Se connecterNa dividida Richenburg, a Baixa Richenburg sufoca sob o colapso da saúde pública, enquanto a Alta Richenburg ostenta o luxo cego da Holding Real. Quando o Hospital St. Lúcia fica sem reservas de oxigênio, a Dra. Valeria Solis — médica ativista e filha de um ex-operário — faz uma declaração incisiva na televisão contra a ganância da Coroa, provocando uma crise política sem precedentes. Para conter a imprensa, pacificar o Parlamento e proteger sua linha de sucessão ameaçada pelo próprio tio, o calculista Príncipe Herdeiro Julian von Sterling oferece um acordo irrecusável e implacável: um noivado de oito meses seguido por dois anos de casamento civil em troca de um fundo fiduciário autônomo de vinte milhões de euros para o hospital e a proteção do alojamento dos operários da fábrica. Arrastada para uma gaiola de ouro no Schloss Sterling, Valeria enfrenta a tirania da Grã-Duquesa Eleonora e a crueldade do Conde Maximilian. Em meio a jantares envenenados por ofensas, emboscadas de imprensa e chantagens financeiras, Julian e Valeria travam uma guerra fria onde a rivalidade declarada disfarça uma química incontrolável e avassaladora. Forçados a selar um pacto tático de sobrevivência a portas fechadas, eles pretendem desmantelar os vilões da dinastia — sem saber que Valeria guarda um trunfo secreto sobre o verdadeiro poder da Consorte Real que pode mudar para sempre o destino do principado
Voir plusA chuva fria de outono açoitava sem trégua as janelas altas, embaçadas e trincadas do Hospital St. Lúcia, na Baixa Richenburg. O som metálico das gotas contra o teto de zinco misturava-se ao ruído contínuo e ensurdecedor da emergência: bipes frenéticos de monitores cardíacos, o choro abafado de mães com filhos no colo e os passos apressados de botas borrachadas sobre o piso de linóleo gasto. Do lado de fora, a multidão indignada se aglomerava sob guarda-chuvas remendados, batendo nas portas de vidro e exigindo atendimento para os parentes que queimavam em febre.
Valeria Solis ajustou o estetoscópio no pescoço, limpando a camada fina de suor frio da testa com o antebraço. Aos vinte e oito anos, vestindo um jaleco branco cujas mangas traziam o desgaste de plantões duplos de trinta e seis horas, ela era a médica-chefe do setor de trauma e a única barreira física e moral entre a população esquecida do vale e o colapso absoluto da saúde pública de Richenburg. Ela acabara de passar os últimos quarenta minutos debruçada sobre o leito quatro da sala vermelha, tentando reanimar o Senhor Alberto, um antigo metalúrgico de sessenta e oito anos que dera entrada com edema agudo de pulmão. Suas mãos ainda estavam levemente trêmulas dentro das luvas de procedimento, e os músculos das suas costas queimavam pelo esforço das compressões torácicas. — Pressão arterial estabilizada em dez por seis, Dra. Solis — anunciou o jovem residente de plantão, soltando um arfar de alívio ao desligar o desfibrilador manual. — Conseguimos retornar o ritmo sinusal. — Mantenham a infusão de furosemida em bomba e monitore a saturação a cada dez minutos — ordenou Valeria, a voz firme e límpida cortando o caos da sala. — Se a saturação cair abaixo de noventa, conectem o cilindro de oxigênio de reserva imediatamente. — Doutora... — o residente baixou o olhar para o indicador do cilindro ao lado da maca. — Este é o nosso último cilindro funcional na sala de trauma. Não temos reserva de contingência. Valeria travou no lugar. Antes que pudesse responder, as portas duplas de impacto da sala vermelha foram abertas com violência. — Doutora Solis! — gritou a enfermeira Marta, correndo pelo corredor com uma prancheta de metal presa contra o peito e os olhos arregalados de pura aflição. — A administração central da Holding Real emitiu um comunicado formal há dez minutos! O comboio semanal de insumos e o caminhão de recarga de oxigênio líquido foram cancelados por ordem do conselho diretor de Viena! Um silêncio pesado e sufocante caiu sobre a equipe médica. Valeria tirou as luvas de nitrilo com um puxão ríspido, jogando-as no lixo infectante e caminhando a passos rápidos até à bancada central da enfermagem. — Como cancelados? — questionou Valeria, a voz descendo para um tom perigosamente calmo, os olhos castanhos faiscando de uma indignação contida. — Nós enviamos o relatório de consumo crítico na terça-feira! O setor de pediatria e a UTI neonatal dependem do fluxo contínuo da central! Quanto resta nos tanques principais do subsolo? — Apenas vinte e cinco por cento da capacidade — respondeu Marta, a voz trêmula ao entregar a folha impresso com o carimbo da Holding. — O técnico disse que, se não houver reabastecimento até a meia-noite, a pressão da rede vai cair. O setor de pediatria tem menos de três horas de oxigênio garantido. Mães estão com recém-nascidos no colo nos corredores porque não temos leitos oxigenados suficientes. Valeria apoiou as mãos sobre o balcão de fórmica, sentindo o peito arfar de raiva. A lembrança do seu próprio pai veio à sua mente como uma pontada no coração. Seu pai, um ex-operário da fábrica de componentes elétricos da Baixa Richenburg, repousava em casa naquela mesma noite, debilitado pela pneumoconiose contraída após três décadas de trabalho pesado e sem assistência médica adequada da Coroa. Tudo o que Valeria fazia naquele hospital era para honrar os sacrifícios dele e a memória da sua mãe, que falecera anos atrás naquelas mesmas macas por falta de leito de UTI. — Onde está o superintendente nomeado pelo palácio? — perguntou Valeria, olhando ao redor. — Onde está o representante da administração que deveria assinar a liberação da verba emergencial? — Ele nem sequer apareceu no hospital hoje — revelou Marta, aproximando-se e baixando o tom de voz. — Mas as notícias que chegam do canal oficial de transmissão da Alta Richenburg dizem que o helicóptero privado da Casa Real acaba de pousar no Schloss Sterling. O Príncipe Herdeiro voltou de Viena. Disseram que ele veio pessoalmente para supervisionar a reestruturação e o corte de custos dos ativos da dinastia. — Reestruturação... — rosnou Valeria entredentes, pegando o casaco pesado de lã escura e vestindo-o por cima do jaleco manchado. — Eles usam palavras elegantes para maquiar a sentença de morte do nosso povo. — O que você vai fazer, Valeria? — perguntou Marta, preocupada com a determinação cega no olhar da médica. — A diretoria proibiu qualquer funcionário de dar declarações para a imprensa local. Se você falar com os jornalistas lá fora, eles vão cassar a sua licença! — Que cassem — respondeu Valeria sem hesitar, ajustando o estetoscópio sob a gola do casaco. — Mas eles não vão sufocar as crianças deste vale no silêncio. Sem esperar por qualquer conselho ou autorização, Valeria caminhou a passos largos e decisivos pelo corredor principal, empurrando as portas de vidro da entrada de emergência e enfrentando o vento congelante e a chuva torrencial que caía sobre o pátio do hospital. Do lado de fora, a cena era caótica. Dezenas de moradores da Baixa Richenburg protestavam com faixas improvisadas sob o olhar atento de uma patrulha da polícia local. Três equipes de reportagem de emissoras regionais tentavam cobrir o cerco ao prédio sob refletores fortes. Assim que a figura altiva da médica-chefe surgiu sob a marquise da entrada, os jornalistas correram na sua direção, apontando microfones e câmeras para o seu rosto molhado pela chuva. — Dra. Solis! É verdade que o Hospital St. Lúcia vai declarar falência e fechar as portas esta noite? — gritou o repórter da TV Richenburg, empurrando o microfone entre as grades de proteção. — A Holding Real afirma que o hospital está em déficit operacional insustentável! Valeria deu dois passos à frente, ignorando a chuva que encharcava os seus cabelos escuros e o jaleco. Ela encarou a lente da câmera principal de forma magnética, erguendo o queixo com uma autoridade pura e inabalável que fez os repórteres emudecerem. — O Hospital St. Lúcia não está em déficit por incapacidade médica, mas por roubo institucionalizado — declarou Valeria, a voz firme, cristalina e aveludada ressoando através dos alto-falantes e da transmissão ao vivo para todo o principado. — Neste exato momento, o setor de pediatria deste hospital tem menos de três horas de oxigênio nos tanques porque a Holding Real cortou trinta por cento do nosso suprimento para inflar o balanço financeiro de acionistas em Viena! Os flashes das câmeras dispararam freneticamente. Os manifestantes ao fundo começaram a gritar em apoio. — Dra. Solis, o Príncipe Herdeiro declarou que a Coroa está disposta a negociar a transição da gestão da saúde para o setor privado! — interveio outro jornalista. Valeria olhou diretamente para a lente, como se pudesse rasgar a tela da televisão do gabinete real na Alta Richenburg e encarar o próprio herdeiro do trono. — Se o Príncipe Julian von Sterling quer fechar as portas deste hospital para transformar esta terra em um empreendimento imobiliário para a nobreza, ele terá que vir à Baixa Richenburg e tirar cada paciente das nossas macas com as próprias mãos — afirmou ela, sem piscar um único segundo. — Se uma única criança morrer esta noite na pediatria por falta de oxigênio, a culpa não será de uma falha técnica. Serás responsabilidade direta da ganância, da arrogância e da covardia da Coroa! A transmissão ao vivo foi cortada de forma abrupta três minutos depois por ordem da assessoria de imprensa do Schloss Sterling. Mas o estrago para a imagem da dinastia já estava feito. A faísca da revolta acabara de ser lançada, e o nome da Dra. Valeria Solis ecoava em cada canto do principado.A Sala de Jantar da Ala Oeste do Schloss Sterling era o santuário intocado do poder dinástico e milenar de Richenburg. Sob os imensos afrescos do teto do século XVIII que retratavam as glórias militares da família Sterling e o brilho frio de candelabros de prata maciça, a mesa de nogueira maciça para vinte pessoas estava disposta seguindo os códigos mais rígidos e implacáveis da alta nobreza da Europa central. Porcelana fina da Saxônia, taças de cristal Baccarat e talheres de prata pesada com o brasão gravado da coroa compunham a encenação de um teatro onde cada palavra era um cálculo político e cada gesto, um teste de sobrevivência.Valeria vestia um suntuoso vestido de corte impecável em tom azul-noturno, com mangas longas e uma gola alta estruturada que lembrava uma armadura elegante. Ela recusara deliberadamente todos os enfeites e ornamentos excessivos sugeridos pela equipe de imagem do palácio, mantendo apenas a sua postura naturalmente erguida, altiva e inabalável. Ao seu lado,
A manhã seguinte ao Baile da Primavera amanheceu cinzenta, com uma neblina espessa que cobria os pinheiros e as torres góticas do Schloss Sterling. No entanto, o frio de lá fora era insignificante se comparado ao rigor gelado dos corredores da Ala Leste.Valeria despertou sobressaltada em sua suíte com o som ríspido e repentino de cortinas pesadas de veludo sendo abertas de golpe, permitindo que a claridade branca e cortante da neve invadisse o quarto.Três damas de companhia com uniformes pretos e irrepreensíveis, encabeçadas pela governanta-mor da corte, a Senhora Hannelore — uma mulher de feições rígidas, lábios finos e cabelos cinzentos presos em um coque severo —, postavam-se ao pé da cama com pranchetas e caixas revestidas de veludo.— Bom dia, Doutora Solis — anunciou Hannelore, com uma voz totalmente desprovida de calor humano, ecoando pelo quarto. — Por ordem expressa de Sua Alteza Real, a Grã-Duquesa Eleonora, o seu cronograma oficial de adequação protocolar e de imagem i
Três dias após a assinatura do contrato, o Schloss Sterling abriu os seus portões colossais de ferro fundido para o Baile Anual da Primavera. Mais de quinhentos convidados da altíssima nobreza europeia, embaixadores, grandes empresários da Holding Real e os jornalistas mais influentes do continente lotavam o Salão dos Espelhos sob o brilho monumental dos lustres de cristal Baccarat. O som de taças de champanhe tinindo e o murmúrio de conversas em francês e alemão preenchiam o ar, mas a verdadeira expectativa da noite concentrava-se em um único ponto: a estreia pública da "Aspirante a Rainha" da Baixa Richenburg.Nos bastidores da Ala Leste, em uma suíte privada ornamentada com afrescos dourados e espelhos venezianos de corpo inteiro, Valeria observava seu reflexo em absoluto silêncio.Ela vestia um suntuoso vestido de seda pesada em tom verde-esmeralda, com mangas longas transparentes, gola alta estilizada e um corte impecável que desenhava a sua silhueta com elegância aristocrática e
A lareira de mármore do Gabinete Real estalava suavemente, projetando sombras longas e alaranjadas sobre as paredes revestidas de carvalho escuro e os retratos a óleo dos antigos monarcas da dinastia Sterling. O aroma de madeira queimada, couro e papel antigo preenchia o ambiente imponente, mas o ar dentro da sala era tão rarefeito que Valeria sentia dificuldade em respirar.Na mesa pesada de jacarandá, o papel amarelado do contrato repousava sob a luz de um candelabro de bronze. Valeria mantinha os olhos fixos nas letras cursivas e douradas do documento, sentindo o peso esmagador da escolha que estava prestes a fazer. Não era apenas a sua liberdade ou a sua carreira médica que estavam em jogo; eram as vidas das crianças na pediatria do St. Lúcia e a dignidade do seu pai e dos velhos operários da fábrica.— Se eu assinar isto... — começou Valeria, a voz firme, embora o peito arfasse de indignação —, quero garantias jurídicas expressas e irrevogáveis de que a gestão do fundo fiduciário












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