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O Limiar da Insanidade

last update publish date: 2026-10-14 23:46:10

{Bruna}

O toque da mão de Marcos no meu queixo não era apenas um gesto físico; era uma reivindicação silenciosa. O calor que emanava dos dedos dele atravessava a minha pele, espalhando uma onda de choque que paralisava qualquer tentativa de reação Racional.

— Me solta, Marcos... — sussurrei, tentando recuar o corpo, mas minhas costas já estavam pressionadas contra a parede fria do hall do meu apartamento. — Você não tem o direito de vir aqui. Você não tem o direito de invadir a minha casa.

— Eu não preciso de direito quando você deixou as portas escancaradas naquela noite — ele respondeu, a voz grave e soturna ecoando na sala silenciosa. Ele deu mais um passo, colando o peito ao meu até que não houvesse mais ar entre nós. — Você acha que pode me usar como um anestésico para as suas frustrações e depois fingir que nada aconteceu?

— Eu não te usei! — rebati, o olhar faiscando de raiva e pavor. — Eu cometi um erro absurdo porque achei que o Matheus estava me traindo! Se eu soubesse quem você era, eu jamais teria chegado a dez metros daquele mezanino!

— Mas você chegou — ele baixou a cabeça, a barba curta e grisalha roçando na linha do meu pescoço, fazendo cada poro da minha pele se arrepiarem em uma traição dolorosa dos meus sentidos. — Você subiu aquela escada, olhou nos meus olhos e aceitou ir para a minha cama. E, no fim das contas, deixou aquele bilhete provocativo na minha cabeceira.

A lembrança do bilhete fez meu rosto queimar.

— Aquilo foi impulso! Foi infantilidade! — desabafei, tentando empurrar o peito dele com as duas mãos, mas a estrutura firme do seu corpo nem se mexeu. — Por favor... o Matheus é seu filho! Ele é bom, ele me ama! Se você tem o mínimo de consideração por ele, vai embora agora e me deixa consertar essa farsa!

— Consertar? — Marcos soltou uma risada baixa, rouca e totalmente desprovida de humor. Suas mãos subiram pela minha cintura, apertando a carne macia acima do meu quadril com uma autoridade que me fez soltar um pequeno arfar abafado. — Como você pretende consertar isso, Bruna? Olhando nos olhos dele enquanto pensa em como a minha boca cobriu a sua? Deitando com ele enquanto lembra do meu corpo sobre o seu naquela suíte?

— Para... por favor, para... — pedi, fechando os olhos com força, porque olhar para o rosto impecável e dominador dele era o caminho mais curto para a minha própria destruição.

— Você não quer que eu pare — ele rosnou, o hálito quente de uísque e hortelã roçando os meus lábios. — Se quisesse, já teria gritado. Já teria chamado a segurança do prédio. Mas você está aqui, tremendo nos meus braços, exatamente como ficou naquela noite.

A verdade das palavras dele me atingiu como um soco. A culpa me corroía por dentro, mas a química sombria, proibida e viciante entre nós era uma força gravitacional esmagadora. A presença de Marcos preenchia cada centímetro da minha sala, anulando qualquer resquício da minha sanidade.

Ele se inclinou, capturando meus lábios em um beijo lento, denso e faminto.

Não houve hesitação. A boca dele tomou a minha com uma posse absoluta, e o meu corpo, em uma rendição involuntária e desesperada, respondeu ao toque. Minhas mãos, que antes tentavam afastá-lo, agarraram o tecido fino da sua camisa branca, puxando-o para mais perto enquanto um gemido contido morria na minha garganta.

O beijo escalou em uma velocidade assustadora, carregado da raiva do reencontro, do perigo da revelação e da atração doentia que nos consumia. Marcos me pressionou com mais força contra a parede, a mão livre subindo pelas minhas costas até segurar a minha nuca com firmeza.

De repente, um som alto, agudo e estridente cortou o silêncio da sala.

O toque do meu celular ecoou sobre a mesa de centro, quebrando o feitiço como uma marretada no espelho.

Paralisei no mesmo instante, interrompendo o beijo com o coração martelando na garganta. Marcos não se afastou; apenas desacelerou o movimento dos lábios, mantendo o rosto a milímetros do meu, com os olhos cinzentos escuros de desejo e controle.

Meus olhos se desviaram para a tela do aparelho iluminado na mesa. O nome que brilhava em destaque na tela fazia meu sangue congelar nas veias:

MATHEUS

— Não atenda — Marcos ordenou, a voz rouca e baixa contra a minha bochecha, a mão ainda presa na minha nuca.

— Marcos... é o seu filho — murmurei, a respiração totalmente desgovernada, tomada pelo pavor puro. — Se eu não atender, ele vai estranhar... ele sabe que eu disse que vinha direto para casa...

— Deixe tocar — insistiu ele, e seus lábios voltaram a tocar a linha do meu maxilar, buscando me arrastar de volta para o abismo.

O celular continuava a tocar, preenchendo o apartamento com a prova viva da minha traição. Tomei um impulso desesperado de coragem, empurrei o peito de Marcos com toda a força que me restava e consegui me desvencilhar do seu abraço, dando três passos para trás com as pernas bambas.

— Não! — falei, a voz embargada pelas lágrimas que finalmente transbordaram. — Eu vou atender!

Peguei o aparelho sobre a mesa com as mãos trêmulas, deslizando o dedo pela tela verde antes que a chamada caísse. Marcos permaneceu parado no hall, com os braços cruzados sobre o peito e a camisa levemente amarrotada, me observando com um sorriso sombrio e vitorioso.

Levei o telefone ao ouvido, tentando desesperadamente controlar o tom da minha voz:

— A-alô? Matheus?

— Amor! — a voz carinhosa e despreocupada do meu namorado soou no alto-falante. — Conseguiu chegar bem em casa? Fiquei preocupado porque você não mandou mensagem.

Encarei Marcos, que deu um passo lento na minha direção, sem fazer o menor barulho sobre o piso de madeira.

— Cheguei... cheguei sim — menti, a voz falhando no final. — Estava... estava no banho quando você ligou.

— Ah, entendi. Que bom! Como está o enjoo? Melhorou um pouco? — perguntou Matheus.

Marcos parou exatamente atrás de mim. Senti o calor do corpo dele nas minhas costas, e a mão dele desceu lentamente pelo meu ombro, deslizando pela alça do meu vestido com uma audácia torturante.

Fechei os olhos com força, tentando conter o arfar que ameaçava sair da minha boca.

— Melhorou... sim. Só preciso... descansar — respondi, tentando afastar a mão de Marcos com o braço livre, mas ele apenas segurou minha cintura por trás, puxando meu quadril contra o dele.

— Que ótimo, meu amor — disse Matheus, totalmente alheio ao que acontecia a quilômetros dali. — Olha, o meu pai já foi embora do restaurante também. Eu e a minha mãe estávamos conversando... e eu quero muito te ver amanhã. Posso passar no seu escritório para a gente almoçar juntos?

O pavor congelou minhas entranhas. Marcos aproximou os lábios da minha orelha e sussurrou, tão baixo que apenas eu podia ouvir:

— Diga a ele que vai estar ocupada...

 

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