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Capítulo 6

Autor: Marina Leal
Ao perceber que as ameaças não estavam funcionando, Lavínia mudou de tática. Suspirou e adotou um tom quase conciliador.

— Somos irmãs de sangue. Só que ela nunca foi exatamente uma mulher comportada. Mesmo casada, continua se envolvendo com outros homens e agora apareceu grávida. Sinceramente, quem sabe de quem é esse filho?

— Lavínia, você não sente nem um pouco de vergonha de dizer uma coisa dessas?

Cecília encarou a irmã com um sorriso carregado de ironia.

Era impressionante.

Lavínia era sua irmã e, ainda assim, não hesitava em difamá-la daquela maneira diante de completos estranhos.

Lavínia soltou uma risada seca.

— Eu menti por acaso? Vai dizer que esse filho não é resultado de algum caso seu com um homem qualquer?

Cecília empalideceu ainda mais. Baixou os olhos, e seus cílios estremeceram.

A voz fria de Henrique interrompeu o silêncio.

— E o que isso tem a ver comigo?

Lavínia se virou para ele, surpresa.

— Você... Não se importa?

"Aquele homem não era amante de Cecília?"

Henrique franziu a testa, já sem paciência.

— Por que eu deveria me importar?

Lavínia cerrou os dentes. Se ele não recuaria nem diante daquilo, não havia mais motivo para perder tempo.

Virou-se para os seguranças e ordenou:

— Tragam Cecília de volta. Não deixem que ela saia daqui!

Um sorriso discreto surgiu nos lábios de Henrique, sem suavizar em nada sua expressão.

— É a primeira vez que alguém tem coragem de me desafiar assim.

— Se... Senhor Henrique?

A exclamação surpresa veio de alguns passos atrás.

Enzo, presidente de uma das empresas parceiras do Grupo Sampaio, havia se atrasado por causa de alguns compromissos e ainda não conseguira deixar o local.

Assim que reconheceu Henrique, ficou tão abalado que chegou a gaguejar.

Durante uma viagem de trabalho a Santa Aurora, Enzo passara certa vez em frente ao Palácio de Congressos e, por acaso, vira Henrique descendo de um carro.

Na ocasião, ele vestia um traje formal de gola alta, perfeitamente alinhado. Apoiava pelo braço um senhor de presença imponente e seguia cercado por várias pessoas em direção à entrada do palácio.

Intrigado, Enzo perguntara a um dos acompanhantes quem era aquele homem.

Foi assim que descobrira que se tratava de Henrique Rodrigues, o segundo filho da família Rodrigues, de Santa Aurora.

Os Rodrigues estavam entre as quatro famílias mais influentes da cidade. Ocupavam uma posição de enorme prestígio havia pelo menos três gerações e transitavam por círculos aos quais a maioria das pessoas jamais teria acesso. Isso sem contar a fortuna que a família acumulara ao longo dos anos.

— Sr. Enzo, o senhor conhece esse homem?

Lavínia percebeu a reação dele e ficou imediatamente alerta. Mesmo assim, disfarçou o incômodo com um sorriso.

Enzo abriu a boca para responder, mas bastou sentir o olhar de Henrique sobre si para recuar instintivamente.

— Não... Não conheço.

Lavínia estreitou os olhos.

— Tem certeza?

— Eu...

— Ele é o médico responsável pelo meu tratamento. — Cecília o interrompeu antes que pudesse dizer qualquer coisa e lançou à irmã um olhar irônico. — Por quê? Está com medo de ter mexido com alguém importante, irmã?

Não importava quem Henrique realmente fosse. Cecília não queria envolvê-lo ainda mais naquela confusão.

Lavínia riu com desprezo.

— O Grupo Sampaio vale cem bilhões. Em São Valério, ninguém tem coragem de comprar briga com o Vini.

Cruzou os braços e encarou Henrique numa provocação aberta.

— Afinal, quem é Cecília para você, para valer a pena enfrentar o Grupo Sampaio por causa dela?

— Ela...

Henrique olhou para o rosto pálido de Cecília e depois para a mão que ela ainda mantinha sobre o ventre.

Quando respondeu, sua voz saiu baixa e firme.

— É minha paciente.

— Sua paciente? Impossível. Está na cara que ela é sua...

— Saia da frente.

Lavínia nem conseguiu terminar a palavra "amante".

Ao encarar Henrique, encontrou um olhar calmo, ilegível e frio o bastante para fazê-la engolir o resto da frase.

Um arrepio percorreu sua nuca.

Pela primeira vez, teve a certeza de que, se tentasse impedi-lo novamente, poderia provocar consequências que não teria condições de enfrentar.

Mas quem, afinal, era aquele homem?

Henrique não perdeu mais tempo com ninguém.

Com Cecília nos braços, atravessou o salão de festas a passos largos.

Ela já estava à beira de perder a consciência. Continuar ali significava colocar em risco não apenas a criança, mas também a própria vida.

— Ah...

O calor do corpo dele e o movimento de cada passo arrancaram de Cecília um gemido fraco.

Assim que deixou de resistir à dor, as cólicas no baixo-ventre pioraram. Vinham em ondas cada vez mais intensas, apagando aos poucos o pouco de lucidez que ainda lhe restava.

Antes que a escuridão a engolisse por completo, Cecília reuniu as últimas forças e agarrou a gola da camisa de Henrique.

— Não me leve para o hospital... Por favor...

Assim que terminou de falar, sua cabeça pendeu para o lado.

Ela desmaiou nos braços dele.

Seus dedos ainda permaneceram presos ao tecido por um instante, mas logo perderam a força e deslizaram devagar.

Com o movimento, um perfume suave chegou até Henrique.

Ele ficou imóvel por uma fração de segundo.

"Aquele cheiro..."

Baixou os olhos para o rosto sem cor de Cecília e franziu levemente a testa.

— Dr. Henrique?

O assistente, que esperava próximo à entrada do salão, aproximou-se e aguardou suas ordens.

Henrique permaneceu em silêncio.

Seus olhos demoraram alguns segundos sobre o rosto pálido da mulher em seus braços. Mesmo naquele estado, os traços delicados de Cecília ainda chamavam atenção.

Algo naquele perfume continuava incomodando sua memória.

"Deixa pra lá."

Ele já havia dado sua palavra a ela.

— Prepare o carro. Vamos voltar para Valmont.

— Sim, senhor.

Lavínia acompanhou Henrique se afastando com Cecília nos braços, tomada pela raiva.

— Lavi, acabei de ver um homem levando aquela desgraçada embora. O que aconteceu?

Ana acabara de voltar depois de se despedir dos convidados e foi direto até a filha.

Por um instante, até pensara em tentar impedir os dois, mas desistira antes mesmo de se aproximar. Havia algo naquele homem que a deixava inquieta. Bastava estar perto dele para sentir uma pressão difícil de explicar.

Lavínia fechou a cara.

Àquela altura, o salão já estava vazio. Sem testemunhas por perto, não precisava mais fingir.

Cerrou os dentes.

— Aquela desgraçada da Cecília fez isso de propósito! Desde pequena, ela vive roubando a atenção de todo mundo. Hoje faltou tão pouco para eu acabar de vez com ela, e justo agora aparece esse tal de Dr. Henrique! Como essa mulher consegue ter tanta sorte?

— Não vale a pena estragar sua saúde por causa de uma bastarda.

Ana acariciou as costas da filha, tentando acalmá-la.

— Ela não passa de uma rejeitada que ninguém quis no orfanato. Como poderia se comparar à minha filha? Se não fosse pelo que aconteceu com você naquela época, ela nunca teria tido a chance de se casar com o Vini e muito menos de ocupar o seu lugar como senhora Sampaio.

Era verdade.

Se Lavínia não tivesse engravidado inesperadamente naquela época, jamais teria deixado Vicente para Cecília.

Só de se lembrar da forma como ele olhara para Cecília naquele dia, a raiva voltou a ferver dentro dela.

Cecília não passava de uma garota que seus pais haviam tirado de um orfanato por conveniência. Queriam alguém que, no futuro, pudesse ser usada em benefício da família, enquanto Lavínia, a filha biológica, cresceria livre de qualquer obrigação.

Desde o início, Cecília fora criada para servir como moeda em um casamento de conveniência.

Então por que, desde pequenas, parecia que era sempre ela quem acabava ficando com o melhor?

Dessa vez, Lavínia estivera tão perto de destruí-la.

E Cecília escapara outra vez.

Não.

Ela não deixaria aquilo terminar assim.

Lavínia pegou o celular e ligou para Vicente.

Assim que ele atendeu, seus olhos se encheram de lágrimas, como se todo o sofrimento do mundo tivesse caído sobre seus ombros.

— Vini, eu estava tentando levar a Ceci para o hospital, mas apareceu um homem do nada e levou ela embora nos braços. E ele ainda disse... Disse que...

— Disse o quê?

A voz de Vicente veio carregada de tensão do outro lado da linha.

Lavínia mordeu o lábio, fingindo hesitação.

— Disse que a Ceci era mulher dele. Vini, naquela noite... Já que a Ceci não foi para o quarto do Enzo, será que ela estava com esse homem?

Um estrondo violento ecoou do outro lado da linha.

No segundo seguinte, a ligação foi encerrada.

Lavínia afastou o celular do ouvido.

Devagar, seus lábios se curvaram em um sorriso.

Se não conseguira destruir Cecília de uma só vez, faria isso aos poucos.

Até não restar mais nada.

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