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Capítulo 7

last update publish date: 2026-01-11 12:30:21

Capítulo 7: O Despertar no Escuro (Ágata)

O cheiro era o que me confundia primeiro. Não era o cheiro de mofo e álcool da casa dele. Não era o cheiro de medo. Era um cheiro metálico, misturado com antisséptico e algo que lembrava sândalo. Um perfume caro, masculino, que parecia ter ficado preso na minha memória antes de eu apagar.

Tentei abrir os olhos, mas as pálpebras pesavam como chumbo. Meu corpo parecia não me pertencer; era uma massa de dor latejante, mas, pela primeira vez em muito tempo, havia algo abafando essa dor. Um torpor químico que flutuava nas minhas veias.

— Ela está acordando — uma voz masculina, calma mas profissional, ecoou perto de mim.

Forcei os olhos a se abrirem. O teto era branco, imaculado. Não havia as manchas de infiltração que eu costumava contar para me distrair enquanto ele gritava comigo. Virei o rosto devagar e vi o suporte de soro. O líquido transparente pingava ritmicamente, como uma ampulheta contando o tempo que eu ainda tinha de vida.

— Onde... — minha voz saiu como um estalo seco. Minha garganta parecia cheia de areia.

— Você está em uma clínica, Ágata — a voz veio do canto da sala.

Senti um calafrio percorrer minha espinha antes mesmo de processar quem era. Na poltrona de couro no canto escuro, ele estava sentado. Miguel. Ele não usava mais a jaqueta, apenas uma camiseta preta que marcava os ombros largos. Ele tinha um copo de café em uma das mãos e os olhos fixos em mim, como um predador vigiando sua presa — ou seu tesouro.

As memórias do carro voltaram em flashes. O calor do corpo dele, a promessa de que o inferno tinha dono.

— Você me trouxe... — comecei, mas a tosse interrompeu minha fala, fazendo minhas costelas gritarem.

Em um segundo, ele estava de pé ao meu lado. Não chamou o médico. Ele mesmo pegou o copo de água com um canudo sobre a mesa de cabeceira e encostou nos meus lábios. Sua mão, grande e calejada, sustentou minha nuca com uma delicadeza que me assustou mais do que sua fúria no carro.

— Bebe devagar — ordenou. Não era um pedido, mas não havia violência na voz.

Bebi, sentindo a água descer rasgando. Quando terminei, ele não se afastou. Ficou ali, perto o suficiente para que eu visse a cicatriz fina que cruzava o canto do seu olho esquerdo.

— O Dr. Arnaldo disse que você teve três costelas quebradas, uma leve hemorragia interna e uma infecção que já estava virando pneumonia — ele disse, a voz fria, enumerando meus danos como se fossem baixas de guerra. — Você é forte. Outra pessoa teria morrido antes de chegar ao pé do morro.

— Talvez... fosse melhor — sussurrei, fechando os olhos. O terror de ser encontrada pelo oficial Ricardo ainda era maior do que o alívio de estar viva. — Ele vai me matar, Miguel. Ele disse que se eu fugisse, ele me enterraria em um lugar onde ninguém ouviria minha alma gritar.

Senti os dedos de Miguel pararem sobre o lençol, perto da minha mão. A tensão que emanava dele era quase palpável, como eletricidade antes de uma tempestade.

— Deixa eu te explicar uma coisa sobre o lugar onde você está agora, Ágata — ele se inclinou, o rosto a centímetros do meu. — Lá embaixo, ele é o "Major". Ele tem a farda, o estado e o medo dos civis. Mas aqui em cima, ele é apenas um alvo. E eu nunca erro um alvo.

— Por que você está fazendo isso? — perguntei, as lágrimas subindo novamente. — Você nem me conhece.

Miguel ficou em silêncio por um longo tempo. Ele olhou para as próprias mãos, as mãos que eu sabia que carregavam histórias de sangue que eu não queria conhecer.

— Porque ele acha que é o dono do inferno — respondeu ele, finalmente, com um brilho sombrio nos olhos. — E eu detesto concorrência.

Mas eu vi além da resposta arrogante. Vi o jeito que ele apertou o punho quando mencionei o medo de morrer. Havia algo nele, uma dor antiga que espelhava a minha.

— Agora dorme — ele disse, levantando-se e voltando para a escuridão do canto da sala. — Meus homens estão na porta. Ninguém entra aqui sem que eu autorize. E eu não autorizei ninguém a te tocar.

Pela primeira vez em anos, fechei os olhos sem esperar pelo som da chave girando na porta para o meu pesadelo começar. Eu estava no covil do lobo, mas, estranhamente, era a primeira vez que eu sentia que o monstro estava do meu lado.

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