LOGINAnnaJá fazia quase três semanas que o Matteo estava na Itália. Três semanas inteiras em que a minha vida parecia ter entrado em uma espécie de órbita paralela, suspensa no tempo. Eu não atendia às ligações dele. A verdade é que era uma verdadeira tortura ouvir a voz dele do outro lado da linha. Cada vez que o nome dele brilhava na tela do meu celular, meu peito se apertava de uma forma tão dolorosa que parecia sufocar todo o ar dos meus pulmões. Ouvir aquela voz, a respiração dele, a forma como ele dizia o meu nome... tudo isso reabria as feridas que eu tentava desesperadamente estancar.No entanto, a minha recusa em atender não o impedia de insistir. Como se estivesse obstinado a se manter presente a qualquer custo, Matteo fazia questão de deixar todos os dias mensagens de voz ou de texto no meu celular. Se eu acordava, lá estava uma notificação dele. Se eu ia dormir, outra mensagem aguardava na caixa de entrada. Aquilo estava se tornando profundamente irritante. Ele simplesmente nã
AnnaO som da porta da frente se fechando ressoou pelo apartamento como o solavancar de uma arca se trancando por dentro. As meninas tinham ido embora uma a uma, para os seus compromissos de domingo. Apenas a Emma permaneceu. Ela conhecia cada uma das minhas expressões, cada um dos meus silêncios, e percebeu no mesmo instante que eu estava completamente despedaçada por dentro. Ela se ofereceu para passar o domingo comigo, recusando-se a me deixar à mercê dos meus próprios pensamentos sombrios.Assim que a porta se trancou completamente, isolando-nos do resto do mundo, Emma virou-se para mim, cruzou os braços e me encarou com um olhar direto, sem rodeios.— Desembucha, Anna. O que foi que o Matteo fez com você?A pergunta veio limpa e crua. Minha garganta se fechou imediatamente. Senti um nó doloroso se formar no meu peito, um aperto tão denso que respirar se tornou uma tarefa difícil. Em vez de responder, dei dois passos à frente e me atirei nos braços da minha prima, escondendo o ros
MatteoA visão daquele buquê de rosas macabro na porta do apartamento de Luca e o pavor estampado no rosto de Lúcia instauraram um caos completo na nossa noite. A polícia foi acionada de forma discreta através dos advogados, as câmeras de segurança do edifício foram solicitadas e a equipe de segurança privada foi redobrada. No meio daquela tempestade de ligações, depoimentos rápidos e o pavor de que o Mário estivesse nos espionando, as horas simplesmente voaram sem que eu percebesse.Quando o ambiente finalmente deu uma trégua e a calmaria forçada retornou ao apartamento, olhei para o relógio na parede. Já passava das duas horas da manhã em Roma. No Brasil, o fuso horário marcava o início da madrugada de domingo.Encarei a tela do meu celular novo com os dedos trêmulos, dividido entre a urgência visceral de ouvir a voz da Anna e a consciência de que ligar para ela àquela hora da noite, depois de dias de um silêncio angustiante, só causaria mais susto e sobressalto. Eu não queria que e
MatteoA espera de quatro horas dentro daquela loja estava me enlouquecendo. Luca, percebendo a minha agitação e o ritmo frenético com que eu pisava no chão, acabou me convencendo a sair dali e ir até um bar calmo localizado a poucos metros do estabelecimento.Sentamo-nos em uma mesa discreta ao fundo. Entre uma cerveja e outra, o silêncio entre nós começou a pesar. Eu encarava a garrafa condensada sobre a madeira, mas a minha mente estava a milhares de quilômetros dali, imaginando o que a Anna estaria pensando naquele exato momento.Olhei para o meu irmão, do outro lado da mesa, e não consegui segurar a pergunta que queimava na minha garganta:— Por que você está fazendo tudo isso, Luca?Luca fez uma pausa, tomou um gole da sua cerveja e colocou o copo de volta na mesa, devolvendo a pergunta com a mesma calma de sempre:— E você? Não faria o mesmo no meu lugar?— Faria — respondi de imediato, sem hesitar. — Mas não desse modo. Não atropelando tudo e cruzando o oceano em um voo de eme
Aquela situação nojenta estava me consumindo vivo por dentro. Estar a milhares de quilômetros, preso em outro continente enquanto a minha vida e a da mulher que eu amava desmoronavam no Brasil, era o pior tipo de tortura que eu já havia enfrentado.O Luca insistia sem parar que eu não deveria envolver a Anna no que estava acontecendo. Segundo o meu irmão, a intenção era "protegê-la" de toda a podridão da nossa família e não sobrecarregar a mente dela com o escândalo que estava prestes a estourar contra o nosso tio. Mas a verdade é que o Luca não sabia de metade do pesadelo.Em um momento de pura exaustão, durante o voo, acabei abrindo o jogo com ele. Falei, sem rodeios, que a Anna já estava inserida no meio daquele furacão há muito mais tempo do que imaginávamos. Contei que o desgraçado do Mário já a conhecia do passado e que havia um histórico sombrio entre eles. Obviamente, por respeito à dignidade e à privacidade da Anna, não entrei nos detalhes dolorosos sobre as armadilhas e as m
AnnaMatteo estava visivelmente chocado. A cada palavra que saía da minha boca, eu podia ver o conflito atravessar seus olhos azuis, uma tempestade silenciosa de emoções que ele lutava para processar. Ele ouvia tudo no mais absoluto silêncio, sem me interromper, sem franzir a testa em julgamento, apenas absorvendo o peso de uma verdade que mudava completamente a perspectiva sobre o meu passado.O silêncio dele após a minha confissão era esmagador. Eu queria desesperadamente saber o que se passava na cabeça dele, qual seria o seu veredito, se aquele era o momento em que ele olharia para mim com desprezo ou decepção e diria que não podia continuar ao lado de uma mulher que se deixou levar por um desejo de vingança.Quando ele finalmente soltou o ar que parecia preso em seus pulmões por minutos, o som veio acompanhado de um suspiro profundo e cansado.— Anna... — começou ele, a voz rouca, carregada de um afeto doloroso. Ele segurou o meu rosto com as duas mãos, olhando-me no fundo dos ol







