FAZER LOGINO carro de aplicativo me deixou em frente a um portão de ferro gigantesco. Eu olhava pro visor do celular, conferindo se realmente estava no lugar certo. O motorista já tinha dado aquela olhada de canto, meio julgando, meio curioso, e nem disfarçou quando eu desci.
O portão se abriu sozinho, devagar, rangendo. Do outro lado, uma rua particular toda de pedras, ladeada por árvores que se encontravam lá em cima, formando quase um túnel verde. E lá no final... uma mansão. Imensa. Luxuosa. Intimidadora. Meus pés pareciam pesar uma tonelada enquanto eu caminhava até a porta. O coração socava o peito tão forte que eu jurava que alguém poderia ouvir. Quando levantei a mão pra tocar a campainha, a porta se abriu sozinha. Arregalei os olhos. Tá, isso já tava começando a parecer filme. — Entre. — A voz veio de algum lugar lá dentro. Grave, arrastada, um pouco rouca, mas muito firme. Dei um passo pra dentro. E, pela primeira vez, vi ele. Alto, magro, cabelo grisalho bem penteado, barba branca rala, uns sessenta e poucos anos, talvez mais. Usava uma camisa social impecavelmente passada, com suspensórios pretos e calça cinza de tecido fino. E uns olhos… uns olhos estranhos. Não de assustador. Mas de quem observa tudo, de quem lê até o que você não quer dizer. Ele não sorriu, mas também não parecia bravo. Só… neutro. Analisando. — Laysla, certo? — perguntou, cruzando os braços atrás das costas. — É... — respondi, apertando as alças da minha bolsa, que parecia pesar mais que eu naquele momento. Ele andou lentamente até uma mesinha, pegou uma xícara de café, deu um gole, e então me olhou de novo. — Você entende o tipo de... serviço... que eu estou contratando, certo? — perguntou, arqueando uma sobrancelha. Senti meu rosto queimar. — Mais ou menos... — confessei, apertando os lábios. — Minha amiga... disse que... bom... que você tem algumas... preferências. Ele sorriu de canto, pela primeira vez. — Gosto de gente sincera. — Caminhou até um sofá e se sentou, cruzando uma perna sobre a outra. — Pois bem, serei direto. Não estou interessado em sexo. — Disse como quem fala sobre previsão do tempo. — Nem toques, nem carícias, nem conversas picantes. O que eu quero é simples. — Me olhou dos pés à cabeça. — Quero você... nua. Andando pela casa. Fazendo suas coisas, fingindo que eu não estou aqui. Natural. Como se isso fosse... absolutamente normal. Travei. Pisquei umas três vezes, tentando entender se tinha ouvido certo. — Desculpa... você... — minha voz falhou. — Só quer que eu... fique nua? Aqui? Pela casa? — Exato. — Ele sorriu, cruzando os dedos na frente do rosto. — Nu é liberdade. É inspiração. Sou inventor, trabalho com criatividade. E... digamos que o corpo humano é a forma mais perfeita de arte funcional que existe. Minha cabeça dava voltas. O que... o que era isso, meu Deus? Ele percebeu minha confusão e completou, com toda calma do mundo: — Você não precisa fazer nada além de existir. Ande, coma, assista TV, leia, explore a casa. Só... nua. E eu, bem, estarei por aqui... no meu canto... te observando de vez em quando. — Deu um gole no café. — Te ofereço uma semana. Sete dias. Ao final, você receberá... — puxou uma pasta, abriu, e colocou na mesa uma folha com um valor rabiscado a caneta. Me aproximei, olhei... e quase perdi o ar. Era surreal. Era dinheiro que eu não veria em cinco anos de trabalho normal. Dinheiro pra pagar a faculdade inteira. Quitar o aluguel por muito mais do que dois anos. E ainda viver com dignidade, talvez até realizar sonhos que eu já tinha enterrado. — E então? — Ele perguntou, apoiando o queixo na mão. Olhei ao redor. A sala parecia uma galeria de arte moderna. Quadros estranhos, esculturas que eu não entendia, peças mecânicas espalhadas, mesas com desenhos, livros empilhados, máquinas meio desmontadas no canto. O medo dava voltas na minha cabeça. Mas a voz do desespero... ah, essa falava mais alto. — Não... não tem... nada além disso? — gaguejei. — Nada de... coisas estranhas, nem... nem toque, nem... — Nada. — respondeu, firme. — A não ser que você queira, o que, acredito, não será o caso. Não tenho interesse nisso. Só quero você... como veio ao mundo. Meu coração batia tão alto que parecia querer romper meu peito. Ele ficou em silêncio, me olhando. Me deixando decidir. Sem pressão aparente. Mas, ao mesmo tempo, aquele olhar me atravessava como se ele já soubesse qual seria minha resposta. E, na verdade... eu também sabia. Engoli seco. Soltei o ar bem devagar. — Tá... — falei, quase num sussurro. — Eu... aceito. Ele abriu um sorriso satisfeito, quase infantil. Levantou, esticou a mão pra mim. — Seja bem-vinda... ao seu novo trabalho.Os anos passaram como o vento que varre os campos de café. A fazenda, que começou como um pedaço de terra simples, virou um império verde, com grãos de café e algodão que vão até o estrangeiro. Minhas ideias de 2025 — irrigação por gotejamento, adubo orgânico, silos vedados — transformaram tudo, mas foram Isidóro, Téo e Bento que botaram a mão na enxada e o coração na roça. Isidóro, meu homem sério, virou um líder respeitado, negociando com compradores de São Paulo e até de fora do Brasil. Ele carrega uma calma que ancora a gente, mas agora tem rugas de sabedoria que o deixam ainda mais bonito. — Laysla, tu nos fez ricos, mas o maior tesouro é tu — disse ele uma noite, segurando minha mão com aquele calor que me acalma. — E tu é minha bússola, Doro. Sempre foi — respondi, com um sorriso que vem do fundo da alma. Téo, meu palhaço, ainda faz piada com tudo, mas cresceu tanto. Ele organiza os peões com um carisma que ninguém resiste, e às vezes me puxa pra dançar na varanda, como
Era uma tarde quente, com o sol se pondo devagar, pintando o céu de laranja e roxo. O Valério tinha ido pro litoral na semana passada, levado por uma carroça até a estação de trem do povoado. Ele tava animado, com o cabelo dourado brilhando e os olhos cheios de curiosidade, falando de como queria ver o mar e ajudar a tia Juliana com os netos. A Laysla, com aquele jeito de mãe que mistura orgulho e saudade, abraçou ele forte antes de ele partir. — Valério, tu cuida da tia Juliana, tá? E não esquece de nós — disse ela, com um sorriso que escondia as lágrimas. — Mainha, eu volto logo. Amo vocês — respondeu ele, com a voz firme, mas cheia de carinho. — Vai com Deus, meu filho — falei, apertando a mão dele, sentindo o peso de ver nosso menino crescer. — Traz um conchinha do mar, geniozinho! — brincou o Téo, bagunçando o cabelo dele. — Ele vai trazer é o mar inteiro — completou o Isidóro, com um meio sorriso. Quando a carroça sumiu na estrada, a casa pareceu grande demais. O Valério,
Esses dias, enquanto estudo matemática e ciência com ele, usando o que sei de 2025, vejo ele inventando pequenas ferramentas, e uma certeza cresce em mim: com essa cabecinha, ele logo vai construir algo grande, talvez até uma maneira de viajar no tempo, e vai partir pra outra época. Vou contar tudo, com cada detalhe, porque ser uma mãe do futuro é viver entre o amor de agora e a saudade do que está por vir. Os anos passaram rápido, e em 1917 nossa fazenda é um exemplo de prosperidade. O café e o algodão, plantados com as técnicas que trouxe do futuro — irrigação por gotejamento com canais de bambu, adubo orgânico, silos vedados — renderam tanto que somos conhecidos até na capital. Isidóro virou um líder, negociando com compradores de outros estados com uma confiança que me faz sorrir. Téo, meu palhaço, organiza os peões com piadas e pulso firme, mas tá mais maduro, com um carinho que aquece o coração. Bento, meu pilar, construiu uma biblioteca na fazenda e entalha madeira com uma d
Agora, em 1917, com cinco anos passados desde a grande colheita que botou nossa fazenda no mapa, tô vendo o mundo com outros olhos. O Valério, nosso menino, tá com 17 anos, quase um homem feito, e começou a se interessar por meninas, com aquele jeito meio sem jeito que me faz lembrar de mim mesmo na idade dele. Tive uma prosa com ele, cheia de risadas, mas com conselhos sérios sobre amor e respeito, porque esse menino é nosso orgulho, e a gente quer que ele cresça direito. Vou contar tudo direitinho, com cada pedaço desse causo, porque um momento assim, com namoricos e conversa de pai, é pra guardar no coração. Esses últimos cinco anos foram como uma enxada cavando fundo na terra da nossa vida. A fazenda tá mais próspera que nunca, com os pés de café dando frutos vermelhos que parecem joias e o algodão branquinho rendendo sacos e mais sacos. A Laysla, nossa mulhé, trouxe do futuro um jeito de cuidar da terra que fez a gente virar referência até na capital. Ela ensinou a usar irrig
Hoje, meu peito tá inchado de orgulho, porque a nossa primeira grande colheita de café foi um sucesso danado, e a fazenda tá sendo falada como uma das mais prósperas da região. A Laysla, nossa mulhé, trouxe do futuro um saber que transformou nossa terra, e eu, junto com o Isidóro e o Téo, trabalhei duro pra ver esse dia chegar. Pra comemorar, preparei um banquete com a Laysla, e mesmo a tia Juliana não podendo vir, porque ficou com os netos no litoral, o primo João e a Clara, esposa dele, vieram pra partilhar a alegria. Vou contar tudo direitinho, com cada pedaço desse causo, porque um dia assim, com cheiro de café e futuro, merece ser guardado na alma. A manhã começou cedo, com o sol ainda tímido, espiando por trás das montanhas. O campo de café tava lindo, com os grãos vermelhos brilhando que nem rubi. Essa foi a primeira colheita grande desde que a Laysla nos convenceu, anos atrás, a plantar café e algodão. Ela trouxe ideias de 2025, como canais de irrigação com bambu, adubo or
Hoje, na formatura do Valério no ensino básico, meu peito tá tão inchado de orgulho que parece que vai estourar. Ele tá com 12 anos, mas já fala e age como se fosse homem feito, com uma inteligência que deixa até os doutores da cidade de queixo caído. A Laysla, nossa mulhé, tá com os olhos brilhando, e o Téo e o Bento, meus irmãos, tão tão orgulhosos quanto eu. Esse dia é especial, e vou contar tudo direitinho, com cada pedaço desse causo, porque ver meu filho subir no palco é como ver um pedaço do futuro que a Laysla trouxe pra nós. Era uma manhã de sol forte, em 1912, com o céu azulzão e um ventinho que balançava os pés de café da fazenda. A formatura do Valério seria no povoado, na escola que a gente ajudou a melhorar com o dinheiro do café e do algodão. Esses últimos anos foram de muito suor, mas também de muita alegria. A fazenda cresceu, virou referência na região, e a Laysla, com suas ideias do futuro, nos ensinou a plantar melhor, a guardar os grãos direito e a fazer a terr







