FAZER LOGINClarke Bellomo Quando o avião tocou o asfalto americano, meu coração pareceu parar por um segundo inteiro. Aterrissar nunca tinha me causado isso. Eu já tinha feito aquela rota dezenas de vezes. Mas agora cada metro de pista parecia carregar um peso diferente. Eu desci do avião com a mala de mão, os óculos escuros ainda no rosto e a certeza de que não conseguiria esperar mais nenhum dia. Não fui para casa. Fui direto para o apartamento de Mary Anne. O porteiro me reconheceu assim que me aproximei da recepção. Um homem mais velho, educado, que já tinha me visto algumas vezes quando eu buscava ela. — Senhor Bellomo. A senhorita Brown não está. Ela está viajando a trabalho. A amiga dela saiu para o emprego mais cedo. Eu fiquei parado alguns segundos, processando. Claro. As últimas campanhas do contrato. Eu tinha esquecido completamente. O último destino era Milão, daqui a um mês. Eu tinha atravessado o oceano à toa. Ela não estava. E não voltaria tão cedo. Agradeci ao
Mary Anne O barulho me arrancou do sono. Um som úmido, repetido, vindo do banheiro. Eu abri os olhos no escuro do quarto e fiquei alguns segundos tentando entender se era sonho ou realidade. Depois veio outro gemido baixo, seguido do barulho característico de alguém vomitando. Levantei na hora. — Lívia? Não houve resposta. Só mais um esforço abafado. Empurrei a porta do banheiro e a encontrei ajoelhada no chão, debruçada sobre o vaso, o cabelo preso de qualquer jeito com uma mão enquanto a outra segurava a borda. O corpo dela tremia. — Meu Deus, Li… o que foi? Ela acenou com a mão, pedindo um segundo. Eu molhei uma toalha pequena, torci e coloquei na nuca dela. O cheiro azedo tomava conta do banheiro. Quando finalmente ela se afastou do vaso, o rosto estava pálido, os olhos marejados e a boca trêmula. — Eu… eu não sei — murmurou, a voz rouca. — Acho que foi alguma coisa que eu comi. Tentei puxar a memória dos últimos dias. Estávamos no meio da semana. Lívia era a pess
Mary Anne Eu acordei num dia qualquer e decidi que precisava mudar alguma coisa no corpo. Não era sobre ficar mais bonita. Era sobre marcar território. Sobre provar para mim mesma que eu ainda era dona da minha pele. Marquei hora no estúdio de tatuagem no mesmo dia. Primeiro foi o braço. Linhas finas, um desenho que subia do pulso até quase o cotovelo, folhas, espinhos e pequenos detalhes que só faziam sentido para mim. A agulha doía de um jeito bom. Cada picada era um lembrete de que eu ainda sentia alguma coisa além de saudade. Depois veio a guirlanda. Delicada, logo abaixo dos seios, um arco de flores e folhas que só aparecia se eu levantasse a blusa. O tatuador levantou a sobrancelha quando expliquei o lugar. Eu apenas deitei e fechei os olhos. Quando saí dali, o corpo ardia e eu me sentia um pouco mais minha. No dia seguinte cortei o cabelo. Não foi um corte tímido. Foi tesoura, coragem e o espelho do salão refletindo uma mulher que eu mal reconhecia. Os fios longos
Clarke A notificação apareceu na tela enquanto eu ainda estava no escritório, olhando números que não faziam mais sentido. Era da conta oficial da agência onde Mary Anne trabalhava. Eu não a seguia, mas vi que seu perfil era aberto. O algoritmo, cruel e eficiente, me entregou exatamente o que eu não deveria ver, postagens do nosso ensaio deles, onde ela participava. Cliquei. O ensaio da próxima campanha. Fotos polidas, luz perfeita, cenários urbanos e naturais misturados. Eu passei por cada uma com o dedo lento demais. Até chegar nos bastidores. Ela estava ali. Linda. Radiante. O cabelo solto, o sorriso fácil, brincando com os parceiros de ensaio. Em uma foto ela ria de cabeça jogada para trás. Em outra fazia careta para a câmera. Em outra ainda estava sentada no chão, conversando animada com uma maquiadora. Parecia leve. Parecia feliz. Parecia… longe. Eu sorri junto com a tela. Um sorriso pequeno, automático e dolorido. Será que ela realmente estava feliz? Realizada? S
Mary AnneA volta para casa foi estranha. O apartamento cheirava a poeira e a ausência. Lívia abriu as janelas assim que entramos, como se o ar de Connecticut pudesse apagar o cheiro de Toscana que ainda carregávamos nas malas. Eu larguei a bolsa no chão e fiquei parada no meio da sala. Nada parecia meu. O sofá, a mesa de centro, a prateleira de livros… tudo estava no lugar, mas eu não. Eu tinha passado semanas vivendo uma vida que nunca imaginei. Dormindo em villas, pisando uvas, brigando, amando, saindo pela porta no meio da madrugada. Lívia tinha passado pouco mais de vinte e quatro horas na Itália, mas uma única noite tinha mudado o eixo dela. As duas estávamos quietas. Vazias. Eu pensava em Clarke o tempo inteiro. Imaginava se ele tinha falado alguma coisa na festa. Se estava bem. Se tinha se divertido. Se estava triste. Se tinha chorado de novo. Pegava o celular dezenas de vezes por dia, abria a conversa e fechava sem digitar nada. Eu tinha decidido me afastar. Então ia es
Mary AnneEu já estava alta. Não um pouco. Alta de verdade. O tipo de alta que faz o mundo balançar devagar e as palavras saírem mais soltas do que deveriam. Giuseppe tocava violão perto da fogueira improvisada, os dedos grossos deslizando nas cordas com a mesma habilidade que usava nas videiras. Eu reconheci a melodia imediatamente. Clarke ouvia aquela música quase todas as noites na villa. Às vezes cantarolava baixo enquanto preparava café. Eu tentei acompanhar. A melodia eu sabia. A letra em italiano… não tanto. Errava as palavras. Trocava sílabas. Inventava finais. A cada erro os funcionários caíam na gargalhada e me corrigiam em coro. Alguns só falavam italiano. Outros eram bilíngues, graças à insistência de Clarke em que todos pudessem se virar com compradores estrangeiros. Eu aprendia rápido, mesmo bêbada. Repetia a frase certa, errava de novo na seguinte, e todo mundo ria mais. Eu também ria. Ria alto. Ria para não sentir o buraco no peito. A festa foi morrendo deva







