LOGINCapítulo 6: Linha de Fogo (Miguel)
O motor do SUV blindado rugia baixo, um som que costumava me dar uma sensação de poder, mas que hoje só me trazia urgência. Eu estava no banco de trás, a escuridão do interior do veículo sendo cortada apenas pelos flashes das luzes da rua que invadiam os vidros escuros. Ao meu lado, encolhida contra a porta e envolta em uma manta que Dona Glória tinha buscado, estava a mulher que virou minha rotina de cabeça para baixo em menos de vinte e quatro horas.
— Vai devagar nas curvas, MT. Se eu sentir esse carro balançar mais uma vez, eu te jogo pra fora com ele em movimento — rosnei para o meu braço direito, que dirigia com os olhos grudados no retrovisor.
— O caminho tá limpo, Pai. Os batedores deram o sinal. Mas a gente tá saindo da nossa zona. Se um cana cismar de parar o comboio agora, vai ser guerra — MT respondeu, a voz tensa.
Eu não respondi. Minha atenção foi desviada por um som abafado ao meu lado. Um gemido de dor, tão baixo que quase se perdeu no ruído do ar-condicionado. Olhei para ela. Ágata — eu finalmente sabia o nome dela porque Dona Glória encontrou um documento amassado no fundo da mala dela — parecia estar lutando contra o próprio corpo. A respiração dela estava curta, pesada, e o suor frio brilhava em sua testa.
De repente, o carro passou por um desnível na pista. O solavanco fez o corpo dela pender para o lado, e um grito de dor ficou preso na garganta dela. Antes que eu pudesse processar, minha mão se moveu sozinha. Segurei o ombro dela para impedir que batesse contra o console, e a puxei levemente para mais perto de mim.
Foi nesse momento que ela abriu os olhos.
Aquelas órbitas azul-acinzentadas estavam nubladas pela febre e pelo choque, mas assim que focaram em mim, vi o terror brilhar ali. Ela tentou se afastar, mas a dor nas costelas a fez recuar com um arquejo violento.
— Calma — eu disse, e minha própria voz soou estranha para mim. Não era o tom de comando que eu usava na boca. Era algo mais denso, contido. — Sou eu. Você está segura.
Ela piscou devagar, tentando entender onde estava. O carro blindado, os homens armados na frente, o cheiro de tabaco e sândalo que eu sabia que estava impregnado em mim.
— Para... onde... — ela tentou falar, mas a voz falhou.
— Para um lugar onde vão consertar o que aquele homem fez com você — respondi, mantendo minha mão firme no ombro dela, sentindo a fragilidade dos seus ossos sob o tecido fino da manta. — Não tenta falar. Só respira.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, mas era um silêncio carregado. Eu sentia o olhar dela em mim. Ela não me via como o "Pai", o monstro do morro. Ela me via como a última barreira entre ela e o inferno que deixou para trás. E aquilo me incomodava. Eu não queria ser o salvador de ninguém. Eu queria vingança. Queria usar o caso dela para esmagar a arrogância daquela casta de fardados que me tirou tudo. Mas, olhando para o lábio cortado dela e para o jeito que ela se encolhia, a política do crime parecia distante.
Eu sentia uma fúria fria subindo pela minha espinha. A cada vez que ela estremecia, eu imaginava o prazer que teria em mostrar para aquele carrasco o que acontece quando a "lei do asfalto" mexe com o que é meu. Porque, naquele momento, eu decidi: ela era minha. Não como um objeto, mas como uma responsabilidade que eu não deixaria ninguém tocar.
— Ele vai... me achar — ela sussurrou, as lágrimas finalmente vencendo a resistência e escorrendo pelo rosto machucado. — Ele sempre acha. Ele é a lei...
Ouvir aquela frase me deu náuseas. A "lei" que batia, que torturava, que se escondia atrás de um distintivo.
— Miguel — ela chamou baixinho, quase como um sopro.
Ouvir meu nome saindo da boca dela, e não o meu vulgo, foi como um choque elétrico. Ninguém me chamava de Miguel. Miguel tinha morrido há doze anos nas vielas debaixo de chuva e sangue.
— Ele não é a lei aqui fora — respondi, ignorando o tremor que o som do meu próprio nome causou. Inclinei-me para que ela pudesse ver a verdade nos meus olhos. — Ele é só um covarde com um pedaço de metal no peito. No meu mundo, metal a gente derrete. Ele pode ser o dono das ruas lá embaixo, mas se colocar um pé no meu caminho, eu vou mostrar que o inferno tem dono. E o dono sou eu.
Ela pareceu relaxar um pouco com as minhas palavras, ou talvez tenha sido apenas o efeito do cansaço extremo. A cabeça dela pendeu para o lado, encostando-se no meu braço. Eu não a afastei. Pelo contrário, deixei que ela usasse o meu corpo como apoio, sentindo o calor da febre dela atravessar minha pele.
O comboio entrou nas ruas escuras da Baixada. O Dr. Arnaldo já nos esperava. A clínica era um prédio discreto, sem placas, onde o dinheiro do morro comprava o silêncio e a tecnologia que o Estado negava.
— Chegamos — MT anunciou, manobrando o carro para dentro da garagem fechada.
Assim que o motor desligou, o silêncio se tornou absoluto. Olhei para Ágata. Ela tinha desmaiado novamente, ou talvez apenas entrado em um sono profundo de exaustão. Peguei-a no colo com cuidado, sentindo como ela era leve, quase sem peso, como se a dor tivesse consumido tudo o que havia nela.
Caminhei em direção à entrada da clínica com ela nos braços. Os enfermeiros de Arnaldo já vinham com uma maca, mas eu não a soltei até entrar na sala de exames.
— Cuida dela, Arnaldo — eu disse ao médico, que já preparava os instrumentos. — Se ela sentir uma pontada de dor que possa ser evitada, eu vou considerar um insulto pessoal. Entendeu?
— Entendi, Pai. Deixa com a gente. Ela está em choque e muito debilitada, mas vamos estabilizar.
Saí da sala e fui para o corredor, sentindo o vazio nos meus braços onde ela estava há pouco. MT me estendeu um cigarro, mas eu recusei. Eu precisava estar alerta.
Eu tinha acabado de cruzar uma linha que não tinha volta. Eu não estava apenas escondendo uma fugitiva; eu estava declarando guerra a um oficial influente da polícia por causa de uma mulher que eu nem sabia a cor favorita.
Olhei para as minhas mãos manchadas com um pouco do sangue dela que tinha passado pela manta. A vingança que eu planejei doze anos atrás finalmente tinha um alvo real. E enquanto eu esperava naquele corredor frio, eu fiz um pacto com o silêncio: Ele podia ter tirado a luz da Ágata, mas eu ia ser a escuridão que engoliria a vida dele.
O jogo começou. E no meu tabuleiro, o xeque-mate sempre termina em sangue.
Capítulo 20: O Trono de Cinzas e Sangue (Final)O cronômetro piscava em um vermelho diabólico: 00:45 segundos.— AGORA! — meu grito cortou o salão.Arthur não hesitou. Ele saltou sobre o receptor, usando sua faca tática para cortar o fio de frequência enquanto Lívia distraía os guardas na galeria com disparos precisos. O bipe agudo do detonador principal parou por um segundo, mas os blocos de C4 ao redor das colunas continuaram a contagem regressiva. O sistema era redundante.— O gatilho principal está morto, mas a explosão das colunas é inevitável! — Arthur rugiu, correndo para desamarrar o Miguel.Lucas não esperou. Ele voou em direção à galeria superior. Matteo tentou sacar uma segunda arma, mas Lucas o atingiu com um tacle que os lançou através do parapeito de madeira. Os dois caíram no andar de baixo, colidindo contra a mesa de pedra ancestral.Eu, Giulia, protegi meu ventre com uma mão e empunhei a pistola com a outra, eliminando o último segurança de Matteo que tentava intervir
Capítulo 19: O Labirinto de Pólvora (Lucas / Giulia)O ar dentro do Castello di Ferro era frio e cheirava a mofo e pólvora. Avançamos como sombras, seguindo o mapa que Arthur recuperou. Lucas ia à frente, cada movimento seu era uma promessa de morte. Eu, Giulia, lutava contra uma nova onda de náusea que ameaçava me derrubar. Minhas mãos tremiam levemente, não de medo, mas pelo esforço de manter meu corpo alerta enquanto cada célula minha parecia focada na vida que agora eu sabia que protegia.— Quase lá — Lucas sussurrou, parando diante de uma pesada porta de carvalho reforçada com tiras de ferro. — O sinal do rastreador que Arthur plantou no rádio satelital indica que o Samurai está atrás desta porta.Arthur e Lívia ficaram na retaguarda, cobrindo o corredor. Arthur assentiu para Lucas. Com um movimento coordenado, Lucas chutou a porta, e entramos com as armas em punho.O que vimos congelou o meu sangue.No centro de um salão circular, o Miguel estava amarrado a uma cadeira de ferro.
Capítulo 18: O Herdeiro do Caos (Giulia / Lívia)O balanço do barco pesqueiro que nos levava clandestinamente de Nápoles para a costa da Sicília era implacável. O cheiro de óleo diesel e maresia inundava a cabine apertada onde estávamos escondidas. Eu, Giulia, tentei me levantar para verificar os mapas, mas o mundo girou violentamente. Uma náusea súbita e avassaladora me atingiu, e eu mal tive tempo de alcançar o balde antes que meu estômago se revirasse.Senti mãos pequenas e frias afastarem meu cabelo e uma mão suave pousar nas minhas costas.— Respira, Giulia... calma — a voz de Lívia era doce, mas carregada de preocupação. Ela me entregou um pano úmido e um pouco de água. — É o balanço do mar? Você nunca passou mal em barcos antes.Limpei o rosto, sentindo meu coração martelar. Eu estava pálida, e o suor frio cobria minha testa. Olhei para Lívia. A menina que eu resgatei da Rússia parecia ter amadurecido anos em apenas poucos dias.— Não é só o mar, Lívia — sussurrei, sentindo uma
Capítulo 17: O Renascido das Cinzas (Arthur / Lucas)O calor era insuportável. As cortinas de veludo da capela, que por séculos ouviram as preces silenciosas da família, agora rugiam em chamas. Eu, Arthur, sentia o gosto de sangue e fumaça na boca. Volkov era um monstro de força bruta. Suas mãos estavam em volta do meu pescoço, pressionando minha traqueia contra o chão de mármore quente, enquanto o teto acima de nós começava a estalar.— Você morre aqui, cachorrinho dos Vincenzo — Volkov rosnou, o rosto desfigurado pelo esforço.Meus pulmões imploravam por ar, mas minha mente só via uma imagem: o rosto de Lívia no ginásio, a forma como ela confiou em mim para protegê-la. Uma fúria cega, algo que eu nunca sentiu antes, explodiu nas minhas veias. Não era apenas instinto de sobrevivência; era o ódio de quem se recusava a deixar Matteo vencer.Encontrei o cabo da minha faca tática presa na bota. Com um movimento curto e desesperado, desferi um golpe lateral. A lâmina rasgou a lateral do p
Capítulo 16: O Crepúsculo dos Vincenzo (Lucas / Arthur)O ataque não veio com um aviso ou uma declaração formal. Veio com o som do vidro estilhaçando e o cheiro de gás lacrimogêneo invadindo a sala de jantar da Villa Vincenzo.Eram dez da noite. Estávamos todos reunidos — um raro momento de "família" que Ágata insisti em criar para acalmar os nervos de Lívia após o treino. O jantar ainda estava sobre a mesa, o vinho tinto brilhando sob o lustre de cristal, quando a primeira granada de efeito moral explodiu no pátio externo, transformando o refúgio em um inferno de fumaça e gritos.Eu, Lucas, reagi por puro instinto. Antes que a luz se apagasse totalmente, chutei a mesa de carvalho para o lado, criando uma barricada improvisada.— TODOS NO CHÃO! — rugi, sacando minha arma enquanto a eletricidade da casa era cortada, mergulhando-nos em uma escuridão absoluta, quebrada apenas pelos flashes rítmicos dos disparos que vinham do jardim.Matteo mentiu. Ele não nos deu quarenta e oito horas. E
Capítulo 15: O Peso do Aço e o Calor da Pele (Arthur / Lívia) Livro IIO ginásio da Villa Vincenzo, localizado no subsolo fortificado, era um santuário de suor, disciplina e dor. As paredes de concreto aparente eram decoradas com sacos de pancada pesados e tatames que já haviam testemunhado o treinamento exaustivo de gerações de soldados. Para mim, Arthur, aquele lugar era o meu habitat natural. Mas hoje, o ar parecia diferente. Menos carregado de agressividade e mais denso com uma tensão que eu não sabia nomear.Lívia estava de pé no centro do tatame. Ela vestia roupas esportivas pretas que pareciam grandes demais para seu corpo franzino, o cabelo castanho preso em um rabo de cavalo alto que deixava exposta a nuca pálida. Ela parecia uma boneca de porcelana perdida em um campo de minas.— Se você quer sobreviver ao que está por vir, Lívia, precisa parar de olhar para as mãos das pessoas e começar a olhar para os ombros — falei, caminhando ao redor dela como um predador avaliando sua







