FAZER LOGINEu nunca imaginei que, um dia, estaria andando nua dentro de uma mansão. E menos ainda que estaria recebendo uma pequena fortuna por isso.
O primeiro momento foi, sem dúvida, o pior. Assim que ele confirmou minha contratação — se é que posso chamar assim — ele me indicou um quarto no segundo andar, onde eu poderia deixar minhas roupas, minhas coisas e tomar um banho, se quisesse. Fiquei encarando minhas próprias mãos enquanto subia a escada de mármore. Elas tremiam. A cada degrau, meu estômago revirava. Lá em cima, entrei no quarto que ele indicou. Era maior que meu apartamento inteiro. Uma cama de dossel, cortinas brancas, móveis antigos, cheirando a madeira encerada e perfume caro. Olhei para mim no espelho. Meu reflexo parecia de outra pessoa. Eu, Laysla Martins, filha da dona Vera e do seu Joaquim... pelada numa mansão. Que loucura era essa que a vida tava me obrigando a viver? Com o coração disparado, tirei cada peça de roupa, dobrei, coloquei cuidadosamente em cima da poltrona. Só de estar nua ali, sozinha, eu já me sentia estranha. O corpo todo arrepiado, não sabia se era frio, nervoso ou os dois. Respirei fundo, várias vezes. Até que não tinha mais desculpa pra enrolar. Abri a porta do quarto, olhei pro corredor vazio e coloquei o rosto pra fora, como se alguém fosse estar ali me esperando. Nada. Desci. A mansão parecia silenciosa demais. Pisava devagar, andando como se fosse pisar em cacos invisíveis. Cada quadro na parede parecia me encarar. Cada estátua parecia rir da minha vergonha. E ele? Ele não estava em lugar nenhum. Nenhuma presença, nenhum som, nada. Era como se eu estivesse sozinha na casa. O primeiro dia foi assim: andando com a mão na frente e outra atrás, literalmente. Me sentindo estranha, desconfortável, tentando não me olhar muito refletida nos vidros e espelhos. A tensão me fazia até esquecer de respirar direito. Mas, curiosamente... conforme as horas foram passando, algo foi mudando. No café da manhã, havia uma mesa posta na sala de jantar. Pães, sucos, frutas, café, geleias... tudo ali, sem ninguém. Sentei, com uma almofada no colo pra não me sentir tão exposta, e comi olhando pra janela. O dia passou, e percebi que ele, o senhor da casa — que até aquele momento eu só sabia ser chamado de Dr. César —, realmente era discreto. Não apareceu. Ou se apareceu, passou tão despercebido que eu nem vi. O segundo dia começou um pouco menos desconfortável. Ainda acordei enrolada no edredom, olhando pro teto e pensando se aquilo tudo era real. Mas, depois do banho, quando caminhei até a cozinha pra pegar um café, já não escondi tanto o corpo com as mãos. A sensação estranha começou a se misturar com algo que eu não esperava: liberdade. Andar nua, sem ninguém me julgando, sem ninguém me olhando diretamente — pelo menos, não que eu percebesse — dava uma sensação de leveza estranha. Uma mistura de vergonha com... paz. Comecei a explorar. Cada cômodo era uma surpresa. Havia uma sala cheia de livros, que mais parecia uma biblioteca de filme antigo. Outra sala tinha quadros inacabados, pincéis, telas, como se em algum momento ele tivesse tentado ser pintor. Um corredor escondia uma espécie de museu pessoal: peças mecânicas antigas, relógios desmontados, fotografias de invenções estranhas. No terceiro dia, já estava natural tomar café da manhã completamente nua, sentar na poltrona da varanda com uma xícara de chá e observar o jardim. Na hora do almoço, serviam pratos sofisticados numa mesa de oito metros, como se eu fosse a dona da mansão. E à noite, deitava na cama, sem roupa, olhando o teto e percebendo que a sensação de estar livre era... estranhamente agradável. O Dr. César quase nunca aparecia. Às vezes eu o via de longe, passando com alguma caixa na mão, ou sentado no escritório, digitando algo. Mas ele nunca me olhava diretamente. Parecia realmente focado no que dizia: eu era apenas... parte da paisagem. E foi no final do terceiro dia que algo diferente aconteceu. Havia uma porta no fim do corredor do segundo andar que eu nunca tinha aberto. Diferente das outras, ela estava trancada nos dias anteriores. Mas, dessa vez, ao girar a maçaneta, ela cedeu, rangendo lentamente. Meus pés descalços tocaram o chão frio de um espaço completamente diferente dos outros cômodos. O teto era altíssimo, de pé direito duplo. As paredes eram todas forradas de prateleiras com peças de metal, ferramentas, engrenagens, bobinas, cabos, tubos de ensaio. Parecia uma mistura de oficina com laboratório e museu. Mas o que mais me chamou atenção foi o que estava no centro da sala. Uma estrutura enorme, coberta por um pano branco. Parecia uma bolha metálica, meio ovalada, sustentada por suportes que saíam do chão. Tinha fios grossos, alavancas, luzes apagadas. O pano balançava levemente, como se sussurrasse: "vem, descobre o que eu sou..." O coração disparou. Parte de mim dizia pra dar meia-volta. Mas outra... outra estava sendo puxada por uma curiosidade que eu não conseguia controlar. Aproximação lenta. Cada passo fazia o chão ecoar sob meus pés. Segurei o pano na ponta, puxei devagar... O tecido deslizou, caindo no chão. E ali estava ela. Uma... máquina. Imensa. Brilhante. Cheia de detalhes. Botões, painéis, manivelas. Na frente, uma porta redonda, como aquelas de submarino, com uma pequena escotilha de vidro no meio. Em volta, luzes apagadas e um painel de controle com símbolos e números que eu não fazia ideia do que significavam. Arregalei os olhos, maravilhada. Me aproximei, passando a mão devagar na superfície fria do metal. — Meu Deus... o que é isso? — murmurei, quase sem voz. Na lateral, havia algo escrito, meio apagado: “Projeto Cronos” Meus dedos deslizaram até os botões. Alguns estavam com etiquetas velhas, outros com luzinhas que piscavam em laranja bem fraco, como se a máquina estivesse... adormecida. Senti um frio na barriga. Parte de mim sabia que aquilo não era só uma peça de decoração. Era algo muito... muito maior. Me aproximei da porta, segurando a alavanca. O vidro da escotilha estava um pouco embaçado, mas parecia haver espaço lá dentro. Como uma cabine. Dei um passo pra trás, olhando cada detalhe. A coisa toda parecia saída de um filme de ficção científica. E, naquele momento, uma sensação tomou conta de mim: “Essa máquina... guarda um segredo. E eu vou descobrir.”Os anos passaram como o vento que varre os campos de café. A fazenda, que começou como um pedaço de terra simples, virou um império verde, com grãos de café e algodão que vão até o estrangeiro. Minhas ideias de 2025 — irrigação por gotejamento, adubo orgânico, silos vedados — transformaram tudo, mas foram Isidóro, Téo e Bento que botaram a mão na enxada e o coração na roça. Isidóro, meu homem sério, virou um líder respeitado, negociando com compradores de São Paulo e até de fora do Brasil. Ele carrega uma calma que ancora a gente, mas agora tem rugas de sabedoria que o deixam ainda mais bonito. — Laysla, tu nos fez ricos, mas o maior tesouro é tu — disse ele uma noite, segurando minha mão com aquele calor que me acalma. — E tu é minha bússola, Doro. Sempre foi — respondi, com um sorriso que vem do fundo da alma. Téo, meu palhaço, ainda faz piada com tudo, mas cresceu tanto. Ele organiza os peões com um carisma que ninguém resiste, e às vezes me puxa pra dançar na varanda, como
Era uma tarde quente, com o sol se pondo devagar, pintando o céu de laranja e roxo. O Valério tinha ido pro litoral na semana passada, levado por uma carroça até a estação de trem do povoado. Ele tava animado, com o cabelo dourado brilhando e os olhos cheios de curiosidade, falando de como queria ver o mar e ajudar a tia Juliana com os netos. A Laysla, com aquele jeito de mãe que mistura orgulho e saudade, abraçou ele forte antes de ele partir. — Valério, tu cuida da tia Juliana, tá? E não esquece de nós — disse ela, com um sorriso que escondia as lágrimas. — Mainha, eu volto logo. Amo vocês — respondeu ele, com a voz firme, mas cheia de carinho. — Vai com Deus, meu filho — falei, apertando a mão dele, sentindo o peso de ver nosso menino crescer. — Traz um conchinha do mar, geniozinho! — brincou o Téo, bagunçando o cabelo dele. — Ele vai trazer é o mar inteiro — completou o Isidóro, com um meio sorriso. Quando a carroça sumiu na estrada, a casa pareceu grande demais. O Valério,
Esses dias, enquanto estudo matemática e ciência com ele, usando o que sei de 2025, vejo ele inventando pequenas ferramentas, e uma certeza cresce em mim: com essa cabecinha, ele logo vai construir algo grande, talvez até uma maneira de viajar no tempo, e vai partir pra outra época. Vou contar tudo, com cada detalhe, porque ser uma mãe do futuro é viver entre o amor de agora e a saudade do que está por vir. Os anos passaram rápido, e em 1917 nossa fazenda é um exemplo de prosperidade. O café e o algodão, plantados com as técnicas que trouxe do futuro — irrigação por gotejamento com canais de bambu, adubo orgânico, silos vedados — renderam tanto que somos conhecidos até na capital. Isidóro virou um líder, negociando com compradores de outros estados com uma confiança que me faz sorrir. Téo, meu palhaço, organiza os peões com piadas e pulso firme, mas tá mais maduro, com um carinho que aquece o coração. Bento, meu pilar, construiu uma biblioteca na fazenda e entalha madeira com uma d
Agora, em 1917, com cinco anos passados desde a grande colheita que botou nossa fazenda no mapa, tô vendo o mundo com outros olhos. O Valério, nosso menino, tá com 17 anos, quase um homem feito, e começou a se interessar por meninas, com aquele jeito meio sem jeito que me faz lembrar de mim mesmo na idade dele. Tive uma prosa com ele, cheia de risadas, mas com conselhos sérios sobre amor e respeito, porque esse menino é nosso orgulho, e a gente quer que ele cresça direito. Vou contar tudo direitinho, com cada pedaço desse causo, porque um momento assim, com namoricos e conversa de pai, é pra guardar no coração. Esses últimos cinco anos foram como uma enxada cavando fundo na terra da nossa vida. A fazenda tá mais próspera que nunca, com os pés de café dando frutos vermelhos que parecem joias e o algodão branquinho rendendo sacos e mais sacos. A Laysla, nossa mulhé, trouxe do futuro um jeito de cuidar da terra que fez a gente virar referência até na capital. Ela ensinou a usar irrig
Hoje, meu peito tá inchado de orgulho, porque a nossa primeira grande colheita de café foi um sucesso danado, e a fazenda tá sendo falada como uma das mais prósperas da região. A Laysla, nossa mulhé, trouxe do futuro um saber que transformou nossa terra, e eu, junto com o Isidóro e o Téo, trabalhei duro pra ver esse dia chegar. Pra comemorar, preparei um banquete com a Laysla, e mesmo a tia Juliana não podendo vir, porque ficou com os netos no litoral, o primo João e a Clara, esposa dele, vieram pra partilhar a alegria. Vou contar tudo direitinho, com cada pedaço desse causo, porque um dia assim, com cheiro de café e futuro, merece ser guardado na alma. A manhã começou cedo, com o sol ainda tímido, espiando por trás das montanhas. O campo de café tava lindo, com os grãos vermelhos brilhando que nem rubi. Essa foi a primeira colheita grande desde que a Laysla nos convenceu, anos atrás, a plantar café e algodão. Ela trouxe ideias de 2025, como canais de irrigação com bambu, adubo or
Hoje, na formatura do Valério no ensino básico, meu peito tá tão inchado de orgulho que parece que vai estourar. Ele tá com 12 anos, mas já fala e age como se fosse homem feito, com uma inteligência que deixa até os doutores da cidade de queixo caído. A Laysla, nossa mulhé, tá com os olhos brilhando, e o Téo e o Bento, meus irmãos, tão tão orgulhosos quanto eu. Esse dia é especial, e vou contar tudo direitinho, com cada pedaço desse causo, porque ver meu filho subir no palco é como ver um pedaço do futuro que a Laysla trouxe pra nós. Era uma manhã de sol forte, em 1912, com o céu azulzão e um ventinho que balançava os pés de café da fazenda. A formatura do Valério seria no povoado, na escola que a gente ajudou a melhorar com o dinheiro do café e do algodão. Esses últimos anos foram de muito suor, mas também de muita alegria. A fazenda cresceu, virou referência na região, e a Laysla, com suas ideias do futuro, nos ensinou a plantar melhor, a guardar os grãos direito e a fazer a terr







