Home / Romance / Meu Sogro Perigoso / O Preço da Confiança

Share

Meu Sogro Perigoso
Meu Sogro Perigoso
Author: Olívia Vallen

O Preço da Confiança

last update publish date: 2026-10-05 11:28:20

{Bruna}

O som do subwoofer não era apenas algo para se ouvir; era uma vibração física que subia pelas solas dos meus saltos altos, reverberando direto no peito.

 

A névoa de gelo seco misturada ao perfume caro, bebida derramada e suor impregnava o ar da L’Éclipse, a boate secreta no subsolo do Rio de Janeiro que exigia convite, código na porta e, naquela noite em específico, uma máscara.

— Bebe isso, Bruna — a voz de Sofia ecoou ao meu ouvido, me entregando um copo de cristal com um líquido escuro e gelado. — Você precisa anestesiar o cérebro. Se continuar encarando o nada com essa cara de luto, eu mesma te levo de volta para casa.

Ajustei a máscara de renda preta sobre o rosto. O tecido rendado roçava na minha pele sensível, mas servia como o escudo perfeito. Ninguém ali me conhecia. Ninguém ali sabia que, poucas horas atrás, meu mundo inteiro havia sido destruído em mil pedaços.

— Eu não devia ter vindo — murmurei, a voz embargada enquanto dava um gole longo na bebida, sentindo o álcool queimar do peito até o estômago. — Nada disso faz sentido.

— O que não faz sentido é você ficar em casa chorando por aquele desgraçado! — interveio Beatriz, aproximando-se com a sua máscara dourada reluzindo sob as luzes estroboscópicas púrpuras. — Você viu o que viu, Bruna. Não dá para passar pano.

O que eu vi.

A frase de Beatriz fez minha mente espiralar de volta para três horas atrás. A lembrança veio como uma lâmina afiada rasgando minha memória.

Eu tinha a chave do apartamento do Matheus. Nosso namoro de quase um ano era calmo, seguro, feito de planos para o futuro e promessas de fidelidade. Eu queria fazer uma surpresa depois de um dia exaustivo de trabalho; comprei o vinho favorito dele e fui até o seu prédio.

Lembro da porta do apartamento levemente encostada. Do som da água do chuveiro caindo no banheiro da suíte. E lembro do impacto brutal ao dar o primeiro passo na sala: uma mulher alta, deslumbrante, vestindo apenas uma lingerie de renda vermelha, caminhava calmamente até o quarto dele segurando uma taça.

Ela nem percebeu minha presença. Mas eu vi tudo. O sorriso vitorioso dela, as roupas espalhadas pelo corredor, a facilidade com que ela se movia na casa do meu namorado enquanto ele tomava banho.

O ar sumiu dos meus pulmões naquele segundo. Eu não gritei. Não fiz uma cena. Minhas mãos tremeram tanto que quase deixei a garrafa de vinho cair no carpete. Dei dois passos para trás, fechei a porta em silêncio e corri para o elevador enquanto meu coração se desintegrava.

Quando me encontrei com Sofia e Beatriz, chorando descontroladamente no meu carro, a decisão delas foi imediata: Matheus não merecia nem mais um segundo da minha dor.

— Bruna? — a voz de Sofia me puxou de volta para o barulho ensurdecedor da boate. — Volta para a gente. O namoro acabou, o cara se revelou um canalha, mas você está viva. E hoje é a sua noite de esquecer que ele existe.

— É difícil... — apertei o copo com força, sentindo as lágrimas queimarem atrás dos meus olhos por baixo da máscara. — Quase um ano, Sofia. Eu confiava nele de olhos fechados.

— Pois abra os olhos agora — Beatriz segurou meus ombros, virando-me de leve em direção ao mezanino VIP do outro lado da pista. — A vida é curta demais para chorar por quem não te honra. Olha ao seu redor. Ninguém aqui tem nome hoje. Ninguém tem passado.

Segui o gesto de Beatriz e passei o olhar pelo balcão do bar superior. Dezenas de pessoas mascaradas dançavam e bebiam, entregues ao anonimato.

Até que meus olhos travaram em uma figura no canto mais escuro do mezanino.

Ele estava parado ao lado do balcão de mármore. Vestia um terno cinza-chumbo perfeitamente cortado, sem gravata, com os primeiros botões da camisa preta abertos. A máscara dele, feita de couro e metal escovado, cobria apenas a parte superior do rosto, revelando um maxilar firme coberto por uma barba curta e bem cuidada.

Ele não dançava. Não conversava. Apenas segurava um copo de uísque com dedos longos e firmes, exalando uma aura de poder, maturidade e perigo tão avassaladora que parecia afastar qualquer um que tentasse se aproximar.

Instintivamente, sustentei o olhar.

Através do feixe de luz azul que cortava o ambiente, os olhos frios do homem misterioso encontraram os meus. Ele não piscou. Não sorriu. Apenas levou o copo aos lábios com uma lentidão calculada, mantendo o olhar cravado em mim e fez um sinal discreto com a cabeça — um convite imperioso e silencioso.

— Amiga... — Beatriz sussurrou, seguindo a direção do meu olhar. — Aquele homem no VIP não tirou os olhos de você nem por um segundo.

— Ele acabou de me chamar com a cabeça — murmurei, sentindo o pulso disparar na garganta.

— Vai — disse Sofia, dando um empurrãozinho leve na minha cintura. — Você passou meses sendo a namorada perfeitinha e certinha. Hoje você vai viver a sua vida. Vai lá.

Olhei de volta para o homem no mezanino. Ele continuava ali, me esperando com a firmeza de quem sabia que eu iria. A dor da traição de Matheus ainda queimava dentro do meu peito, mas a adrenalina daquele olhar misterioso prometia ser o único anestésico capaz de calar o meu sofrimento.

Ajustei a máscara no rosto, dei o último gole na bebida e dei o primeiro passo em direção ao perigo.

 

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Meu Sogro Perigoso    A Entrega Inevitável

    As palavras do meu namorado ecoavam pela linha telefônica, mas o meu mundo já havia sido completamente engolido pela presença avassaladora de Marcos.A mão dele apertava minha cintura com mais força, puxando meu quadril contra o dele, enquanto a respiração quente em meu pescoço destruía qualquer resquício do meu autocontrole.— Amor? Você ainda está aí? — a voz de Matheus soou novamente pelo alto-falante, distante, como se estivesse em outra dimensão.Pressionei as pálpebras com força, buscando na dor da culpa o ar para responder.— Estou... estou sim, Matheus — respondi, com a voz embargada, sentindo a ponta dos dedos de Marcos deslizarem por baixo da alça do meu vestido, roçando a pele sensível do meu ombro. — Amanhã o dia vai ser extremamente corrido no escritório... Temos a apresentação de uma proposta para um cliente novo. Acho melhor não nos encontrarmos para o almoço.Ouvi o suspiro resignado do outro lado.— Entendi... Tudo bem, amor. Você tem razão, seu trabalho exige muito.

  • Meu Sogro Perigoso    O Limiar da Insanidade

    {Bruna}O toque da mão de Marcos no meu queixo não era apenas um gesto físico; era uma reivindicação silenciosa. O calor que emanava dos dedos dele atravessava a minha pele, espalhando uma onda de choque que paralisava qualquer tentativa de reação Racional.— Me solta, Marcos... — sussurrei, tentando recuar o corpo, mas minhas costas já estavam pressionadas contra a parede fria do hall do meu apartamento. — Você não tem o direito de vir aqui. Você não tem o direito de invadir a minha casa.— Eu não preciso de direito quando você deixou as portas escancaradas naquela noite — ele respondeu, a voz grave e soturna ecoando na sala silenciosa. Ele deu mais um passo, colando o peito ao meu até que não houvesse mais ar entre nós. — Você acha que pode me usar como um anestésico para as suas frustrações e depois fingir que nada aconteceu?— Eu não te usei! — rebati, o olhar faiscando de raiva e pavor. — Eu cometi um erro absurdo porque achei que o Matheus estava me traindo! Se eu soubesse quem

  • Meu Sogro Perigoso    A Visita da Noite

    {Bruna}O táxi me deixou em frente ao Edifício Residencial Solaro.A fachada moderna do prédio, com suas pastilhas claras e a iluminação embutida no portão de vidro, costumava me trazer uma sensação imediata de aconchego. Naquela noite, porém, os três andares que subi de elevador pareceram uma eternidade sufocante.Entrei no meu apartamento, girei a chave na fechadura duas vezes e encostei as costas contra a madeira da porta, deixando o corpo deslizar até os meus joelhos dobrarem. O silêncio da minha sala era um contraste violento com o turbilhão de pensamentos que atropelava minha mente.A imagem de Marcos na cabeceira da mesa. O toque firme da mão dele no meu pulso no corredor. E o olhar de Matheus, ingênuo e apaixonado, completamente alheio ao monstro que tínhamos criado nas costas dele.Tirei os saltos altos com desleixo, jogando-os perto da entrada, e fui direto para a cozinha. Enchi um copo com água gelada da geladeira, minhas mãos ainda tremendo tanto que o líquido quase transb

  • Meu Sogro Perigoso    A Assinatura do Predador

    {Marcos}Observar a silhueta de Bruna desaparecer pelo corredor do restaurante foi um espetáculo à parte.A maneira como seus ombros tremiam sutilmente, o desespero velado em seus passos e o medo cru estampado naqueles olhos amendoados faziam cada gota do meu sangue pulsar com uma intensidade que eu não sentia há anos.Ajustei os punhos do meu paletó no espelho do hall de acesso ao sair do banheiro masculino e caminhei com passos tranquilos de volta ao salão principal.Quando cheguei à mesa, Matheus já estava sentado, acompanhando com o olhar a porta de vidro do restaurante por onde a garota acabara de passar. A cadeira ao lado dele estava vazia, e o guardanapo de pano dela repousava amassado sobre a mesa — a única prova física de que a minha nora tinha acabado de fugir do próprio pesadelo.Acomodei-me na minha poltrona com a mesma calma calculada de sempre e pousei os braços sobre a mesa.— Ela já foi? — perguntei, mantendo a voz firme e perfeitamente neutra.— Foi, sim... — Matheus

  • Meu Sogro Perigoso    A Fuga na Penumbra

    {Bruna}Precisei de alguns segundos no corredor para obrigar minhas mãos a pararem de tremer e fazer o ar voltar aos meus pulmões. O toque de Marcos ainda queimava no meu queixo; a ameaça velada que ele sussurrara na minha orelha continuava ecoando como um alerta de perigo iminente.Ajustei a postura, engoli o nó grosso que arranhava minha garganta e passei as mãos pelo vestido para desamassar o tecido. Quando voltei ao salão principal do restaurante, meus pés pareciam pesados, como se eu estivesse caminhando direto para um tribunal.Ao me aproximar da mesa, Matheus me olhou com preocupação imediata e se levantou ligeiramente da cadeira.— Amor, tudo bem? Você demorou... está muito pálida — disse ele, puxando a minha cadeira com o cuidado de sempre.— Está tudo bem, sim... — forcei um sorriso fraco, evitando olhar para a frente enquanto me sentava. — Apenas uma leve tontura, nada demais.— Tem certeza? Se quiser, podemos pedir a conta agora — ele se inclinou, baixando a voz com carinh

  • Meu Sogro Perigoso    A Máscara de Vidro

    {Bruna}A poeira da revelação ainda flutuava no ar, mas o silêncio na mesa era ensurdecedor.O olhar de Marcos Buckhard não era apenas surpreso; era uma lâmina afiada que parecia cortar a pele da minha face. Ele permaneceu imóvel por dois segundos intermináveis — o tempo exato que levou para a sua máscara de homem de negócios implacável voltar ao lugar.— Bruna... — Marcos pronunciou meu nome devagar, a voz grave e aveludada reverberando direto na minha espinha. Ele estendeu a mão na minha direção, o tom perfeitamente polido. — É um prazer finalmente conhecê-la. O Matheus fala muito de você.Minha mão tremeu quando se encaixou na dele. O toque foi breve, mas a temperatura da pele dele parecia queimar. A memória daquela mesma mão segurando meus pulsos na suíte do hotel voltou como um soco no estômago.— O... o prazer é meu, senhor Buckhard — consegui articular, a voz saindo por um fio.— Por favor, apenas Marcos — respondeu ele, puxando a cadeira à minha frente e acomodando-se com a el

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status