LOGINZaira se casou com um homem do morro. Um homem de mãos calejadas, beijos demorados e planos tão simples quanto os dela. Pelo menos, era nisso que acreditava. Até descobrir que Dário é herdeiro de uma fortuna — e que sua chegada ao morro não teve nada de acaso. Por trás do sobrenome que ele escondeu, existe uma família poderosa, uma morte suspeita e um segredo que agora ameaça os dois. Dário garante que o amor foi verdadeiro. Mas Zaira já não sabe quais lembranças do casamento pode guardar sem se sentir enganada. Enquanto tenta descobrir quem é o homem com quem divide a cama, ela se torna alvo de alguém que precisa manter o passado enterrado. E seu marido parece saber exatamente por quê.
View More— Você não vai usar minha noiva para me obrigar a voltar.
Zaira parou na esquina. Dário estava diante do galpão de Afonso, bloqueando o caminho de um desconhecido. O homem usava camisa de linho e mantinha uma das mãos na porta de um carro preto. — Então dê uma solução antes de amanhã — respondeu ele. O noivo de Zaira não levantou a voz. Não precisou. Disse alguma coisa que ela não ouviu, e o homem retirou a mão do carro. Era a primeira vez, em onze meses, que Zaira tinha medo de interromper uma conversa dele. Dário a viu antes que ela decidisse se aproximar. Seu rosto mudou. — Zaira. O desconhecido olhou para ela com atenção. Demais. — A noiva. Ela se aproximou, segurando o pacote de café que acabara de comprar. — E você é? — Otávio Brandão. — Está de saída — disse Dário. Zaira encarou o noivo. — Perguntei o nome dele. Não se ia embora. Otávio pareceu gostar da resposta. Dário, não. — Trabalhei com o irmão dele — explicou o homem, tirando um cartão do bolso. — Se precisar falar comigo... Dário estendeu a mão, mas Zaira pegou o cartão primeiro. Os dedos dos dois se tocaram. Ela retirou os seus. — Eu guardo. Otávio entrou no carro sem insistir. Antes de fechar a porta, olhou para Dário. — A gente ainda precisa terminar aquela conversa. Zaira esperou o veículo desaparecer na curva. — Por que estavam falando de mim? Dário olhou para o cartão. — Ele não tem o direito de procurar você. — E você não tem o direito de responder por mim. Ele ficou quieto. Ao redor, a rua continuava no barulho habitual: uma moto subia a ladeira, crianças disputavam uma bola, alguém anunciava pão fresco numa bicicleta. Só Dário parecia estar em outro lugar. Zaira olhou para a camisa dele, manchada de poeira. Uma hora antes, discutira com Afonso por causa de um caminhão que não queria pegar. Era aquele homem que conhecia. Não o que fizera um desconhecido recuar com poucas palavras. — Você trabalhava com esse sujeito? — Não. Ele conhecia Tomás. O nome do irmão morto fez Zaira hesitar. Lembrava a única noite em que Dário tentara falar sobre ele. Tinham ficado sentados no degrau do galpão depois do expediente. Ela acabara encostando o ombro no dele porque não encontrara nada que ajudasse. Dário nunca terminara a história. — O que ele quer que você resolva antes de amanhã? — Coisas que não pertencem ao nosso casamento. Ela sentiu uma ponta de irritação. — Se está usando a palavra noiva, alguém já colocou essas coisas dentro dele. Dário passou a mão pela nuca. Atrás dele, sobre uma caixa, havia uma flor branca embrulhada em papel. Zaira a reconheceu. Na noite anterior, Mirela perguntara se ainda pretendia usar uma no cabelo. Ela dissera que provavelmente não. Não queria gastar mais nada. Dário acompanhou seu olhar. — Era para você encontrar amanhã. Ela pegou a flor com cuidado. Detestou a facilidade com que a garganta apertou. — Isso não responde. — Não comprei para responder. Ele ergueu a mão, mas parou antes de tocar seu rosto. Zaira esperou. — Desculpa pelo cartão — disse. — Eu não devia ter tentado pegar. Ela guardou-o no bolso. — Então não tenta de novo. Dário assentiu. Subiram juntos até sua casa. Ela tinha vinte e sete anos e conhecia cada degrau daquela rua. Mesmo assim, naquele caminho tão familiar, percebeu que o homem ao seu lado conseguia fazê-la sentir segura e desconfiada ao mesmo tempo. Mirela abriu a porta antes da batida. — Finalmente! O vestido está esperando e eu também. Viu a flor na mão da amiga. — Ah. Então estragou minha surpresa. Zaira olhou para Dário. Ele deu de ombros, sem sorrir direito. Enquanto Mirela ajustava a última parte da cintura, ele ficou encostado no batente do quarto. Zaira tentou olhar para o espelho. Acabou encontrando os olhos dele pelo reflexo. Dário a observava como se estivesse memorizando alguma coisa. — Está torto? — perguntou ela. — Não. — Então para de olhar assim. — Assim como? Mirela ergueu a cabeça. — Como se eu não estivesse aqui. Vou buscar água. Façam o favor de não destruir meu trabalho. Quando ficaram sozinhos, Dário se ajoelhou para fechar a tira da sandália de Zaira. O gesto a desarmou. Queria continuar zangada sem deixar de acariciar os cachos junto à nuca dele. — Se apertar amanhã, tira — disse ele. — Não precisa sofrer por uma fotografia. Zaira segurou seu rosto. — Você está me assustando. Dário ergueu os olhos. — Não quero. — Então não me deixe inventar o que está acontecendo. Ele se levantou. A mão encontrou a cintura dela, sem puxá-la. Zaira se aproximou por vontade própria. O beijo começou devagar. Ela reconheceu a pressão dos dedos nas suas costas, o jeito de ele esperar que abrisse a boca. Era difícil conciliar tanta intimidade com a conversa na rua. Afastou-se antes que o desejo apagasse a pergunta. — Tem alguma coisa que pode me fazer desistir de amanhã? Dário respirou fundo. O telefone vibrou no bolso dele. Ao tirá-lo, deixou a tela à vista. Era Otávio. Você vai mesmo deixar que ela diga sim sem saber por que você está aí? Zaira soltou a cintura dele. — Agora você vai me explicar.Dário chegou cedo no sábado e esperou dentro do carro. Não queria ser o primeiro rosto que Vera encontrasse ao atravessar a porta. Quando faltavam cinco minutos para o horário, entrou. Zaira estava no corredor. Usava uma blusa clara e segurava o celular com as duas mãos. Ergueu os olhos ao ouvir seus passos. — Bom dia. Ele respondeu e olhou para a porta fechada. — Você veio com ela? — Cheguei agora. Dário assentiu. Não perguntou como a esposa dormira. Não usaria o corredor para conseguir uma conversa que ela não oferecera. Celina apareceu e os chamou. Vera permaneceu sentada quando ele entrou. Dário parou antes da cadeira. — Obrigado por aceitar. A mulher olhou para o lugar vazio, indicando que podia sentar. Zaira ficou de lado. Tinha combinado permanecer no início para que Vera não se sentisse sozinha. Não seria intermediária entre os dois. Vera olhou para Zaira. — Não sei se vou conseguir falar tudo. — Não precisa conseguir falar hoje. Dário ouviu a resposta e ma
Vera se levantou quando Zaira entrou. A bolsa escapou de seu colo e bateu no chão. Ela se abaixou depressa demais, recolhendo o objeto como se precisasse pedir desculpas pelo barulho. Zaira esperou antes de cumprimentá-la. — Bom dia. — Bom dia. As duas olharam para as cadeiras. Celina indicou os lugares e explicou que ficaria na sala ao lado enquanto conversavam por alguns minutos. Já ouvira Vera naquela manhã. A visita de Zaira não substituiria o depoimento nem a obrigaria a assumir qualquer responsabilidade pelo que viesse depois. Ela sentou perto da porta. Vera olhou para sua mão esquerda. Zaira percebeu. — Tirei a aliança. A mulher ergueu o rosto, constrangida. — Não ia perguntar. — Eu sei. Não sabia por que contara. Talvez porque estivesse cansada de ver as pessoas descobrindo aquela ausência e fingindo não perceber. Vera alisou a bolsa. — Você voltou para procurar o casaco? — Dois dias depois. — Disseram que não encontraram? Zaira confirmou. O silêncio da mu
Dário pousou a sacola no muro. Por um instante, Zaira achou que ele não tinha entendido. Depois viu a mão dele abrir e fechar sobre a alça. — Você quer conversar ou já decidiu? — Quero me separar de verdade. Não continuar esperando uma resposta que mude o que aconteceu. Ele olhou para o portão. — Não é o que eu quero. — Eu sei. — Não fala como se soubesse tudo que estou pensando. A frase saiu mais alta do que pretendia. Zaira endureceu. Dário percebeu, mas não se desculpou para apagar o que sentia. Respirou, passou a mão pelo cabelo e tentou continuar. — Eu ainda estou tentando entender como a gente chegou aqui. — Eu também. Só que não posso continuar casada enquanto você entende. Um homem passou carregando sacolas. Os dois se afastaram para dar passagem. Zaira sentiu o peso dos olhos dele e odiou estar tendo aquela conversa na calçada. — Não vou discutir isso na rua — disse. Dário pegou a sacola. — Então combina um lugar. Um horário. Eu vou. A resposta a atingiu mais
— Ele sabia que você estava me investigando? Zaira não tentou recuperar a mochila. Segurou-a pela alça, junto à perna. Dário olhou para o telefone antes de guardá-lo. — Sabia. Um carro passou devagar, procurando espaço para estacionar. Ela esperou o motor se afastar. — E você ligou para contar como tinha sido nosso casamento? — Ele me ligou. Tinha recebido uma fotografia. Perguntou se eu finalmente tinha contado tudo. A resposta não trouxe nenhum alívio. — Todo mundo tinha uma opinião sobre quando eu devia descobrir? Dário abriu a boca. Não encontrou uma frase que não confirmasse. Mirela apareceu no portão. Olhou para a mochila no chão e desceu para buscá-la. Não perguntou nada. Zaira soltou a alça, agradecida por poder manter as mãos livres. — Ele sabia da investigação — repetiu Dário. — Eu não falava do que acontecia entre nós. Ela o encarou. — Você estava falando de mim enquanto eu dormia na sua cama. — Você não estava na minha... Dário parou. Zaira soltou uma


















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