FAZER LOGINAnnaAcabei deixando o meu carro no estacionamento privativo do pavilhão. A ideia de dirigir tarde da noite enquanto minha cabeça fervilhava de paranoia não parecia das melhores, então aceitei a carona. Entramos no SUV preto do Lorenzo, e foi impossível não notar os olhares das outras modelos que saíam do evento enquanto o veículo arrancava suavemente. As garotas nos encaravam com uma mistura indisfarçável de inveja e curiosidade, tentando entender como havíamos saído dali acompanhadas por um homem que parecia ter saído direto da capa de uma revista de negócios.Acomodei-me no banco de trás, ajeitando a alça da minha bolsa sobre o colo. De onde eu estava, passei a observar atentamente a dinâmica entre Lorenzo e Samanta. O jeito como ele a olhava pelo espelho retrovisor, o tom de voz suave com que puxava assunto e o sorriso tímido que ela tentava disfarçar a cada elogio discreto... Ficou claro em questão de minutos: eu passaria a noite inteira segurando vela.Ainda assim, não me arrepe
AnnaA semana passou voando, como se os dias tivessem pressa de me empurrar para a frente. O sábado chegou antes que eu pudesse processar direito a trégua silenciosa do Mário. Conforme tínhamos combinado por mensagem, peguei meu carro e dirigi até o endereço da Samanta. Estacionei na calçada, identifiquei-me na portaria do prédio simples e subi os lances de escada até o andar dela.Quando a porta se abriu, notei imediatamente que o apartamento realmente era bem pequeno, compacto ao extremo. No entanto, o detalhe da casa ficou em segundo plano no milésimo de segundo em que olhei para a Samanta. Ela era infinitamente mais bonita pessoalmente do que nas fotos que tinha me enviado para o cadastro no meio da semana. Havia algo de autêntico e magnético na presença dela. Eu segurava uma capa de proteção de roupas nos braços e entreguei a ela. Sorri, segurando o cabide e desdobrando o tecido escuro para ela.— Aqui está, Cinderela. Seu uniforme — disse, estendendo a peça.Era um vestido preto
AnnaDormir foi a última coisa que consegui fazer durante a noite. Passei horas me virando na cama, observando o teto no escuro e sobressaltada a cada estalo do apartamento. A sombra de Mário parecia pairar sobre mim, alimentando um medo constante de que as ameaças dele se concretizassem antes do amanhecer.Quando os primeiros raios de sol finalmente cruzaram as frestas da cortina, tomei coragem e liguei meu celular. Segurei a respiração enquanto o sistema carregava. Para meu imenso alívio, não havia nenhuma mensagem nova, nenhuma notificação, nenhuma chamada perdida.Encarei o ícone do contato dele. A vontade inicial era bloqueá-lo imediatamente, cortar qualquer canal de comunicação. Porém, a prudência falou mais alto. Homens como Mário, impulsionados pelo ego ferido e pelo poder, enlouquecem quando são sumariamente cortados. Bloqueá-lo agora poderia ser encarado como uma afronta, um gatilho para fazê-lo vir atrás de mim pessoalmente. Decidi deixar como estava e rezei em silêncio par
AnnaO som da vibração do celular no criado-mudo pareceu um tiro dentro do silêncio sepulcral do meu quarto. Um frio gélido e paralisante subiu pelas minhas pernas, espalhando-se rapidamente por todo o meu corpo. Fiquei imóvel sob o edredom, o peito subindo e descendo em arfadas curtas e desordenadas enquanto a luz azulada da tela projetava sombras distorcidas contra o teto escuro.Estiquei o braço devagar, hesitando a cada centímetro, como se o aparelho fosse um animal peçonhento prestes a me picar. Quando finalmente segurei o telefone e vi o nome do contato destacado na barra de notificações, minha visão ficou turva por um instante.M ❤️.Um nó sufocante apertou minha garganta com tanta força que senti dificuldade até para engolir o ar. O medo de encarar mais uma ameaça explícita me fez vacilar, mas meu polegar, num gesto involuntário guiado pelo puro pavor, destravou a tela.Abri o aplicativo de mensagens. A primeira notificação era um texto longo, enviado minutos antes. Comecei a
AnnaAssim que afastei o carro daquele estacionamento e ganhei a avenida principal, o último vestígio de controle que me sustentava simplesmente desmoronou. Minhas mãos tremiam tanto sobre o volante que mal conseguia manter o veículo alinhado na faixa. O ar sumiu dos meus pulmões num golpe seco e, em questão de segundos, as lágrimas brotaram como uma cachoeira incontrolável, turvando totalmente a minha visão e transformando as luzes da cidade lá fora em um emaranhado disforme de néon.Parei o carro no acostamento, puxei o ar com força, mas só consegui soltar um soluço alto e rasgado que ecoou dentro do carro.O horror daquela noite caiu sobre mim com o peso de uma montanha. A sensação gélida da boca de Mário na minha, a textura dos seus dedos apertando o meu pulso até machucar, o som seco do tapa estalando no rosto de Lúcia... tudo voltava em ondas avassaladoras de nojo e pavor. A repulsa que prendi no peito durante horas finalmente transbordou, trazendo consigo uma náusea visceral.—
LúciaO ar do corredor daquele hotel parecia rarefeito, insuportável de respirar. Cada passo que dávamos sobre o carpete felpudo era um esforço monumental para manter o corpo ereto. O lado esquerdo do meu rosto queimava como se estivesse em chamas; a pele esticada e latejante era o testemunho doloroso do tapa de Mário. Mas eu não me permiti derramar uma única lágrima. Nem ali, nem no elevador, nem nunca mais por aquele homem. Engoli o choro até que ele virasse um nó seco e duro na minha garganta.Anna caminhava ao meu lado em um silêncio absoluto, a postura rígida, a respiração presa.A verdade é que eu a reconheci no exato segundo em que pus os pés naquela suíte. Não precisei que ninguém me dissesse o nome dela. Quando meus olhos bateram naquele rosto, foi como se o tempo tivesse voltado vinte anos. Anna era uma cópia mais jovem, mais vibrante e inegavelmente mais bonita de Helena. Os mesmos olhos verdes expressivos, o mesmo desenho de sobrancelhas, a mesma altivez no olhar que um di







