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CAPÍTULO 2

last update publish date: 2026-04-18 15:29:48

CAPÍTULO 2 — BEN

Dormir deveria ser um processo biológico simples. Fechar os olhos, desligar os disjuntores da mente, descansar.

Para mim, é um campo de batalha.

Naquela noite, o sono veio em estilhaços. Imagens borradas de luzes de ambulância e o eco de uma risada que não existe mais me perseguiam toda vez que eu baixava a guarda. Quando finalmente desisti, o quarto ainda estava mergulhado em sombras, mas minha mente já operava em voltagem máxima.

Fiquei olhando para o teto, escutando o som do mar filtrado pela janela mal vedada. Aquele ritmo constante, o vaivém das ondas, era a única coisa que preenchia o vazio ensurdecedor dentro de mim.

Hoje era o dia. O primeiro plantão.

E, pela primeira vez em quatro anos, a sensação não era de que eu estava fugindo. Era de que eu estava sendo empurrado para o olho do furacão.

Levantei, o corpo pesado como se carregasse chumbo nas veias. No banheiro, o espelho manchado me devolveu o reflexo de um estranho. Cansado. Olheiras profundas. Uma versão de mim que eu já conhecia bem demais para suportar. Sob o chuveiro, deixei a água escaldar minhas costas até a pele arder, tentando forçar meus pensamentos a se organizarem.

Hospital novo. Rotina nova. Ninguém sabe quem você é. Esse era o mantra.

Me vesti com o rigor mecânico de quem coloca uma armadura. Chaves, celular, estetoscópio. Tranquei a porta e, por um segundo, o ar fresco da manhã me tentou a voltar à praia. Mas meus olhos, traidores como sempre, foram para a unidade ao lado.

Lá estavam os girassóis. E lá estava ela.

Celeste estava de costas, regando as plantas com uma calma que parecia um insulto ao caos que eu sentia. O sol da manhã batia em seus ombros, e por um momento longo demais, eu fiquei ali, parado, observando a forma como ela se movia. Como se o tempo ao redor dela tivesse uma viscosidade diferente. Mais lenta. Mais doce.

Tratei de ligar o motor e sair dali antes que ela se virasse. Eu não precisava de distrações. Eu precisava de silêncio e de adrenalina.

O Melbourne’s Bay View surgiu no horizonte como uma fortaleza de vidro e concreto. Ao estacionar, o interruptor interno virou. O "modo médico" assumiu. Aquele estado de alerta constante, onde cada detalhe — o cheiro de desinfetante, o som metálico das macas, o ritmo dos monitores — se torna a única realidade.

Aqui, eu estava no controle. Aqui, eu sabia exatamente o que fazer.

— Dr. Richardson? — Uma voz firme interrompeu meus pensamentos.

Virei-me para encontrar uma mulher de olhar afiado e postura impecável. Dra. Wallace. A coordenadora da Emergência. Ela me avaliou como se eu fosse um prontuário complicado.

— Ben Richardson — respondi, mantendo o rosto impassível.

— Espero que tenha estômago, Ben. No Bay View, ou você é rápido o suficiente para salvar o paciente, ou é lento demais para carregar a culpa. Não temos meio-termo.

— Eu não vim aqui para o meio-termo — rebati.

Ela arqueou a sobrancelha, um brilho de interesse surgindo nos olhos. Não era um desafio, era um reconhecimento. Eu sabia que ia gostar de trabalhar para ela.

O plantão começou como um tiroteio. Casos entrando, traumas, infartos, cortes profundos. Meu cérebro funcionava em alta performance, reagindo automaticamente aos sinais vitais, analisando exames, dando ordens. Era o meu esconderijo perfeito. No meio do sangue e do pânico alheio, eu não tinha tempo para lembrar que meu próprio mundo estava em ruínas.

Horas depois, durante uma brecha milagrosa, me apoiei no balcão da enfermagem, pegando um café que já devia ter passado do prazo de validade há muito tempo.

— Café frio é o café dos campeões. Ou dos desesperados.

Congelei. O copo parou no meio do caminho até minha boca.

Eu conhecia aquela voz. Era a mesma que tinha me dito "Ótima" enquanto se dobrava de dor na areia. Virei-me devagar, sentindo o ar fugir dos pulmões de um jeito que a Dra. Wallace certamente desaprovaria.

Celeste.

Ela estava usando o uniforme azul da enfermagem. O cabelo estava preso em um coque firme, revelando o contorno do rosto, mas o olhar era o mesmo. Desafiador e estranhamente quente.

— Você... trabalha aqui — a frase saiu óbvia, quase patética.

— Emergência e Trauma. Há cinco anos — ela deu um meio sorriso, cruzando os braços sobre a barriga, que o uniforme agora evidenciava ainda mais. — E você... é médico de verdade. Eu achei que era só um turista excêntrico tentando ser herói na praia.

Soltei um riso seco, pego de surpresa. — E eu achei que você era uma mística que vivia de luz e yoga perigoso.

— Foi um "ensaio" mal calculado, Dr. Ben. Não se acostume.

Houve um silêncio. Mas não foi o silêncio vazio do meu apartamento. Foi um silêncio carregado, como a eletricidade antes de uma tempestade.

— Você está bem? — perguntei, a voz baixando um tom. Minha mão coçou para checar o pulso dela, um instinto que ia além da medicina.

— Estou — ela respondeu, e dessa vez, a mentira não estava lá. Ela parecia cansada, mas sólida. — Mas admito que ter um médico morando na porta ao lado me dá uma certa tranquilidade.

— Não se acostume — repeti as palavras dela, tentando recuperar minha frieza.

— Tarde demais. Já decidi que, se eu entrar em trabalho de parto às três da manhã, vou esmurrar a sua porta.

Olhei para ela, para a curva da sua barriga, para a vida que ela carregava tão perto de mim — um lembrete constante de tudo o que eu tinha perdido. Eu deveria me afastar. Eu deveria pedir transferência de setor.

— Você é sempre assim, Richardson? — ela perguntou, dando um passo à frente.

— Assim como?

— Como se carregasse o peso de todo o hospital nos ombros. Relaxa. O mundo não vai acabar se você tomar um café decente.

— É o meu trabalho, Celeste. Ser responsável.

— Ser responsável é uma coisa. Ser um mártir é outra bem diferente — ela piscou para mim, um gesto tão leve e tão íntimo que me desarmou completamente. — Vejo você no corredor, vizinho. Tente não matar ninguém de tédio com essa cara séria.

Ela se virou e saiu, o passo leve apesar da gravidez. Eu fiquei ali, parado com o café amargo na mão, sentindo o pulso martelar na base do pescoço.

Eu vim para Melbourne para me enterrar. Mas, olhando para Celeste caminhando entre as macas, percebi que o destino tinha outros planos. E, pela primeira vez, o medo de ser salvo era maior do que o medo de morrer.

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