O carpete macio do restaurante abafava o som dos passos apressados dos garçons que cruzavam o salão nobre nos Jardins. Escolhi a mesa estrategicamente posicionada à esquerda da entrada principal, de costas para a parede de vidro, permitindo-me ver o rosto de quem quer que cruzasse o umbral antes mesmo que pudessem me notar. Sentada ali, com um vestido tubinho de crepe preto, de mangas longas e gola alta, e scarpins de salto agulha que pareciam cravejados ao chão, ajeitei o blazer escuro dobrado a cadeira ao meu lado.
Faziam doze anos. Doze invernos rigorosos em Boston, sob a tutela distante e exigente da tia Marie, exilada ali após a morte trágica da minha mãe. Voltar a São Paulo era como caminhar sobre um lago congelado cujas rachaduras ameaçavam se abrir a cada respiração; o cheiro de eucalipto misturado à poluição da Avenida parecia o mesmo, e, por uma fração de segundo, ao olhar o reflexo de uma mulher de sobretudo bege passando na calçada oposta, meu peito apertou com a ilusão estúpida de que eu veria minha mãe acenando de volta.
O relógio de pulso marcava meio-dia em ponto. Augusto Martinelli somava exatamente trinta minutos de atraso. Minha avó exigira que eu estivesse ali às onze e meia — um teste mesquinho de submissão para alguém que havia cruzado um continente —, e o encontro fora marcado para as onze e quarenta e cinco. A rigidez daquela matriarca não permitia margem para erros, mas o herdeiro dos negócios dos Martinelli parecia operar sob leis próprias de privilégio e impunidade.
Com o indicador enluvado de tédio, deslizei a tela do celular. O feed do I*******m exibia a notificação de um dos perfis de fofoca mais venenosos da alta sociedade paulistana, postada há menos de dez minutos:
“Amanda Fontenelle desabafa em seus stories sobre a repentina volta de Amélie Fontenelle ao Brasil: 'Ela não tem absolutamente nada a oferecer, a não ser os maus modos de quem foi criada pela tia Marie longe de todo o luxo e das pessoas relevantes que nos cercam. Jamais se encaixará em nossas vidas novamente; carregar o sobrenome é o máximo que sua insignificância pode aspirar'.”
Antes que o veneno daquelas palavras pudesse se infiltrar na minha circulação, o encosto da cadeira ao meu lado chocou-se contra a mesa com um rangido seco. O blazer escorregou para o estofado de couro.
Ergui o queixo lentamente. Lá estava ele: Augusto. O paletó de alfaiataria italiana estava abotoado torto na pressa, e os cabelos castanhos levemente desalinhados denunciavam que ele havia saído de alguma reunião tensa antes de cruzar a cidade.
— Amélie? — perguntou, puxando a cadeira de carvalho pesado com uma brusquidão desnecessária antes de desabar no assento, empurrando meu blazer de volta para mim sem ao menos me olhar.
— Boa tarde, Sr. Augusto — respondi, mantendo o tom polido, cirúrgico e frio que a tia Marie havia passado anos polindo em mim.
Ele suspirou, passando a mão pela barba,, claramente irritado. .
— Serei direto, porque não tenho tempo a perder e meu dia está uma bagunça graças a essa reviravolta. Acabou de aterrissar e já virou a minha vida de cabeça para baixo sem que eu sequer saiba quem você é. Eu e sua irmã formávamos o casal mais aguardado do circuito corporativo e social deste estado. E aí você ressurge do nada e, por um capricho testamentário do meu pai, sou informado de que só poderei herdar o controle operacional do grupo se me casar. Até aí, entendo as manobras da diretoria. Mas quando me disseram que a noiva seria você... o problema atingiu outro patamar. Eu não a conheço e não tenho a menor intenção de me casar com você.
Permaneci imóvel, absorvendo cada sílaba daquela arrogância mascarada de sinceridade. Recostei-me no estofado, cruzando as pernas com elegância deliberada.
— Não se preocupe, Augusto. O sentimento é perfeitamente recíproco — falei, observando a confusão cintilar brevemente em seus olhos claros. — Acontece que o testamento da minha avó me relegou a migalhas irrelevantes, impondo este matrimônio patético como única condição para eu resgatar meus 25% acionários na holding. Portanto, meu foco não é a sua companhia na mesa do café da manhã; são as ações.
Ele estreitou os olhos, avaliando-me com uma mistura de repulsa e desconfiança genuína, o tipo de reação típica de quem nunca precisou lutar pelo próprio sobrenome.
— Você quer herança em cima de uma empresa que pertence aos seus irmãos por direito de primogenitura, sendo uma... bastarda?
O sangue chicoteou minhas têmporas, mas meu rosto permaneceu estático, esculpido em gelo puro.
— Sugiro que mude suas fontes de informação e baixe o tom, Augusto. Aquela empresa foi construída pelo suor e pelas ações originais da minha mãe, não por essa corja que hoje comanda a diretoria. Amanda não tem uma única gota de sangue Fontenelle correndo nas veias; eu sou a herdeira legítima de sangue e de direito.
Ele engoliu em seco, sem saber se rebatia a ofensa ou se tentava recuperar a compostura diante da firmeza com que encarei seu olhar. Aproveitei o vácuo para ditar as regras do tabuleiro.
— Eu acabei de voltar de viagem e tenho uma pilha de processos e auditorias para resolver. Você é apenas a primeira tarefa incômoda da minha lista. O que proponho é simples: um contrato pré-nupcial com cláusula de rescisão imediata. Assim que você herdar o comando do grupo e a minha avó for forçada a registrar a alteração testamentária, assinamos o divórcio consensual e cada um segue seu caminho.
Augusto franziu a testa, os engates lógicos de um acordo comercial finalmente substituindo a ofensa.
— Um contrato... É pragmático. Me dê os termos gerais.
— Deixo os detalhes a mando do meu escritório de advocacia. Você só precisará assinar quando a minuta estiver pronta, podemos marcar uma reunião e discutir sobre.
— Não tenho tempo para reuniões esta semana, mas posso pedir ao meu jurídico que faça uma base sólida e alinhamos os ajustes conforme for conveniente para ambos — respondeu ele, endireitando os punhos da camisa branca de algodão egípcio.
Levantei-me de imediato, pegando meu blazer.
— Sendo assim, assunto encerrado. Bom trabalho para você.
Augusto piscou, erguendo o tronco com o cenho franzido, olhando para os lados como se houvesse perdido.
— Espere. Onde vai? Nós não íamos almoçar? — perguntou, tateando o cardápio de couro sintético sobre a mesa.
Virei-me vagarosamente, olhando para ele com um misto de ironia e cansaço.
— Achei que estivesse com pressa.
Sem esperar sua resposta, voltei a puxar a cadeira e me acomodei novamente. A verdade nua e crua é que eu estava faminta; o fuso horário de Boston misturado à adrenalina de desembarcar em Congonhas não me permitira sequer um gole de café pela manhã. Tinha passado pelo apartamento apenas para trocar de roupa e correr para o compromisso.
Após dois minutos de um silêncio incômodo em que ele folheava o menu sem ler uma única linha, Augusto pigarreou, suavizando o timbre da voz em uma tentativa óbvia de me testar, influenciado pelas mentiras de Amanda de que eu seria uma garota provinciana e sem refinamento.
— Escolha você. Quero ver se o seu paladar acompanha o padrão deste restaurante.
Ergui o indicador e chamei o garçom com um aceno sutil.
— Para começar, um carpaccio de salmão com alcaparras crocantes e azeite trufado. De prato principal, o filé de robalo assado em crosta de castanha-de-caju com purê de mandioquinha ao perfume de limão-siciliano. E, para finalizar, uma panna cotta de fava de baunilha com coulis de frutas vermelhas — ditei as palavras com fluidez impecável, sem sequer olhar para o cardápio.
Augusto fechou o menu com um baque abafado e olhou para o garçom, visivelmente surpreso.
— O mesmo para mim, por favor.
O almoço seguiu em um silêncio denso, cortado apenas pelo som abafado dos talheres de prata contra a porcelana. Quando terminamos, ele limpou os lábios com o guardanapo de linho, jogou-o sobre a mesa e ofereceu-se para me levar, embora a rigidez nos seus ombros deixasse claro que ele só o fazia por obrigação social.
Amélie, ainda temos assuntos contratuais para resolvermos, mas meus compromissos no escritório me chamam. Permita-me deixá-la em seu apartamento?
— não é necessário. Meu endereço fica aqui mesmo no centro,, estou a cinco minutos a pé.
— Não seja imprudente. Estaremos publicamente noivos em alguns dias, quer queira ou não. É de bom tom que a imprensa veja você saindo do meu carro; ajuda a aceitarem mais rapido nosso noivado .
Pensei por um segundo. Ele tinha razão nesse ponto estratégico. Concordei com um leve aceno de cabeça.
Augusto pagou a conta com um cartão preto sem limite e guiou-me até o veículo estacionado: um esportivo em um tom de azul-cobalto metálico berrante, impossível de passar despercebido em qualquer rua da capital. Assim que entrei e fechei a porta de carona com revestimento em couro caramelo, ele me olhou disfarçadamente enquanto manobrava para sair.
— Diga-me o endereço exato, por favor.
Falei o nome da rua e o número do edifício corporativo residencial. Os olhos dele se arregalaram levemente .
— Não me diga que você conseguiu uma das suítes duplex da torre da Simons Imobiliária?
Soltei um riso curto.
— A própria. No trigésimo segundo andar. Era da minha mãe; a única propriedade que os advogados da família não conseguiram desviar para o espólio geral da holding, porque o registro sempre esteve restrito em meu nome desde o meu nascimento.
Augusto engoliu em seco, batendo levemente os dedos no volante de couro perfurado.
— Curioso... Eu já estive nessa cobertura algumas vezes. Sua irmã costumava me encontrar lá. Ela dizia que seria dela por direito hereditário muito em breve.
Virei o rosto bruscamente para encará-lo, cravando meus olhos nos dele com uma frieza cortante.
— Eu sei perfeitamente que você esteve lá, Augusto. E já se perguntou por que a senhorita sua namorada de mentira nunca mais pôde colocar os pés naquele endereço? — Sorri de canto, com uma delicadeza venenosa. — Mandei trocar todas as fechaduras biométricas e o sistema de segurança da porta principal no instante em que li na internet que ela estava usando o meu patrimônio para dar festas com a corja dela. Inclusive, aquele seu famoso encontro noturno com ela que vazou na imprensa meses atrás aconteceu bem na minha sala de estar. Foi o assunto mais comentado da semana.
O maxilar dele travou com tanta força que vi a pele contrair-se sob a barba. Ele manteve os olhos fixos no asfalto molhado da avenida, em um silêncio absoluto.
O carro estacionou diante da fachada imponente de vidro escuro e portaria blindada da Simons. Puxei a maçaneta e abri a porta.
Antes que eu pudesse colocar o pé na calçada, a voz dele cortou o ar, seca e cortante:
— Haverá um baile de gala beneficente neste sábado para celebrar formalmente a sua chegada. É lá que farei o anúncio oficial e o pedido de noivado. Esteja pronta.
Sem aguardar resposta, ele cantou os pneus com o motor roncando alto e sumiu no tráfego denso da tarde paulistana, sem olhar para trás nem por um segundo.
Virei-me para a fachada do prédio. Ergui o rosto, fitando o topo da torre onde as janelas refletiam o cinza pesado do céu de São Paulo. Era ali, naquele duplex nas alturas, que as memórias mais puras e dolorosas da minha mãe ainda pareciam vagar — o refúgio onde ela se escondia dos gabinetes sufocantes da empresa quando a pressão familiar se tornava insuportável.
Entrei no lobby de mármore cinza, caminhando com passos firmes, ignorando o cumprimento do recepcionista que mal teve tempo de erguer os olhos da tela do computador. Alcancei o painel de aço escovado dos elevadores privativos e estiquei o dedo para pressionar o botão de chamada.
O som metálico do elevador descendo foi interrompido por um passo pesado ecoando logo atrás de mim, seguido por aquela mesma voz que eu conhecia desde a infância, carregada de um sarcasmo rançoso:
— Lionel?