Compartir

Capítulo 7

Autor: Marina Leal
A Mansão Valmont era a residência de Henrique em São Valério.

O Maybach preto deslizava pelas ruas silenciosas da cidade. No interior espaçoso do carro, o cheiro discreto do couro se misturava ao aroma amadeirado de cedro.

Cecília estava deitada no banco traseiro, com a cabeça apoiada em uma almofada macia e o corpo ainda envolto pelo paletó largo de Henrique.

Sentado ao lado dela, ele a observava em silêncio.

Mesmo inconsciente, Cecília mantinha a testa franzida. Sob a luz tênue do carro, o desconforto estampado em seu rosto deixava claro que a dor ainda não havia cedido.

Henrique ergueu a mão quase por impulso. Uma mecha úmida de cabelo estava grudada na testa dela, e seus dedos avançaram para afastá-la.

Pararam a poucos centímetros da pele.

"O que estou fazendo?"

Ele recolheu a mão imediatamente.

Aquele impulso inexplicável o incomodou mais do que deveria.

— Eu odeio vocês...

O murmúrio baixo de Cecília rompeu o silêncio.

Ela se remexeu, inquieta, e o movimento fez os ferimentos voltarem a arder. Um gemido sufocado escapou de seus lábios. Logo depois, uma lágrima deslizou pelo canto do olho e percorreu lentamente o rosto pálido.

Henrique percebeu que ela estava ficando cada vez mais sem cor e falou com o assistente no banco da frente:

— Avise Emerson. Quero na Mansão Valmont todo o equipamento necessário para exames ginecológicos e uma eventual cirurgia.

— Sim, senhor.

O carro entrou na região de Valmont, uma área residencial na encosta da montanha, e parou diante de uma mansão cercada por árvores altas e exuberantes.

Com todas as luzes acesas em meio à escuridão, a construção imponente dominava a paisagem silenciosa.

Henrique tornou a pegar Cecília nos braços e entrou rapidamente.

Emerson Mendes, diretor do Centro Médico Monteluz, o hospital particular mais prestigiado de São Valério, já o aguardava diante da residência com os equipamentos solicitados e alguns dos melhores médicos de sua equipe.

Quando viu Henrique chegando com uma mulher grávida nos braços, ficou parado por um segundo.

Então reagiu de imediato.

— Rápido! Preparem tudo! Façam o que for preciso para salvar a mulher do Henrique e o bebê!

Henrique lançou um olhar para ele, sem saber o que dizer.

Mas o corpo de Cecília estava ficando cada vez mais frio. Não havia tempo para corrigir aquele absurdo.

Ele apenas a levou para dentro.

Cecília não fazia ideia de que, mais uma vez, passara muito perto da morte.

Enquanto os médicos lutavam para estabilizá-la, sua consciência vagava por lembranças distantes.

No sonho, ela havia voltado à época da faculdade.

À época em que conhecera Vicente.

Durante as férias, Cecília voltava para casa quando percebeu que alguns homens a seguiam.

O medo já começava a dominá-la quando Vicente surgiu.

Ele afugentou os arruaceiros e insistiu em acompanhá-la pessoalmente até em casa.

Só depois Cecília descobriu que Vicente era colega de Lavínia.

Um jovem empresário que havia construído a própria carreira do zero.

Naquela época, ela já sentira algo diferente por ele.

O segundo encontro aconteceu na universidade. Vicente fora convidado para dar uma palestra sobre empreendedorismo e contar sua trajetória profissional.

No palco, falava com segurança e naturalidade.

Parecia maduro, confiante, impecável.

Era exatamente o tipo de homem que Cecília imaginara um dia ter ao seu lado.

E ela sempre tivera um defeito.

Quando decidia alguma coisa, entregava-se por inteiro.

Por isso, quando precisou escolher entre uma oportunidade de estudar no exterior e se casar com Vicente, não hesitou.

Escolheu Vicente.

Mais tarde, bastou ele dizer que detestava perfumes para que Cecília abandonasse também a carreira de perfumista e passasse a dedicar todo o seu tempo à casa e ao casamento.

Nenhum desses sacrifícios, porém, foi suficiente para conquistar o coração dele.

Em troca de tudo o que deixara para trás, recebera três anos de indiferença.

No sonho, Cecília assistia à própria vida de fora.

E, vendo tudo daquela distância, finalmente percebia o quanto havia sido ingênua.

Ela nunca conhecera Vicente de verdade.

"Se eu pudesse voltar atrás, jamais me casaria com ele."

Naquela madrugada, na Mansão Valmont, Henrique estava apoiado no parapeito da varanda, usando apenas um roupão.

Um cigarro ardia entre seus dedos, o brilho da ponta surgindo e desaparecendo na escuridão.

Depois de seis horas seguidas de atendimento de emergência, o cansaço pesava no corpo.

A mente, porém, continuava desperta.

Aquele aroma.

Suave, quase imperceptível, mas estranhamente familiar.

Henrique ainda tinha a impressão de senti-lo na ponta dos dedos e, de tempos em tempos, o perfume voltava à sua memória com nitidez desconcertante.

Ele pegou o celular e discou um número protegido.

Quando falou, sua voz não deixou margem para perguntas.

— Investiguem por onde Cecília, a segunda filha da família Nogueira de São Valério, passou naquele dia, sete meses atrás.

Quando Cecília voltou a abrir os olhos, já era o terceiro dia.

A consciência retornou aos poucos, arrancando-a de um sono pesado e profundo.

A primeira coisa que percebeu foi a dor no baixo-ventre.

Ainda estava ali, surda e persistente, mas muito diferente das cólicas violentas que pareciam rasgá-la por dentro.

Com esforço, abriu os olhos.

Acima dela havia um teto abobadado cinza que não reconheceu.

Cecília virou devagar a cabeça.

Henrique estava sentado em uma poltrona a poucos metros da cama, concentrado no tablet que segurava.

A iluminação suave do quarto tornava seus traços menos rígidos, mas não diminuía em nada a presença marcante daquele rosto.

— Henri... Dr. Henrique?

Sua voz saiu rouca e fraca.

Henrique levantou os olhos.

— Acordou?

— Obrigada, Dr. Henrique.

Cecília tentou se sentar, mas uma fisgada no abdômen a fez prender a respiração.

— Não se mexa. — Henrique ajustou os óculos de armação dourada sobre o nariz. — Conseguimos estabilizar a gravidez por enquanto, mas você teve uma ameaça grave de aborto. Vai precisar ficar em repouso absoluto.

Os olhos de Cecília arderam.

As lágrimas vieram antes que ela pudesse contê-las.

Ela mordeu o lábio inferior e tentou não chorar diante dele.

O homem à sua frente era praticamente um estranho.

Mesmo assim, já havia salvado sua vida e a de seu filho mais de uma vez.

A ironia daquela situação apertou seu peito.

— Dr. Henrique... Obrigada. De verdade. — Seus dedos se fecharam sobre o lençol. — Se não fosse por você, talvez eu...

— Você paga a consulta, eu salvo vidas. É o meu trabalho.

Henrique a interrompeu antes que ela terminasse.

Depois de passar seis horas tentando manter os dois vivos, não tinha a menor vontade de ouvi-la falar sobre a possibilidade de morrer.

Cecília balançou a cabeça.

— Não é a mesma coisa.

Henrique era seu médico, nada além disso.

Não tinha obrigação de defendê-la, muito menos de levá-la para casa e mobilizar uma equipe inteira por causa dela e do bebê.

Depois de pensar por alguns segundos, Cecília perguntou com cautela:

— Dr. Henrique... Quando eu estiver um pouco melhor, posso convidá-lo para jantar? Eu sei que é muito pouco, mas... É a única forma que tenho, por enquanto, de agradecer.

Depois de fazer o convite, ficou esperando em silêncio.

Por algum motivo, sentia-se quase nervosa diante da possibilidade de ele recusar.

Henrique não respondeu de imediato.

No quarto, restou apenas o som baixo e regular dos aparelhos.

Cecília já começava a achar que havia sido inconveniente quando ele assentiu.

— Pode ser.

Os olhos dela se iluminaram.

— Ótimo. Então está combinado.

Um sorriso sincero surgiu em seu rosto.

Henrique apenas se levantou e saiu do quarto.

Assim que a porta se fechou, o sorriso de Cecília desapareceu.

A gratidão continuava ali.

Mas, por baixo dela, algo havia mudado.

Uma lucidez que não existia antes.

Ela não podia mais continuar vivendo daquela maneira.

Durante anos, dependera de Vicente, moldara a própria vida às vontades dele e se reduzira até quase desaparecer dentro daquele casamento.

Talvez tudo o que estava vivendo agora fosse apenas o preço das escolhas que fizera.

Mas aquilo terminaria ali.

Cecília precisava recuperar a própria vida.

Precisava ter algo que ninguém pudesse tirar dela.

Poder.

Dinheiro.

Independência.

Com cuidado, estendeu a mão até o celular sobre o criado-mudo.

Abriu uma rede social e, depois de alguns toques familiares, acessou uma conta abandonada havia anos.

Moon.

O nome que um dia sacudira o mundo da perfumaria.

Uma jovem perfumista prodígio que conquistara reconhecimento internacional e, justamente no auge da carreira, desaparecera sem deixar explicações.

Moon era Cecília.

Antes de se tornar senhora Sampaio, aquele nome representava tudo o que ela havia conquistado sozinha.

Apesar dos anos de silêncio, a conta ainda reunia uma quantidade impressionante de seguidores.

Cecília respirou fundo.

Ignorou as inúmeras mensagens privadas e menções acumuladas durante todo aquele tempo.

Então escreveu uma única publicação.

Curta.

Direta.

E suficiente para abalar o mundo da perfumaria.

[Moon: Voltei. Estou aceitando encomendas.]

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • Meu Marido Me Fez Engravidar de Outro Homem   Capítulo 30

    O corpo de Cecília ficou completamente tenso.Ela conseguia aceitar a ideia de que o bebê pudesse crescer sem a presença do pai.Mas isso não significava que fosse capaz de falar sobre aquela noite com outra pessoa como se não tivesse importância.Henrique pareceu perceber seu desconforto.— Não precisa ficar nervosa. Só quero que você veja uma pessoa.Só então Cecília decidiu permanecer ali, embora ainda estivesse rígida.O horário exibido na gravação já passava das nove da noite. Àquela altura, quase não havia mais ninguém circulando pelo corredor do hotel.Alguns minutos depois, uma figura conhecida surgiu nas imagens e entrou no quarto 1811, do outro lado do corredor, bem em frente ao quarto onde Cecília estivera naquela noite.Ela franziu a testa."O que Felipe estava fazendo naquele hotel naquela noite?"Mas Henrique certamente não a chamara até ali apenas para mostrar aquilo.A gravação continuou.Poucos minutos depois, outra pessoa apareceu no corredor.Estava coberta da cabeça

  • Meu Marido Me Fez Engravidar de Outro Homem   Capítulo 29

    — Quando adotei Cecília, foi justamente pensando em usá-la no futuro em um casamento por interesse e abrir caminho para os negócios da família Nogueira. Se querem culpar alguém, culpem a si mesmas. Foram vocês que fizeram de tudo para juntar os dois. Agora ainda querem reclamar de quê?— E eu tinha escolha?Ana lançou um olhar irritado para Antônio, embora sua voz já não tivesse a mesma firmeza.Se não fosse pelo que acontecera com Lavínia naquela época, jamais teria cogitado uma ideia tão absurda.— Mãe, pensa em alguma coisa. Me ajuda.Durante o jantar, Lavínia quase revelara diante de todos que o bebê de Cecília era filho de outro homem.Mas, depois que Vicente a impediu, ela pensou melhor e chegou até a agradecer por ter se calado.Se a família Rodrigues começasse a desconfiar da verdadeira paternidade daquele bebê, ninguém poderia garantir que, cedo ou tarde, não acabariam investigando Lili também.Por isso, nem que fosse apenas para proteger a si mesma, Lavínia não podia contar a

  • Meu Marido Me Fez Engravidar de Outro Homem   Capítulo 28

    — Cecília, você também está exagerando. Problemas de marido e mulher devem ser resolvidos entre vocês dois. Precisava trazer isso à tona agora e ainda preocupar sua sogra?Por dentro, Ana já tinha amaldiçoado Cecília incontáveis vezes.Ela precisava mesmo tocar naquele assunto justamente naquele momento? Não podia ter escolhido outra hora?Aquilo era praticamente enfiar a mão no bolso da filha e arrancar dinheiro de lá.Cecília soltou a mão de Vanessa.— A culpa é minha. Fui eu que deixei todo mundo numa situação difícil. Quanto ao bebê... O que tiver que acontecer, vai acontecer.— Que conversa é essa?Vanessa conhecia o próprio filho melhor do que ninguém.Ao perceber que o cartão adicional provavelmente estava com Lavínia, voltou-se diretamente para ela.Dessa vez, seu tom já não escondia a insatisfação.— Ainda vamos conviver por muitos anos. Não torne as coisas difíceis para mim.As palavras foram claras demais para que Lavínia fingisse não entender.Engolindo a raiva, abriu a bol

  • Meu Marido Me Fez Engravidar de Outro Homem   Capítulo 27

    Cecília apertou os lábios e ofereceu a Beatriz um sorriso discreto.Quando tornou a olhar para os outros, porém, toda a suavidade havia desaparecido de seu rosto.— Afinal, o que vocês estão tentando fazer com tudo isso?Ninguém esperava que Cecília interrompesse a conversa de repente, muito menos com tamanha frieza.O silêncio caiu sobre a mesa.Ela passou os olhos pelos presentes até parar em Vicente e Lavínia.— Vicente, você ainda nem se divorciou de mim e já traz sua amante para a casa dos seus pais, na minha frente, só para me provocar. O que você pensa que eu sou?Vanessa imediatamente lançou um olhar cortante para Antônio e Ana.— Então é isso? Vocês vieram aqui falar um monte de coisa sem nem antes resolver a situação com a própria filha? Agora querem simplesmente trocar a esposa do Vini? O que vocês pensam que a nossa família é?— Não fique brava, Vanessa. Ela só ainda não conseguiu aceitar a situação. Eu converso com ela.— Conversar? Ela está grávida de um filho da família

  • Meu Marido Me Fez Engravidar de Outro Homem   Capítulo 26

    — Senhor Felipe, senhora Vanessa, boa noite. Eu sou a Lavínia. Desculpem o atraso.Vicente e Lavínia entraram juntos.Os dois traziam várias sacolas e caixas de presente. Pelo horário, tudo indicava que Vicente só havia sido avisado daquela reunião pouco antes.Ele colocou as coisas de lado. Seus olhos passaram rapidamente por Cecília antes de se voltarem para os pais.— Pai, mãe, o pessoal de Pesquisa e Desenvolvimento está correndo com o lançamento de novos produtos. A Lavi ficou trabalhando até agora. Ela já tinha separado esses presentes para vocês fazia um tempo.Assim que viu Lavínia, Felipe abriu um sorriso.— Lavi, você veio! Venha, sente-se aqui com o Vini e jante com a gente.Desde que Cecília chegara, Felipe não lhe dirigira uma única palavra. Mal havia olhado em sua direção. Com Lavínia, porém, foi diferente. Bastou ela aparecer para que Felipe se mostrasse muito mais receptivo, deixando de lado a postura fria e séria que mantivera até então.Cecília não conseguiu esconder

  • Meu Marido Me Fez Engravidar de Outro Homem   Capítulo 25

    — Cunhada, toma cuidado hoje. Não sei explicar, mas seus pais estão me parecendo estranhos... Acho que estão armando alguma coisa.— Tá bom. Vou ficar atenta.Cecília sabia que, se até Beatriz, tão ingênua, tinha percebido que havia algo errado, então não devia ser apenas impressão.Beatriz acabara de se formar na faculdade naquele ano. Talvez por passar pouco tempo em casa, não tivesse absorvido o temperamento difícil de boa parte dos Sampaio. Pelo contrário, era alegre, espontânea e ainda conservava certa inocência.Cecília se lembrava perfeitamente da primeira vez em que fora à casa deles.Os sogros a receberam de cara fechada. Beatriz foi a única que se aproximou. Com as bochechas levemente coradas, entregou-lhe uma pequena escultura.— Cunhada, é a primeira vez que a gente se encontra, e eu não sabia do que você gostava. Esse trabalho ganhou um prêmio na faculdade. Espero que você goste.A peça estava cuidadosamente embalada e enfeitada com um laço.Até hoje, Cecília a mantinha so

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status