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Capítulo 4

Author: Dona Morena
last update publish date: 2026-05-24 02:23:25

Mary

Acordei com o coração ainda acelerado da noite anterior. A manta de Clarke estava dobrada na cadeira do quarto, com o cheiro dele sutilmente impregnado no tecido.

Liguei para Tomáz, meu melhor amigo, quase um irmão. Ele estava fora a trabalho em Tóquio, e não via a hora dele chegar.

— Oi maluca, acabei de chegar em casa, trouxe muitos presentes.

— Que bom que voltou, quando vamos nos ver? — Perguntei ansiosa.

— Vou fazer uma média com a família, nos vemos à noite?

“A noite?”

Porque estou pensando tanto, eu nem deveria cogitar ir na festa de Clarke.

— Você está aí? — Tomáz pergunta diante do meu silêncio.

— Estou bem, nos vemos amanhã, hoje… hoje eu tenho compromisso.

“ Droga”

— Você esconde algo… me conte amanhã, maluca. Tchau.

Quando ele desligou, eu sorri internamente. Ele nem imaginava que um homem com idade para ser meu pai estaria atrás de mim.

Desci para o café da manhã e o primeiro nome que ouço é: Clarke.

Entro na cozinha e o vejo. Ele estava lindo, com uma camisa casual preta, mostrando sua tatuagem no braço e ele para a xícara de café no ar quando me vê. Eu estava com uma saia rodada e cropped de crochê rosa.

— Mary, querida, junte-se a nós! — Tia Magda pede sorridente. — Lembra do Clarke? Acho que a primeira vez que se viram, foi em um dos aniversários de Logan quando criança.

— Bom dia!

Dou um beijo em tia Magda e outro no tio Anthony. Ele sempre me tratou como uma filha.

Quando chega a vez de Clarke, eu pego em sua mão. E a eletricidade que passa por nós é inegável.

— Prazer em vê-la novamente!

Ele beija a minha mão e puxo rapidamente como se queimasse.

— Estávamos falando sobre um coquetel que Clarke fará hoje a noite, não quer vir conosco? — Tia Magda convida.— A não ser que já tenha um esqueminha.

Olho para Clarke e ele trava o maxilar.

— Vou ver, tia, mas agradeço o convite.

— Se não for, tomarei como desfeita! — Ele fala com a voz grave, me arrepiando.

…

Mais tarde

Tomei um banho longo, passei meu óleo de rosas favorito no corpo e escolhi um vestido leve, soltinho, verde-esmeralda, cor que me fazia parecer “fogo vivo”. Prendi os cabelos num coque frouxo, mas deixei algumas mechas soltas. Queria estar bonita, mas não como se tivesse me arrumado para ele.

Mentira. Claro que me arrumei para ele.

O coquetel era às sete da noite, na casa dele, aqui no condomínio. Clarke havia mandado uma mensagem curta pelo celular, que até agora não sei quem deu a ele.

“Espero que venha, sem compromisso. Só quero te ver sorrir de novo.”

Respondi só com um emoji de olho piscando. Ele que suasse um pouco.

Quando deu 21 hr, eu decidi ir, não chegaria tão vedo. O jardim estava lindo. Luminárias quentes, jazz suave tocando, mesas com frios, taças de vinho tinto brilhando sob a luz. Poucas pessoas, uns vinte convidados no máximo. Tia Magda e Anthony, e alguns vizinhos do condomínio.

E ele.

Clarke estava encostado no balcão do bar improvisado, conversando com Anthony, mas assim que eu apareci no jardim, seus olhos me encontraram como ímãs. Ele parou de falar no meio da frase. O olhar desceu pelo meu vestido, pelos meus cabelos, pelas sandálias de tiras que deixavam meus tornozelos à mostra. Quando voltou para o meu rosto, havia fome ali. Pura fome.

Sorri por dentro. “Bom. Sofra um pouco.”

— Chegou a cigana da família! — tia Magda exclamou, me puxando para um abraço. — Vem, pega um vinho, é do vinhedo de Clarke.

Aceitei a taça, sentindo o olhar de Clarke queimando minha nuca. Virei devagar e fui até ele, caminhando como quem não quer nada.

— Boa noite, Bellomo!

— Mary Anne… — A voz dele saiu mais rouca que o normal. — Você veio!

— Disse que ia pensar, então pensei e vim. Não significa nada — respondi, dando de ombros e tomando um gole do vinho.

Ele se aproximou um passo, falando baixo o suficiente para só eu ouvir:

— Esse vestido deveria ser proibido. Você está tentando me matar?

Sorri por cima da taça.

— Eu? Nunca. Só gosto de me sentir bonita. Se isso te incomoda, o problema é seu.

Clarke deu uma risada baixa, mas os olhos continuavam sérios.

— Incomoda de um jeito, que eu não consigo parar de imaginar tirando esse vestido devagar.

Quase engasguei com o vinho. Ele era direto demais, e eu adorei.

— Sonhar não custa nada — provoquei, passando a ponta da língua no lábio inferior de propósito. — Mas tocar… aí já é outro nível. E eu não sou esse nível fácil.

Ele engoliu em seco, o maxilar tensionando. Vi o pomo de adão subir e descer. Ótimo, estava funcionando.

Passamos a próxima hora circulando. Eu conversava com todo mundo, ria alto, contava histórias do sítio da minha mãe, dançava sozinha quando a música ficava mais animada. Clarke não tirava os olhos de mim. Cada vez que eu olhava, ele estava me observando. Bebendo devagar. Como se quisesse memorizar cada movimento meu.

Em determinado momento, eu fui até a borda da piscina, precisando de ar. Ele apareceu ao meu lado dois minutos depois, com uma nova taça de vinho.

— Você dança como se o mundo fosse seu palco particular— murmurou.

— Porque é. Ou vai ser — respondi, virando para ele. — Eu não fico parada, Clarke, nunca, para nada.

Ele deu um passo mais perto. O ar entre nós estava elétrico.

— Eu não quero te parar. Quero ver essa energia toda… em cima de mim, embaixo de mim, do meu lado.

Meu corpo reagiu antes da cabeça. Senti um calor subir entre as pernas, e o vinho não está a ajudando. Mas mantive o controle.

— Você fala bonito — sussurrei, chegando bem perto dele. Nossos corpos quase se tocando. Eu sentia o calor irradiando dele. — Mas eu ainda não decidi se você merece.

Ergui o rosto e nossos narizes quase se tocaram. Senti a respiração dele acelerar e seus olhos desceram para minha boca. Eu me inclinei devagar, bem devagar… até meus lábios ficarem a um milímetro dos dele. Senti o cheiro do vinho no hálito dele, quase provei, a ego sua barba bem aparada tocando minha pele.

Então parei.

— Boa noite, Clarke — sussurrei contra a boca dele.

E me afastei, girando nos calcanhares e voltando para dentro de casa com o coração disparado.

Ouvi ele soltar um gemido baixo de frustração atrás de mim. Sorri.

“Louco. Exatamente como eu queria.”

---

Semana seguinte, após muito trabalho, acordei cedo para o primeiro dia de ensaio fotográfico da minha nova campanha. A agência tinha mandado o tudo por e-mail:

“Campanha Vinho Aurora – Elegância, paixão e tradição italiana”.

Eu amei o conceito. Poses sensuais, mas sofisticadas, entre vinhedos, taças, luz dourada. Perfeito para mim.

Cheguei ao estúdio em Stamford radiante, cabelos soltos e ondulados, maquiagem glowy. O fotógrafo, um cara chamado Julian, me recebeu animado.

— Mary Anne! Você é ainda mais perfeita pessoalmente. Vamos arrasar hoje!

Passamos quatro horas no estúdio. Luzes quentes, fundos neutros, várias trocas de roupa: vestidos leves, chemise de seda, uma blusa aberta que deixava os ombros à mostra. Eu me sentia no paraíso. Posava, girava, ria, jogava os cabelos. Julian não parava de elogiar.

No intervalo, a produtora me entregou o contrato completo.

— Parabéns! Fechamos tudo ontem. Você vai ser o rosto da Aurora por um ano. Primeira fase aqui nos EUA, depois vamos para a Itália, no vinhedo principal, para o ensaio principal da campanha. E todo ano será renovado.

— Itália? — perguntei, animada. — Que maravilha! Qual o nome do vinhedo mesmo?

— Vinhedo Aurora, propriedade da família Bellomo. O dono é um tal de Clarke Bellomo. Ele aprovou você pessoalmente depois de ver seu book.

Parei com a taça de água a meio caminho da boca.

“Clarke.”

O vinho que eu bebi ontem à noite. O vinhedo dele, a campanha… era dele.

Senti um frio na espinha misturado com uma excitação absurda.

— Ele… aprovou pessoalmente? — perguntei, tentando manter a voz neutra. — E quando foi isso?

— Sim. Ele veio na agência ontem, quando viu seu book, disse que você tinha “a energia exata que o vinho precisava”. Palavras dele.

Eu ri. Claro que disse.

Terminamos o ensaio no estúdio e Julian marcou a viagem para a Itália dali a duas semanas. Eu iria com a equipe completa: fotógrafo, stylist, maquiadora. Dez dias no vinhedo do Clarke, na Toscana.

Voltei para a casa da tia Magda com a cabeça girando. À noite, estava no jardim novamente quando recebi uma mensagem dele:

Clarke: Soube que nos veremos em breve na Itália.

Clarke: Parece que o destino está conspirando, cigana.

Respondi:

Eu: Parece que você planejou isso desde o começo, Bellomo.

Eu: Mas não pense que vai ser fácil só porque vamos estar no seu território.

Clarke: Eu não quero fácil. Quero desafio, e vou esperar o tempo que for preciso.

Guardei o celular, olhando as estrelas.

Eu não ia dar para ele tão fácil. Não ia virar só mais uma conquista, mas Deus… como eu queria deixar ele completamente louco até o dia em que eu finalmente cedesse.

E esse dia estava se aproximando mais rápido do que eu imaginava.

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