LOGINNa manhã da Mostra, Dante demorou menos tempo para se arrumar do que Olívia.Ela considerou aquilo uma provocação pessoal.Quando saiu do banheiro pela terceira vez, ainda segurando dois pares de brincos, encontrou-o sentado na poltrona do hotel, completamente pronto, lendo alguma coisa no celular.— Qual?Dante levantou os olhos.— Qual o quê?Olívia mostrou as mãos.— Os brincos.Ele analisou com uma seriedade desnecessária.— O da direita.— Minha direita ou a sua?Dante apontou.— Esse.— Por quê?— Combina mais.— Com o quê?Ele olhou para o vestido, depois para os brincos novamente.— Agora você está exigindo conhecimento técnico.Olívia soltou o ar.— Você podia simplesmente dizer que não sabe.— Não sei.Ela escolheu o outro.Dante começou a rir.— Então por que perguntou?— Precisava eliminar uma opção.— Fico feliz em continuar útil.Olívia colocou o brinco diante do espelho.Sobre a mesa havia uma caixa com os frascos de O.V. 02 que seriam apresentados naquele dia. A embala
Alguns meses depois, Olívia descobriu que cem frascos também podiam parecer poucos.O segundo lote de O.V. 01 tinha acabado mais rápido que o primeiro, e Cecília já falava em aumentar a próxima produção. O.V. 02, por sua vez, começara com cinquenta unidades e recebera uma resposta melhor do que Olívia esperava. Não era um fenômeno nacional, nem chegava perto dos números da Vasconcelos, mas começava a existir uma clientela que procurava as fragrâncias pelo nome.Naquela manhã, Paula entrou na sala carregando uma caixa pequena.— Chegou.Olívia levantou os olhos do computador.— O quê?— Você pediu três amostras de tampa nova e esqueceu.— Não esqueci.— Então estava testando minha memória.Paula colocou a caixa sobre a mesa.Olívia abriu e encontrou as três versões.— A segunda.— Você nem pegou.— Eu já sabia pelas fotos.— Então por que mandou vir?Olívia abriu a boca e desistiu.— Sai.Paula riu.— Dante está te esperando lá embaixo.— Ele chegou?— Há uns dez minutos.Olívia olhou
Olívia não esperava que a primeira viagem a São Paulo com Dante começasse com uma discussão sobre sapatos.— Você disse dois dias — ela falou, olhando para a mala aberta sobre a cama.— São dois dias.— Então por que levou três pares?Dante, que dobrava uma camisa, olhou para ela.— Um para o evento, um para reunião e um confortável.— Você está ficando exigente para quem entrou nesta casa com um tênis quase destruído.— Minha situação financeira melhorou.Olívia riu e jogou uma nécessaire dentro da própria mala.A viagem tinha surgido de maneira simples. Dante precisava estar na sede do Grupo Ferraz na segunda e na terça-feira e, como Olívia tinha uma reunião com um fornecedor de embalagens na cidade, decidiram ir juntos. Nenhum dos dois tinha transformado aquilo em acontecimento.Mesmo assim, havia alguma coisa diferente.Até então, Dante vinha voltando para a vida de Olívia.Agora ela entraria na dele.O apartamento ficava numa região que Olívia conhecia apenas de passar de carro.
Na quinta-feira, os testes de embalagem do O.V. 02 chegaram pouco antes das quatro da tarde.Dante ainda não estava em casa.Olívia olhou o relógio pela terceira vez e se irritou consigo mesma. Ele tinha dito que estaria ali, mas não tinha dado horário. Mesmo assim, desde o almoço ela verificava o celular com uma frequência que não pretendia admitir.Às quatro e vinte, ouviu a porta do laboratório abrir.— Eu prometi quinta — Dante disse.Olívia ergueu os olhos.— Ainda é quinta.— Então cheguei dentro do prazo.— Tecnicamente.Ele colocou uma pequena mala perto da porta.Olívia olhou para ela.— Achei que tinha mandado guardar todas.— Essa é de viagem.— Você comprou outra?Dante percebeu a própria armadilha e começou a rir.— Você literalmente mandou eu comprar outra se precisasse ir embora algum dia.— Para ir embora de mim. Não para São Paulo.— Faltou especificar.Olívia tentou manter a expressão séria, mas não conseguiu.— Vem ver.Havia quatro versões da embalagem sobre a banc
Os cinquenta frascos chegaram numa terça-feira pela manhã.Olívia tinha insistido em receber o lote antes que qualquer unidade fosse enviada para Cecília. Não confiava o suficiente na pequena fábrica para permitir que o primeiro perfume que levava seu nome atravessasse o país sem passar por suas mãos.Duas caixas estavam abertas sobre a mesa do laboratório quando Paula entrou.— Achei que seriam maiores.— São trinta mililitros.— Estou falando das caixas.Olívia tirou mais um frasco da embalagem.— Você esperava o quê? Um caminhão?— Você falou tanto desse lote que eu comecei a imaginar uma operação internacional.— São cinquenta perfumes.— Exatamente. Cuidado para não perder o controle do império.Olívia ignorou.Já tinha conferido vinte e três unidades. Cheirava algumas, verificava válvula, tampa, etiqueta e nível de preenchimento. Até aquele momento havia separado duas porque o rótulo estava ligeiramente torto.Paula pegou uma das rejeitadas.— Você está falando sério?— Está tor
Na manhã seguinte, Olívia acordou antes de Dante e demorou alguns segundos para lembrar por que havia um braço atravessado sobre sua cintura.Virou o rosto e o encontrou dormindo profundamente, com a respiração pesada de quem tinha chegado ao fim de uma semana ruim e finalmente permitido ao corpo parar. Na noite anterior, depois que ela o puxara para o quarto, tinham ficado muito tempo conversando na cama, quase sempre sobre coisas pequenas. Dante contou que Teresa telefonara três vezes depois da entrevista para reclamar que ele continuava respondendo aos jornalistas como se estivesse prestando depoimento, e Olívia contou que Cecília queria definir o primeiro lote até o fim da semana.Em algum momento, pararam de conversar e dormiram.Olívia ficou olhando para ele mais um pouco antes de afastar cuidadosamente o braço de sua cintura.Dante abriu os olhos.— Você sempre acorda quando eu tento sair?— Você não sabe sair discretamente.— Eu estava sendo muito discreta.— Você quase arranc







