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Capítulo 3

Author: Dona Morena
last update publish date: 2026-05-24 01:51:12

Mary

Fiquei no quarto por horas, minutos, sei lá por quanto tempo. Ouvi as risadas lá embaixo diminuírem, os carros indo embora. A casa foi ficando silenciosa. Olhei o relógio e era quase uma da manhã. Meu short de algodão e a blusa fina não eram ideais para a noite fresca de Connecticut, mas eu precisava de ar. Precisava de estrelas. Precisava me sentir cigana de novo, como na casa da minha mãe.

Desci descalça, passei pela cozinha escura e saí para o jardim dos fundos. A piscina iluminada refletia o céu limpo. Milhões de estrelas brilhavam acima das árvores. Respirei fundo, levantei os braços e girei devagar, sentindo o vento fresco bagunçar meus longos cabelos soltos.

— Finalmente sozinha… — murmurei, sorrindo para o céu.

Uma voz grave, rouca e absurdamente sexy veio de trás de mim:

— Fugindo de mim de novo, Mary Anne?

Eu dei um pulo tão grande que quase caí na piscina. Virei rápido, com a mão no peito.

— Porra...

Clarke estava ali, a poucos metros, caminhando devagar na minha direção. Carregava uma manta de cashmere cinza-claro nas mãos grandes. A luz suave das luminárias do jardim desenhava seu rosto. O maxilar definido, olhos intensos, aquele sorriso que prometia problemas.

— De onde você saiu? Quase me matou do coração! — reclamei, mas minha voz saiu mais ofegante do que brava.

Ele parou a dois passos de mim, perto o suficiente para eu sentir seu perfume amadeirado, caro, com um toque de couro e especiarias. Homem, puro homem.

— Desculpe, eu não quis te assustar. — Ele estendeu a manta. — Você parece com frio.

Eu hesitei, pois aceitar significava deixar ele se aproximar, mas recusar seria grosseria.

— Obrigada, mas não estou com frio! — Falo tentando ser casual.

— Não é o que sei corpo está dizendo. — Digo seus olhos para meus seios com os biquinhos eriçados.

Peguei a manta, e quando nossos dedos se tocaram, um choque subiu pelo meu braço até a nuca. Enrolei a manta nos ombros, tentando ganhar tempo.

— Obrigada — murmurei, erguendo o queixo. — E sim, eu estava fugindo. Um pouco!

Ele riu baixo, uma risada grave que reverberou no meu peito.

— Clarke Bellomo — disse ele, estendendo a mão. — Prazer oficial!

Eu segurei sua mão, firme, quente. Demorou mais que o necessário.

— Mary Anne — respondi, soltando rápido. — Padrinho de Logan. Você mora na Itália, né? O que um italiano faz aparecendo de surpresa no jardim da minha família a essa hora?

— Sou Italo-americano, na verdade. E padrinho honorário. Conheço Logan desde que ele usava fraldas. — Ele deu um passo mais perto. — Vim passar uma temporada aqui a negócios. E agora… parece que ganhei um motivo extra para ficar.

Seus olhos desceram lentamente pelos meus cabelos soltos, pararam um segundo nos meus lábios, depois voltaram para os meus olhos. Senti meu corpo inteiro esquentar.

— Olha, Clarke… Eu vi como você me olhou lá na sala e no corredor. Sei exatamente o tipo de pensamento que passou pela sua cabeça. E eu não sou do tipo que cai fácil. Nem pra homem mais velho, bonito e com sotaque sexy.

Ele ergueu uma sobrancelha, claramente divertido.

— Mais velho e sexy? — repetiu, sorrindo. — Quantos anos você acha que eu tenho, ciganinha?

— O suficiente para ser padrinho de um homem de trinta e seis. Isso já diz tudo.

— Quarenta e oito — confessou ele, sem vergonha. — E ainda assim, não consigo parar de olhar pra você desde que entrou naquela sala.

Meu estômago deu uma cambalhota. Quarenta e oito, muito mais velho que eu. Eu deveria me afastar, em vez disso, levantei o queixo mais ainda.

— Então pare. Eu vim pra trabalhar, numa campanha de moda. Tenho fotos o dia inteiro, então não tenho tempo para… seja lá o que você está imaginando.

Clarke deu mais um passo. Agora estava perto o suficiente para eu sentir o calor do corpo dele.

— E o que eu estou imaginando, ciganinha?

— Não se faça de inocente. Homens como você querem uma coisa só. E eu não dou moleza para ninguém. Muito menos para o padrinho do meu primo.

Ele sorriu devagar, como quem aceita um desafio delicioso, seu sorriso é lindo, experiente, sabe como fazer o coração de uma mulher acelerar.

— Homens como eu? — repetiu, a voz baixando uma oitava. — E que tipo de homem eu sou, segundo você?

— Do tipo perigoso. Do tipo que chega, olha, sorri e acha que a mulher vai derreter. — Eu dei um passo para trás, encostando na borda de uma espreguiçadeira. — Mas eu não derreto fácil, Clarke Bellomo. Eu sou cigana, eu danço, eu rio alto, eu vivo intensamente… mas escolho com quem eu quero dançar, porque sou livre.

Ele inclinou a cabeça, observando meu rosto como se quisesse decorar cada detalhe.

— Eu não quero que você derreta. Quero que você queime, devagar. Quero conhecer essa energia toda que você carrega, quero ouvir você rir daquele jeito que fez a sala inteira vibrar mais cedo. Quero ver esses cabelos soltos enquanto você posa para as câmeras… e depois, sem as câmeras.

Senti um arrepio percorrer minha espinha. Ele era bom, muito bom.

— Bonito discurso — respondi, fingindo indiferença. — Mas eu não vou facilitar pra você. Se quiser me conhecer, vai ter que merecer. Nada de olhares predadores no jardim à meia-noite, nada de aparecer do nada com mantas românticas.

Clarke riu novamente, passando a mão pelos cabelos grisalhos.

— Então me diga como, porque eu não vou desistir, Mary Anne. Eu vi você, senti a química, e eu sou homem de ir atrás do que quero.

— Comece sendo menos… intenso — sugeri, embora parte de mim adorasse a intensidade. — Seja meu amigo primeiro, me conte sobre a Itália. Me fale por que um homem como você ainda não tem uma esposa te esperando em alguma villa na toscana.

Ele se aproximou novamente, mas parou antes de me tocar.

— Não tenho esposa porque nunca encontrei alguém que me fizesse querer parar de viajar. Até hoje. — Os olhos dele brilharam. — E sobre ser seu amigo… posso tentar. Mas não prometo conseguir ficar só no “amigo” quando você me olha desse jeito.

— Desse jeito como? — provoquei, inclinando a cabeça.

— Como se quisesse me beijar e me mandar embora ao mesmo tempo.

Eu ri, uma risada alta, genuína, estilo cigana.

— Você é convencido demais, sabia?

— E você é linda demais quando ri — respondeu ele, a voz suave.

Ficamos em silêncio por um momento, só o barulho da água da piscina e o vento nas árvores. Eu sentia o coração acelerado, queria tocar nele, queria correr, queria as duas coisas.

— O que está fazendo aqui a essa hora? — Perguntei curiosa.

— Tenho uma casa aqui no condomínio, duas casas à frente.

“ Conveniente e perigoso”

— Eu vou subir — disse finalmente, puxando a manta mais para perto. — Obrigada pela manta, pode pegar de volta amanhã.

— Fique com ela, combina com você.

Eu já estava andando em direção à casa quando a voz dele me parou mais uma vez.

— Mary Anne?

Virei.

— Sim?

— Amanhã à noite… tem uma festa pequena em casa. Poucas pessoas, nada formal. Gostaria que você viesse, não como um encontro, só… como alguém que quer te conhecer melhor, mas sem pressão.

Eu mordi o lábio, pensando. Meu corpo inteiro gritava “sim”, mas a minha cabeça dizia “devagar”.

— Vou pensar — respondi, dando um sorrisinho desafiador. — Boa noite, Clarke.

— Boa noite, cigana.

Entrei na casa ainda sentindo o olhar dele em mim novamente. Quando fechei a porta do quarto, encostei na madeira e suspirei alto, tocando os lábios com os dedos.

“Ele não vai desistir.”

E, honestamente… eu não tinha tanta certeza se queria que ele desistisse.

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