LOGINFiquei alguns minutos apenas observando aquela máquina colossal, tentando entender o que, diabos, aquilo fazia. Meu coração batia tão forte que eu podia ouvir o som pulsando dentro dos meus próprios ouvidos.
Ela não parecia só uma escultura maluca ou uma invenção qualquer. Não. Ela... ela estava viva. Luzes pequenas piscavam em pontos diferentes, algumas azuladas, outras âmbar. Um leve zumbido vibrava no ar, como se toda a estrutura estivesse respirando... adormecida, esperando alguém acordá-la. Me aproximei mais, com as mãos suando frio. Cada passo ecoava no chão liso e gelado daquele cômodo gigante. O painel principal ficava no lado direito da porta circular. Tinha quatro manivelas metálicas, gastas nas pontas, e logo acima, uma fileira de botões: verdes, vermelhos e um solitário botão preto, maior que os outros, no centro. Ao lado, um visor retangular exibia números que piscavam lentamente, alternando entre 125.00, 1900.00 e 2025.00. — O que…? — sussurrei, apertando os olhos pra ler melhor. Meu cérebro tentava conectar aquilo tudo. 125 anos... 2025... 1900. Alguma coisa ali gritava viagem no tempo. Mas isso só podia ser loucura. Coisa de filme, de ficção. Mesmo assim, minha mão foi sozinha até a manivela da esquerda. Toquei devagar. O metal estava frio, áspero, quase como se tivesse vida própria. Meu peito subia e descia num ritmo descontrolado. — Só pra ver o que acontece… — murmurei, tentando me convencer que não ia fazer besteira. Segurei a primeira manivela e puxei pra baixo. Um estalo seco ecoou. Uma sequência de luzes no topo da cabine acendeu, piscando em amarelo, depois azul. O som de algo se ligando, como motores elétricos antigos, começou. Um zunido grave, que vibrava no chão, subindo pelas minhas pernas, percorrendo meu corpo inteiro. Engoli seco. Olhei pro botão preto. Ele parecia me chamar. — Só mais um… e eu paro. Juro que paro. — falei, quase rindo de nervoso. Apertei o botão verde logo abaixo. O visor tremeu, mudando rapidamente: 2025.00 → 1900.00 → 125.00 → e ficou estático em 1900.00. — Não... isso não... isso não pode ser real. — falei, recuando um passo. Foi quando percebi que a porta da cabine destravou sozinha. Um som de "clac-clac", seguido de um chiado de ar comprimido, preencheu o ambiente. A tampa redonda se abriu lentamente, rangendo como se não fosse usada há décadas. Por um instante, eu quase corri. O instinto gritava: “Sai daqui! Isso não é pra você!”. Mas... a curiosidade foi mais forte. Muito mais. Me aproximei da porta. Olhei lá dentro. Havia uma cadeira no centro, envolta por uma espécie de arco metálico cheio de fios e lâmpadas minúsculas. Na lateral, dois cintos, provavelmente pra prender quem estivesse ali — o que não me deixava nem um pouco tranquila. Pensei em parar. Juro que pensei. Mas meus pés me traíram. Subi na plataforma, segurei nas laterais e entrei. O banco era surpreendentemente confortável, forrado em couro preto, com um cheiro meio antigo, meio químico. Sentei. O painel interno acendeu assim que encostei nas laterais. Mais botões, mais luzes. No visor interno, piscava “Destino: 1900”. — Não... não... não pode ser... isso é um tipo de simulação, né? Um jogo... uma pegadinha, sei lá... — falei, apertando as mãos no colo, totalmente nua, sentindo o corpo inteiro arrepiar. Quase sem perceber, minha mão deslizou até uma alavanca ao lado do visor. — Se eu puxar... será que…? — falei, mordendo o lábio, tremendo inteira. Antes que minha razão tomasse conta, puxei. O primeiro barulho foi um estalo forte, como se milhares de engrenagens começassem a girar ao mesmo tempo. Em seguida, uma vibração violenta percorreu o chão da cabine. As luzes piscaram tão forte que meus olhos fecharam automaticamente. Um zunido ensurdecedor preencheu o ar, crescendo, ficando cada vez mais agudo, como se estivesse prestes a explodir dentro da minha cabeça. De repente, o som de um raio — BZZZZZZT!!! — seguido de um estrondo tão absurdo que meus ouvidos doeram, me obrigando a tapá-los com as mãos. O chão tremeu. As paredes vibraram. Meu corpo foi puxado pra trás como se uma força invisível me segurasse contra o banco. Luzes piscavam em vermelho, amarelo, azul, uma sequência caótica, misturada a um barulho metálico, rangidos, e estalos elétricos. — AAAAH, MEU DEUS!! — gritei, apertando os olhos, o corpo inteiro arrepiado, sentindo a pele vibrar, como se cada célula estivesse sendo desconstruída e remontada. De repente, um clarão. Não um clarão qualquer. Era como estar dentro de um raio. Uma luz tão forte que não tinha cor. Só branco. Um branco absoluto, que queimava os olhos fechados e fazia o peito apertar. O ar sumiu. Por alguns segundos, parecia que eu estava flutuando no nada. Nenhum som, nenhum cheiro, nenhum peso. Só o vazio. E então... BOOOOOOOM! Um estrondo final, como uma bomba explodindo bem perto, fez meu corpo ser jogado pra frente. A cabine inteira tremeu tão forte que achei que ia desmontar. Senti um choque elétrico percorrer meu corpo inteiro, dos pés à cabeça. E, de repente... silêncio. Tudo apagou. Todas as luzes. Todos os sons. Tudo.Os anos passaram como o vento que varre os campos de café. A fazenda, que começou como um pedaço de terra simples, virou um império verde, com grãos de café e algodão que vão até o estrangeiro. Minhas ideias de 2025 — irrigação por gotejamento, adubo orgânico, silos vedados — transformaram tudo, mas foram Isidóro, Téo e Bento que botaram a mão na enxada e o coração na roça. Isidóro, meu homem sério, virou um líder respeitado, negociando com compradores de São Paulo e até de fora do Brasil. Ele carrega uma calma que ancora a gente, mas agora tem rugas de sabedoria que o deixam ainda mais bonito. — Laysla, tu nos fez ricos, mas o maior tesouro é tu — disse ele uma noite, segurando minha mão com aquele calor que me acalma. — E tu é minha bússola, Doro. Sempre foi — respondi, com um sorriso que vem do fundo da alma. Téo, meu palhaço, ainda faz piada com tudo, mas cresceu tanto. Ele organiza os peões com um carisma que ninguém resiste, e às vezes me puxa pra dançar na varanda, como
Era uma tarde quente, com o sol se pondo devagar, pintando o céu de laranja e roxo. O Valério tinha ido pro litoral na semana passada, levado por uma carroça até a estação de trem do povoado. Ele tava animado, com o cabelo dourado brilhando e os olhos cheios de curiosidade, falando de como queria ver o mar e ajudar a tia Juliana com os netos. A Laysla, com aquele jeito de mãe que mistura orgulho e saudade, abraçou ele forte antes de ele partir. — Valério, tu cuida da tia Juliana, tá? E não esquece de nós — disse ela, com um sorriso que escondia as lágrimas. — Mainha, eu volto logo. Amo vocês — respondeu ele, com a voz firme, mas cheia de carinho. — Vai com Deus, meu filho — falei, apertando a mão dele, sentindo o peso de ver nosso menino crescer. — Traz um conchinha do mar, geniozinho! — brincou o Téo, bagunçando o cabelo dele. — Ele vai trazer é o mar inteiro — completou o Isidóro, com um meio sorriso. Quando a carroça sumiu na estrada, a casa pareceu grande demais. O Valério,
Esses dias, enquanto estudo matemática e ciência com ele, usando o que sei de 2025, vejo ele inventando pequenas ferramentas, e uma certeza cresce em mim: com essa cabecinha, ele logo vai construir algo grande, talvez até uma maneira de viajar no tempo, e vai partir pra outra época. Vou contar tudo, com cada detalhe, porque ser uma mãe do futuro é viver entre o amor de agora e a saudade do que está por vir. Os anos passaram rápido, e em 1917 nossa fazenda é um exemplo de prosperidade. O café e o algodão, plantados com as técnicas que trouxe do futuro — irrigação por gotejamento com canais de bambu, adubo orgânico, silos vedados — renderam tanto que somos conhecidos até na capital. Isidóro virou um líder, negociando com compradores de outros estados com uma confiança que me faz sorrir. Téo, meu palhaço, organiza os peões com piadas e pulso firme, mas tá mais maduro, com um carinho que aquece o coração. Bento, meu pilar, construiu uma biblioteca na fazenda e entalha madeira com uma d
Agora, em 1917, com cinco anos passados desde a grande colheita que botou nossa fazenda no mapa, tô vendo o mundo com outros olhos. O Valério, nosso menino, tá com 17 anos, quase um homem feito, e começou a se interessar por meninas, com aquele jeito meio sem jeito que me faz lembrar de mim mesmo na idade dele. Tive uma prosa com ele, cheia de risadas, mas com conselhos sérios sobre amor e respeito, porque esse menino é nosso orgulho, e a gente quer que ele cresça direito. Vou contar tudo direitinho, com cada pedaço desse causo, porque um momento assim, com namoricos e conversa de pai, é pra guardar no coração. Esses últimos cinco anos foram como uma enxada cavando fundo na terra da nossa vida. A fazenda tá mais próspera que nunca, com os pés de café dando frutos vermelhos que parecem joias e o algodão branquinho rendendo sacos e mais sacos. A Laysla, nossa mulhé, trouxe do futuro um jeito de cuidar da terra que fez a gente virar referência até na capital. Ela ensinou a usar irrig
Hoje, meu peito tá inchado de orgulho, porque a nossa primeira grande colheita de café foi um sucesso danado, e a fazenda tá sendo falada como uma das mais prósperas da região. A Laysla, nossa mulhé, trouxe do futuro um saber que transformou nossa terra, e eu, junto com o Isidóro e o Téo, trabalhei duro pra ver esse dia chegar. Pra comemorar, preparei um banquete com a Laysla, e mesmo a tia Juliana não podendo vir, porque ficou com os netos no litoral, o primo João e a Clara, esposa dele, vieram pra partilhar a alegria. Vou contar tudo direitinho, com cada pedaço desse causo, porque um dia assim, com cheiro de café e futuro, merece ser guardado na alma. A manhã começou cedo, com o sol ainda tímido, espiando por trás das montanhas. O campo de café tava lindo, com os grãos vermelhos brilhando que nem rubi. Essa foi a primeira colheita grande desde que a Laysla nos convenceu, anos atrás, a plantar café e algodão. Ela trouxe ideias de 2025, como canais de irrigação com bambu, adubo or
Hoje, na formatura do Valério no ensino básico, meu peito tá tão inchado de orgulho que parece que vai estourar. Ele tá com 12 anos, mas já fala e age como se fosse homem feito, com uma inteligência que deixa até os doutores da cidade de queixo caído. A Laysla, nossa mulhé, tá com os olhos brilhando, e o Téo e o Bento, meus irmãos, tão tão orgulhosos quanto eu. Esse dia é especial, e vou contar tudo direitinho, com cada pedaço desse causo, porque ver meu filho subir no palco é como ver um pedaço do futuro que a Laysla trouxe pra nós. Era uma manhã de sol forte, em 1912, com o céu azulzão e um ventinho que balançava os pés de café da fazenda. A formatura do Valério seria no povoado, na escola que a gente ajudou a melhorar com o dinheiro do café e do algodão. Esses últimos anos foram de muito suor, mas também de muita alegria. A fazenda cresceu, virou referência na região, e a Laysla, com suas ideias do futuro, nos ensinou a plantar melhor, a guardar os grãos direito e a fazer a terr







