LOGINA dor não é apenas um sentimento; é um lugar. E eu estava perdida dentro dela.
Não lembro exatamente como cheguei àquela cama. Minha memória é um emaranhado de flashes: o rosto frio do homem no galpão, o balanço de uma lanterna, e depois, mãos mãos quentes e calejadas que me seguravam com uma delicadeza que eu não conhecia. Quando finalmente o mundo parou de girar, eu estava em um quarto que cheirava a lavanda e mofo antigo.
Uma senhora de olhos doces e mãos firmes, que se apresentou como Dona Glória, tornou-se meu anjo da guarda naquela noite interminável. Cada vez que ela passava um pano úmido nos meus cortes, eu queria gritar. Cada vez que ela tentava me fazer engolir uma colher de caldo, meu corpo protestava.
— Calma, pequena. Aqui ele não entra — ela sussurrava, como se estivesse lendo meus pensamentos.
A palavra "ele" me dava calafrios. Eu ainda esperava que, a qualquer momento, Ricardo chutasse aquela porta com o distintivo na mão e aquele sorriso sádico que dizia que eu nunca seria livre. Mas as horas passavam e o único som era o das folhas batendo na janela e o eco distante de rádios comunicadores.
A noite foi um deserto de agonia. Minhas costelas pareciam lanças perfurando meus pulmões a cada respiração. Eu sentia as costas queimarem, um lembrete vívido da fivela do cinto de Ricardo. Tentei rezar, mas as palavras se perdiam no cansaço. Eu só queria que o escuro me levasse.
Quando o primeiro clarão do amanhecer começou a riscar o teto de madeira, eu estava em um estado de semiconsciência. Meus olhos pesavam toneladas. Eu queria abrir as pálpebras, queria saber se ainda estava viva, mas o esforço parecia impossível.
Foi então que eu senti.
A atmosfera do quarto mudou. O ar pareceu ficar mais denso, carregado de uma eletricidade silenciosa. O som dos passos era quase imperceptível, mas a presença era esmagadora. Alguém estava ali, parado ao pé da minha cama.
Não era Dona Glória. O peso daquela presença era masculino, sólido, como uma montanha que acabara de se erguer ao meu lado. Eu tentei abrir os olhos, mas a dor nas têmporas me impediu. Fiquei ali, imóvel, sentindo aquele olhar sobre mim — não era um olhar que me despia ou me agredia, era um olhar que parecia me pesar, me avaliar.
E então, o cheiro me atingiu.
Não era o cheiro de álcool e suor de Ricardo. Era algo profundo: tabaco caro, madeira queimada e um toque de perfume importado, amadeirado, que misturava sândalo com o cheiro da manhã fria. Era um aroma que exalava poder, mas também uma solidão imensa.
Meu coração, que estava acelerado pelo medo, estranhamente começou a se acalmar. Eu sabia quem era. Mesmo sem ver suas tatuagens ou seu fuzil, eu sabia que o "Pai" estava ali. O dono daquele império de sombras tinha descido do seu trono para observar os destroços de uma mulher que ele mal conhecia.
Eu queria falar. Queria pedir que ele não me entregasse. Mas o que saiu da minha garganta foi apenas um gemido fraco, um som de suplício que cortou o silêncio do quarto.
Senti um movimento. O cheiro dele ficou mais forte quando ele se inclinou levemente. Eu esperava um toque brusco, mas o que ouvi foi apenas o som da sua respiração, pesada e ruidosa, como a de alguém que também carregava cicatrizes invisíveis.
— Você não vai morrer no meu morro — a voz dele veio como um trovão baixo, vibrando no meu peito.
Aquelas palavras não foram uma promessa de amor, foram um decreto. Uma ordem que nem a morte ousaria desobedecer.
Ouvi-o se afastar e falar com Dona Glória na porta. As palavras "ferimentos internos", "UPA" e "clínica" flutuaram pela minha mente nublada. Eu estava sendo levada de novo. O pânico tentou subir pela minha garganta, mas a lembrança daquele perfume amadeirado e daquela voz firme me manteve ancorada.
Pela primeira vez em cinco anos, eu não era uma presa acuada. Eu era algo que ele decidira proteger. E enquanto eu sentia os braços fortes de alguém me levantando da cama para me levar ao carro, eu fechei os olhos e me deixei levar pelo rastro daquele cheiro.
Se Ricardo era o monstro que usava a luz do dia para me torturar, talvez aquele homem fosse o demônio que usaria a escuridão para me salvar. E, naquele momento, em meio à dor insuportável, eu só conseguia pensar em uma coisa: o "Pai" não tinha apenas me dado abrigo; ele tinha me dado um motivo para não parar de respirar.
A vingança dele estava começando, e a minha sobrevivência seria o combustível dela.
Capítulo 20: O Trono de Cinzas e Sangue (Final)O cronômetro piscava em um vermelho diabólico: 00:45 segundos.— AGORA! — meu grito cortou o salão.Arthur não hesitou. Ele saltou sobre o receptor, usando sua faca tática para cortar o fio de frequência enquanto Lívia distraía os guardas na galeria com disparos precisos. O bipe agudo do detonador principal parou por um segundo, mas os blocos de C4 ao redor das colunas continuaram a contagem regressiva. O sistema era redundante.— O gatilho principal está morto, mas a explosão das colunas é inevitável! — Arthur rugiu, correndo para desamarrar o Miguel.Lucas não esperou. Ele voou em direção à galeria superior. Matteo tentou sacar uma segunda arma, mas Lucas o atingiu com um tacle que os lançou através do parapeito de madeira. Os dois caíram no andar de baixo, colidindo contra a mesa de pedra ancestral.Eu, Giulia, protegi meu ventre com uma mão e empunhei a pistola com a outra, eliminando o último segurança de Matteo que tentava intervir
Capítulo 19: O Labirinto de Pólvora (Lucas / Giulia)O ar dentro do Castello di Ferro era frio e cheirava a mofo e pólvora. Avançamos como sombras, seguindo o mapa que Arthur recuperou. Lucas ia à frente, cada movimento seu era uma promessa de morte. Eu, Giulia, lutava contra uma nova onda de náusea que ameaçava me derrubar. Minhas mãos tremiam levemente, não de medo, mas pelo esforço de manter meu corpo alerta enquanto cada célula minha parecia focada na vida que agora eu sabia que protegia.— Quase lá — Lucas sussurrou, parando diante de uma pesada porta de carvalho reforçada com tiras de ferro. — O sinal do rastreador que Arthur plantou no rádio satelital indica que o Samurai está atrás desta porta.Arthur e Lívia ficaram na retaguarda, cobrindo o corredor. Arthur assentiu para Lucas. Com um movimento coordenado, Lucas chutou a porta, e entramos com as armas em punho.O que vimos congelou o meu sangue.No centro de um salão circular, o Miguel estava amarrado a uma cadeira de ferro.
Capítulo 18: O Herdeiro do Caos (Giulia / Lívia)O balanço do barco pesqueiro que nos levava clandestinamente de Nápoles para a costa da Sicília era implacável. O cheiro de óleo diesel e maresia inundava a cabine apertada onde estávamos escondidas. Eu, Giulia, tentei me levantar para verificar os mapas, mas o mundo girou violentamente. Uma náusea súbita e avassaladora me atingiu, e eu mal tive tempo de alcançar o balde antes que meu estômago se revirasse.Senti mãos pequenas e frias afastarem meu cabelo e uma mão suave pousar nas minhas costas.— Respira, Giulia... calma — a voz de Lívia era doce, mas carregada de preocupação. Ela me entregou um pano úmido e um pouco de água. — É o balanço do mar? Você nunca passou mal em barcos antes.Limpei o rosto, sentindo meu coração martelar. Eu estava pálida, e o suor frio cobria minha testa. Olhei para Lívia. A menina que eu resgatei da Rússia parecia ter amadurecido anos em apenas poucos dias.— Não é só o mar, Lívia — sussurrei, sentindo uma
Capítulo 17: O Renascido das Cinzas (Arthur / Lucas)O calor era insuportável. As cortinas de veludo da capela, que por séculos ouviram as preces silenciosas da família, agora rugiam em chamas. Eu, Arthur, sentia o gosto de sangue e fumaça na boca. Volkov era um monstro de força bruta. Suas mãos estavam em volta do meu pescoço, pressionando minha traqueia contra o chão de mármore quente, enquanto o teto acima de nós começava a estalar.— Você morre aqui, cachorrinho dos Vincenzo — Volkov rosnou, o rosto desfigurado pelo esforço.Meus pulmões imploravam por ar, mas minha mente só via uma imagem: o rosto de Lívia no ginásio, a forma como ela confiou em mim para protegê-la. Uma fúria cega, algo que eu nunca sentiu antes, explodiu nas minhas veias. Não era apenas instinto de sobrevivência; era o ódio de quem se recusava a deixar Matteo vencer.Encontrei o cabo da minha faca tática presa na bota. Com um movimento curto e desesperado, desferi um golpe lateral. A lâmina rasgou a lateral do p
Capítulo 16: O Crepúsculo dos Vincenzo (Lucas / Arthur)O ataque não veio com um aviso ou uma declaração formal. Veio com o som do vidro estilhaçando e o cheiro de gás lacrimogêneo invadindo a sala de jantar da Villa Vincenzo.Eram dez da noite. Estávamos todos reunidos — um raro momento de "família" que Ágata insisti em criar para acalmar os nervos de Lívia após o treino. O jantar ainda estava sobre a mesa, o vinho tinto brilhando sob o lustre de cristal, quando a primeira granada de efeito moral explodiu no pátio externo, transformando o refúgio em um inferno de fumaça e gritos.Eu, Lucas, reagi por puro instinto. Antes que a luz se apagasse totalmente, chutei a mesa de carvalho para o lado, criando uma barricada improvisada.— TODOS NO CHÃO! — rugi, sacando minha arma enquanto a eletricidade da casa era cortada, mergulhando-nos em uma escuridão absoluta, quebrada apenas pelos flashes rítmicos dos disparos que vinham do jardim.Matteo mentiu. Ele não nos deu quarenta e oito horas. E
Capítulo 15: O Peso do Aço e o Calor da Pele (Arthur / Lívia) Livro IIO ginásio da Villa Vincenzo, localizado no subsolo fortificado, era um santuário de suor, disciplina e dor. As paredes de concreto aparente eram decoradas com sacos de pancada pesados e tatames que já haviam testemunhado o treinamento exaustivo de gerações de soldados. Para mim, Arthur, aquele lugar era o meu habitat natural. Mas hoje, o ar parecia diferente. Menos carregado de agressividade e mais denso com uma tensão que eu não sabia nomear.Lívia estava de pé no centro do tatame. Ela vestia roupas esportivas pretas que pareciam grandes demais para seu corpo franzino, o cabelo castanho preso em um rabo de cavalo alto que deixava exposta a nuca pálida. Ela parecia uma boneca de porcelana perdida em um campo de minas.— Se você quer sobreviver ao que está por vir, Lívia, precisa parar de olhar para as mãos das pessoas e começar a olhar para os ombros — falei, caminhando ao redor dela como um predador avaliando sua







