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O Peso do Perigo

last update publish date: 2026-10-05 12:11:00

{Bruna}

Subir os degraus de acesso ao mezanino VIP parecia um ato de rebeldia contra tudo o que eu costumava ser.

 

A cada passo, os olhares curiosos dos frequentadores mascarados se perdiam, mas a minha atenção estava completamente fixa na sombra que me aguardava no topo da escada.

À medida que encurtava a distância, o tamanho e a imponência dele se tornavam ainda mais esmagadores. Ele não era apenas um homem atraente; exalava a autoridade de quem não pedia licença para nada nesta vida. O tecido nobre do seu terno cinza-chumbo desenhava ombros largos, e a penumbra do ambiente destacava os fios grisalhos impecáveis em sua barba bem aparada.

Quando parei a dois passos de distância, o perfume dele me atingiu em cheio: uma nota marcante de madeira, couro e o amargor elegante do uísque.

— Você veio — a voz dele soou baixa, aveludada e tão grave que fez uma vibração percorrer a base da minha coluna.

— Você pareceu muito confiante de que eu viria — respondi, tentando disfarçar o tremor sutil na minha voz enquanto mantinha a cabeça erguida sob a máscara de renda.

Um sorriso contido e perigoso surgiu no canto dos lábios dele.

— Eu sei reconhecer quando alguém está buscando um refúgio da própria realidade.

Ele não esperou por uma confirmação. Deu meio-volta com uma calma calculada e fez um gesto sutil para que eu o acompanhasse. Nós nos esquivamos do movimento da área VIP e seguimos por uma porta lateral discreta que levava aos corredores de serviço da boate. O ar condicionado soprou mais frio ali, e o estrondo da música foi diminuindo até se transformar em um eco abafado.

Saímos direto no estacionamento privativo do subsolo. O ambiente era amplo, fracamente iluminado por lâmpadas fluorescentes que chiavam no teto de concreto. Carros de luxo alinhados brilhavam sob a penumbra fria.

Caminhamos em silêncio até pararmos ao lado de um SUV preto com insulfilm escuro.

Ele destravou o veículo com um clique distante e abriu a porta do passageiro para mim. Foi ali, diante da porta aberta daquele carro, que a realidade me deu um tapa. O impacto de estar sozinha, no subsolo de uma boate, com um completo estranho de quem eu nem sabia o nome, fez minhas pernas paralisarem.

Dei um passo para trás, ajustando a bolsa no ombro.

— Eu... eu acho que isso é uma loucura — murmurei, encarando a escuridão do interior do carro e depois os olhos cinzentos que me observavam por trás da máscara de couro. — Eu nem sei quem você é.

Ele não se aproximou de forma brusca. Em vez disso, deu um passo lento para o lado, encostando a lataria do carro e cruzando os braços sobre o peito. A postura dele era de total autocontrole.

— Você está certa. É uma loucura — ele disse, com a voz serena, mas cravando aquele olhar magnético no meu. — E eu nunca faria nada que você não quisesse.

Aquelas palavras deveriam ter me dado a desculpa perfeita para virar as costas e correr de volta para o táxi. Mas o tom dele, a maturidade na forma como me encarava sem desespero ou pressa, acionou algo completamente diferente dentro de mim.

Engoli em seco, sentindo a dor do orgulho ferido por Matheus ainda queimando nas minhas entranhas.

— Esse é o problema... — sussurrei, encarando os lábios bem desenhados dele. — Eu quero.

O olhar dele escureceu no mesmo instante.

Sem dizer mais nada, ele deu o passo que faltava entre nós. Sua mão grande e quente segurou meu queixo com uma firmeza possessiva, erguendo meu rosto antes que eu pudesse raciocinar. Quando seus lábios tocaram os meus, não houve hesitação. Foi um beijo denso, faminto e dominador, com gosto de uísque e perigo puro.

Minhas mãos agarraram instintivamente a lapela do terno dele para não perder o equilíbrio. O contraste entre a frieza do ar do estacionamento e o calor avassalador da boca dele me tirou todo o ar dos pulmões. Ele explorou minha boca com uma calma experiente, tomando posse de mim de uma forma que Matheus jamais havia conseguido em quase um ano juntos.

Quando ele finalmente se afastou alguns centímetros, o toque dos seus polegares na minha bochecha ainda fazia minha pele queimar. Minha respiração estava completamente desgovernada.

Ele manteve o rosto próximo ao meu, a respiração quente roçando a minha pele.

— Nós não vamos fazer isso aqui — ele murmurou, a voz ainda mais rouca. — Eu estou hospedado no hotel do outro lado da quadra. A suíte é nossa.

Olhei para ele, sentindo meu coração martelar contra o peito. A hesitação havia evaporado; tudo o que restava era uma sede incontrolável de me anestesiar naquele mistério.

Ele continuou, aproximando os lábios da minha orelha:

— Apenas me diga: você aceita ir comigo?

— Aceito — respondi sem piscar, a firmeza na minha própria voz me surpreendendo. — Mas com uma condição.

— Qual? — ele perguntou, arqueando uma sobrancelha por trás da estrutura de couro e metal.

— Nós tiramos as máscaras, mas não revelamos nada além dos nossos rostos. Nenhum nome. Nenhum passado. Nenhuma pergunta sobre quem fomos antes de cruzar aquela porta.

Um sorriso sombrio e fascinado cortou as feições dele. Ele segurou minha nuca com a palma quente, dando um selinho demorado nos meus lábios.

— Acordo feito.

Ele abriu a porta do carro novamente. Desta vez, entrei sem olhar para trás.

 

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