado de fora e, entre elas, consegui ouvir a dele.
Damon.
Ele estava ali. Conseguia ouvi-lo dar instruções firmes, a sua voz cortando o ruído enquanto trabalhavam para abrir o metal.
“Damon! Ajuda-me!”, gritou Athena, com a voz trémula.
Apesar da minha visão turva e escurecida, o meu olhar dirigiu-se para ela, sentada num canto. Parecia completamente ilesa.
A sensação de algo quente a escorrer entre as minhas pernas fez o meu sangue gelar.
“Não…”
O metal gemeu acima de nós. Uma abertura de luz surgiu quando a escotilha de emergência foi forçada a abrir-se.
E, na abertura, estava Damon.
“Afasta-te”, ordenou. Antes que eu conseguisse processar o que estava a acontecer, ele já tinha descido com ajuda, entrando no elevador.
Athena atirou-se para os braços dele sem hesitar, soluçando.
“Damon. Quero sair daqui. Estou tão assustada.”
O meu peito doía, mas, apesar da proximidade entre os dois, Damon não estava a olhar para ela.
Estava a olhar para mim.
A escuridão começou a invadir os cantos da minha visão. Forcei-me a levantar, contendo um soluço enquanto estendia a mão.
“Damon, por favor… dói.”
Sob a luz fraca, não conseguia ver a expressão dele, mas, por um instante, jurei que ele estendeu a mão na minha direção. A esperança encheu-me.
“Damon?”, soluçou Athena. A mão dele, que estivera erguida, caiu.
“A prioridade é a Athena. Tirem-na primeiro”, ordenou, e senti como se tivesse sido lançada num abismo.
“Damon…”, chorei, sentindo as minhas forças a desaparecerem.
Mas, desta vez, ele não olhou para mim. A sua atenção continuou concentrada em Athena enquanto a ajudava a sair pela abertura.
A dor apertou ainda mais o meu abdómen a cada respiração superficial. Senti as lágrimas que tinha estado a conter finalmente escorrerem.
“O… bebé…”
Foi a última coisa que disse antes de a escuridão tomar conta de mim.
O cheiro a antisséptico foi a primeira coisa que reconheci. Abri ligeiramente os olhos, apenas para os voltar a fechar devido à intensidade das luzes fluorescentes.
As sensações à minha volta regressaram e, pouco depois, as minhas memórias também. Pelo cheiro e pelo sinal sonoro rítmico, percebi que estava num hospital.
Vozes soavam ao longe, fracas, mas ainda assim percetíveis. Percebi que vinham do quarto.
“Damon, esperei tanto tempo. Conseguiste o que querias, então porque ainda não te divorciaste dela?”
MiaPor um momento, pensei ter ouvido mal. Os meus dedos apertaram os lençóis.Divórcio?“Voltei por ti porque pensei que talvez agora já não houvesse obstáculos. Não esperava continuar a vê-la aqui contigo”, resmungou Athena. “Não suporto vê-la perto de ti. Então, porque ainda não resolveste essa situação?”Não conseguia acreditar nos meus ouvidos. Um suspiro ecoou.“Estou apenas à espera do momento certo, Athena.”A voz de Damon.“Não é este o momento certo?”, exclamou ela. “Tu próprio me disseste. A única razão pela qual estavas com ela era aquela cláusula estúpida que o teu avô estabeleceu para herdares as ações dele na empresa: tinhas de te casar com alguém durante dois anos. Disseste que ela e
MiaPor um momento, pensei ter ouvido mal. Os meus dedos apertaram os lençóis.Divórcio?“Voltei por ti porque pensei que talvez agora já não houvesse obstáculos. Não esperava continuar a encontrá-la aqui contigo”, resmungou Athena. “Não suporto vê-la perto de ti. Então, porque ainda não resolveste essa situação?”Não conseguia acreditar nos meus ouvidos. Um suspiro ecoou.“Estou apenas à espera do momento certo, Athena.”A voz de Damon.“Não é este o momento certo?”, exclamou ela. “Tu próprio me disseste. A única razão pela qual estavas com ela era aquela cláusula estúpida que o teu avô estabeleceu para herdares as ações dele na empresa: tinhas de te casar com alguém durante dois anos. Disseste qu
MiaSenti os olhares dos meus colegas acompanhando-me enquanto caminhava em direção ao meu escritório. Alguns desviavam o olhar assim que os meus olhos encontravam os deles. Outros permaneciam a olhar, oferecendo pequenos sorrisos. Ambos demonstravam a mesma coisa.Compaixão. Pena.A esta altura, tinha a certeza de que toda a empresa já sabia. Não havia nada que eu pudesse fazer a respeito, a não ser ignorar.Ignorar o facto de que a única coisa que mantinha a minha vida à tona me tinha sido tirada como se não fosse nada.No corredor que levava ao meu escritório, mal tinha dado alguns passos quando ouvi vozes vindas de trás da esquina.“Não consigo acreditar. A senhorita Dawson fez tanto pela empresa, e este era o projeto dela. A ideia dela. Porque é que o grande chefe o daria a outra pessoa?”, disse um jovem, incrédulo. “E a senhorita Nova? Ela acabou de chegar. Nem sequer sabemos se é capaz.”“Ela pode não ser capaz, mas É importante”, resmungou uma jovem. “Viste como ele a apresent
MiaA voz de Damon cortou a minha sem hesitação. Virei-me para ele.Em seu rosto, geralmente impassível, havia algo que eu não conseguia decifrar, mas talvez fosse apenas minha imaginação. Pouco depois, ele me lançou um olhar severo.“Não seja irracional, Mia”, disse ele. “Athena vai ficar. Por que ela precisaria ir embora quando a família dela está aqui? Nunca mais diga algo tão ridículo. Em assuntos como este, você não deve se intrometer.”Meus lábios permaneceram ligeiramente entreabertos, mas nenhum som saiu. Tudo o que eu queria dizer se dissolveu silenciosamente.“Exatamente”, Mara sorriu, acomodando-se novamente, satisfeita. “Ela já era da família muito antes de você chegar. É melhor aprender qual é o seu lugar.”Com isso, a atmosfera voltou ao estado anterior. Athena e Mara conversavam despreocupadamente, suas risadas preenchendo o ambiente. Damon desviou o olhar e continuou comendo. Era como se tudo estivesse normal.Apenas eu permaneci imóvel no lugar, com o coração afundand
MiaEra como se eu tivesse sido mergulhada em um banho gelado, com o frio congelando meus ossos e me trazendo de volta à realidade. Ela se aproximou de Damon, segurando seu braço e olhando para ele com um sorriso.Mas tudo em que eu conseguia me concentrar era na joia que adornava seu pescoço. O colar que eu pensava que ele havia comprado para mim.Uma risada ecoou, trazendo-me de volta à realidade a tempo de ver Mara puxar a jovem para perto, dedicando-lhe toda a sua atenção.“Athena, minha doce filha. Senti tanto a sua falta”, disse ela calorosamente, olhando para a filha com orgulho e afeição evidentes.Eu me sentia entorpecida com tudo aquilo, mas ainda conseguia processar as informações.Então, aquela era Athena. A mulher com quem Mara sempre me comparava e de quem Damon raramente falava. Observando seu rosto, eu conseguia ver a semelhança entre mãe e filha. Athena era linda, com seus longos cabelos loiros espalhados como uma auréola. Ela parecia quase um anjo.“Mãe, estou bem, g
MiaUm nó se formou em minha garganta enquanto as palavras que eu queria dizer, a revelação que pairava na ponta da minha língua, eram engolidas de volta. Mantive minha expressão neutra enquanto assentia.“Desculpe, Sr. Nova. Não acontecerá novamente.”O silêncio se prolongou por minutos, até que ouvi seus passos. Antes que eu percebesse, braços me envolveram, e fui puxada contra uma superfície quente e firme, enquanto o cheiro de sua colônia preenchia meus sentidos.“Você está bem?”, ele perguntou, com a voz mais baixa.A mudança foi como um golpe repentino. Tudo o que consegui fazer foi assentir. Ele respirou fundo.“Vamos sair para jantar hoje à noite, por minha conta. Desculpe por ter sido tão duro. Eu… eu só quero o melhor para a NovaTech. Você entende, certo?”Sua voz havia perdido o tom gelado de antes. Agora estava mais baixa. Mais calorosa. Já não era o Sr. Nova profissional e distante.Era Damon, meu marido, me abraçando em seu escritório.“Eu sei”, sussurrei, fechando os ol







