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Capítulo 5

Autor: Marina Leal
— Uma bastarda dessas ainda tem coragem de machucar minha filha e minha neta! Seguranças, deem uma lição nela!

Ana estava fora de si.

Bastou a ordem para que vários seguranças avançassem sobre Cecília.

Socos e chutes vieram de todos os lados.

Encolhida no chão, Cecília protegia a barriga com os dois braços enquanto a dor se espalhava pelo corpo a cada golpe.

Ainda assim, em meio àquela violência, uma única palavra continuava martelando em sua cabeça.

"Bastarda."

A própria mãe acabara de chamá-la assim.

"Como uma mãe pode dizer uma coisa dessas para a própria filha?"

Vicente observava Cecília caída no chão, contorcida de dor, o rosto cada vez mais pálido.

Por um instante, sentiu um incômodo difícil de explicar.

Se ela tivesse obedecido e se livrado daquela criança, talvez, pelo menos em consideração aos três anos de casamento, ele ainda pudesse continuar sustentando-a.

Embora Cecília não pudesse estar ao lado dele, poderia mantê-la por perto, escondida e longe dos olhos dos outros.

No fim das contas, ela mesma tinha provocado aquilo.

Não deveria ter mexido com sua filha.

Vicente cerrou os lábios.

— Cecília, ajoelhe-se agora e peça desculpas à Lili. Se fizer isso, encerro esse assunto por aqui.

Um fio de sangue escorria do canto da boca de Cecília.

Mesmo assim, ela ergueu o rosto e o encarou com um sorriso carregado de ironia.

— E se eu não pedir desculpas? O senhor Vicente vai me matar?

Vicente ficou imóvel por um segundo.

Durante todos aqueles anos, sempre enxergara Cecília como uma mulher dócil, obediente e inteiramente dedicada a ele.

Nunca imaginara que um dia encontraria tanto ódio naquele olhar.

E não era apenas ódio.

Havia ali a coragem desesperada de quem já não tinha mais nada a perder.

Aquilo o atingiu de uma forma que ele não esperava. Por um instante, sua respiração se prendeu no peito.

— Matar você?

Vicente soltou uma risada sem humor, tomado pela irritação.

— Acha mesmo que consegue me intimidar desse jeito? Cecília, você continua ingênua demais. Eu tenho mil maneiras de fazer você...

— Papai... A Lili tá com dor...

A voz chorosa da menina interrompeu a ameaça.

Lílian começou a se remexer nos braços dele e se agarrou com mais força ao pescoço do pai, chorando tanto que o rostinho estava vermelho.

Lavínia apoiou a mão nas costas da filha, aflita.

— Vini, será que aconteceu alguma coisa com ela?

Toda a atenção de Vicente se voltou imediatamente para Lílian.

— Não precisa ter medo, Lili. O papai vai levar você ao hospital.

Sem perder mais tempo com Cecília, ele saiu do salão a passos largos com a menina nos braços.

Depois de tudo aquilo, não havia mais clima para continuar a festa.

Antônio e Ana começaram a dispensar os convidados e a se despedir deles às pressas.

Antes de sair, Ana ainda parou ao lado de Cecília.

Como se tudo o que já tinha acontecido não fosse suficiente, acertou-lhe mais um chute.

— Desgraçada! Você só traz azar! Depois eu acerto as contas com você!

Cecília continuou caída no chão, imóvel, sem forças sequer para reagir.

Vicente havia ido embora.

E, com ele, parte daquela opressão que parecia esmagá-la desde o início da confusão também desaparecera.

"Acabou?"

— Maninha.

A voz de Lavínia surgiu junto ao seu ouvido.

Cecília estremeceu.

Ela abriu os olhos de imediato e encontrou o sorriso mal-intencionado da irmã.

Lavínia se inclinou em sua direção.

— Minha querida irmã... Você não queria me ameaçar? Então vamos ver qual de nós duas vai destruir a outra primeiro.

Com toda a calma, Lavínia tirou o celular e apontou a câmera para Cecília.

— Alguém aí, tire toda a roupa dela e jogue-a na entrada do hotel. E não esqueçam de filmar tudo, do começo ao fim.

— Não... Hmm!

O rosto de Cecília perdeu toda a cor.

Ela ainda tentou reagir, mas um dos seguranças já havia tapado sua boca com força.

Cecília se debateu com todas as forças, tentando se livrar dele. Mas como poderia enfrentar um segurança treinado?

Desesperada, lançou um olhar de súplica ao redor.

Só que os convidados já tinham sido dispensados por Antônio e Ana. No saguão, restavam apenas os funcionários do hotel, e nenhum deles ousava se meter naquela confusão.

Nesse momento, a mão do segurança se fechou sobre a gola da roupa de Cecília como uma tenaz e puxou com violência.

O tecido rasgou com um som áspero, quebrando o silêncio mortal do saguão.

Lavínia manteve o celular apontado para Cecília, com um sorriso distorcido de satisfação estampado no rosto.

— Não precisa ter medo, irmãzinha. Eu não vou machucar você. É só um videozinho.

Cecília mordeu o lábio com tanta força que quase sentiu o gosto de sangue.

As lágrimas escorreram pelo canto de seus olhos, enquanto o arrependimento tingia seu olhar de vermelho.

Ela se arrependia.

Arrependia-se de ter apostado tudo, três anos atrás, apenas para se casar com Vicente.

E se arrependia ainda mais de ter aberto mão da oportunidade de estudar no exterior em favor de Lavínia, tudo porque queria se casar com ele.

— Vicente... Lavínia... Vocês ainda vão se arrepender disso.

A voz abafada escapou por entre os dedos do segurança, tão baixa que ninguém conseguiu ouvir.

Ela se contorcia inutilmente, como um peixe fora d'água, enquanto protegia o baixo-ventre com as duas mãos.

Ali estava sua última esperança.

As mãos ásperas do segurança, impregnadas de suor, avançaram outra vez em direção à roupa rasgada.

Cecília sentiu o estômago se revirar.

Aquelas mãos estavam prestes a arrancar o pouco de dignidade que ainda lhe restava.

Ela fechou os olhos, tomada pelo desespero.

— Parem!

Uma voz grave e fria cortou o ar de repente.

Cecília abriu os olhos num sobressalto.

As lágrimas embaçavam sua visão, e ela só conseguiu distinguir vagamente uma figura alta e esguia vindo em sua direção pela entrada do corredor lateral.

O homem era muito alto, de ombros largos e pernas longas. O terno escuro, impecavelmente cortado, realçava as linhas firmes e elegantes de seu corpo.

Havia nele uma presença fria e imponente, tão intimidadora que ninguém ousaria se aproximar sem pensar duas vezes.

— Doutor Henrique...

Cecília finalmente conseguiu reconhecê-lo.

Ao vê-lo sem o jaleco branco, envolto por uma aura de sofisticação e autoridade completamente diferente daquela que exibia no hospital, ficou atônita por um instante.

Henrique já havia chegado até eles.

Baixou ligeiramente os olhos.

Seu olhar pousou sobre Cecília.

Ela estava sem um pingo de cor no rosto. O sangue no canto dos lábios se destacava de forma chocante, e os olhos marejados pareciam completamente vazios, como se toda a esperança tivesse sido arrancada dali.

O sorriso de Lavínia congelou.

Ela encarou Henrique com cautela.

— Quem é você?

Tanto a maneira como ele se vestia quanto a presença que emanava deixavam uma coisa muito clara para Lavínia.

Aquele homem definitivamente não era uma pessoa qualquer.

"Desde quando Cecília conhecia alguém assim?"

Henrique simplesmente ignorou o que acabara de ouvir. Sem tirar os olhos de Cecília, perguntou no mesmo tom frio de sempre:

— Consegue ficar de pé?

— Consigo.

Cecília apoiou as mãos no chão e tentou reunir forças para se levantar.

Mas seu corpo estava muito mais debilitado do que imaginava. Mal chegou à metade do movimento quando as pernas cederam e ela caiu para a frente.

Antes que tocasse o chão, braços firmes a ampararam.

Henrique a segurou com facilidade e a ajudou a se firmar. Depois tirou o paletó, ainda aquecido pelo próprio corpo e impregnado por um discreto aroma de cedro, e o colocou sobre os ombros dela sem lhe dar chance de recusar.

O tecido cobriu o corpo quase nu de Cecília, enfim protegendo-a dos olhares indecentes ao redor.

Henrique então a pegou no colo.

Cecília sentiu o peito se apertar.

Nunca, em toda a sua vida, havia experimentado uma sensação de segurança como aquela.

Agarrou a camisa dele com força e, mordendo o lábio para conter as lágrimas, ergueu os olhos marejados.

— Por favor... Me tira daqui.

Henrique fitou seu rosto sem cor e franziu o cenho, visivelmente irritado.

— Se continuar ignorando as orientações médicas desse jeito, não vai haver milagre que salve você.

Cecília baixou os olhos.

— Desculpa. Só estou dando mais trabalho para você.

Ela nem sabia por que Henrique tinha aparecido ali.

Mas, naquele instante, ele era a única pessoa capaz de tirá-la daquele inferno.

Lavínia acompanhava a cena a poucos passos dali, cada vez mais tensa.

Aquele homem exercia uma pressão ainda maior do que Vicente. Bastava sua presença para deixá-la em alerta.

Mesmo assim, ela sabia que não podia recuar.

Se Cecília saísse dali naquele dia, tudo estaria perdido.

— Não importa quem você é. Isso é um problema da nossa família. Você não passa de um estranho e não tem direito de se intrometer.

— Problema da família?

Henrique finalmente voltou a atenção para ela.

Seu olhar percorreu Lavínia e os seguranças ao redor, frio o bastante para fazê-los hesitar.

Quando falou, não elevou a voz. Nem precisava.

— Um grupo de pessoas cerca uma mulher em plena luz do dia, agride, arranca a roupa dela e ainda tem coragem de chamar isso de problema de família? Desde quando crime virou assunto doméstico?

Lavínia respondeu às pressas:

— Não se deixe enganar pela minha irmã.

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