MasukAnna— Como assim, tio?! — a palavra ecoava na minha cabeça como um ruído ensurdecedor, abafando qualquer outro som ao meu redor.A recepção da Armorroute parecia ter encolhido. O ar ficou rarefeito, denso e frio. Eu assistia à cena em absoluto estado de choque, como se o meu corpo tivesse sido desligado da realidade. Luca finalmente conseguiu se colocar entre os dois homens, empurrando o corpo de Mário para trás com força, mantendo o braço estendido como uma barreira humana.— Chega, Mário! Sai daqui agora antes que isso termine de forma pior! — vociferou Luca, a voz carregada de uma autoridade firme que eu raramente via nele. — Vamos! Para fora da empresa!Mário ajeitou o colarinho do terno com movimentos lentos e deliberados. Ele limpou o canto da boca com o dorso da mão, mantendo aquele sorriso nojento e vitorioso cravado no rosto. Antes de virar as costas, seus olhos escuros e malévolos se voltaram para mim por uma última fração de segundo, lançando-me um aviso silencioso que fez
AnnaUma semana inteira tinha se passado desde aquela mensagem da Lúcia. Para ser sincera, uma parte de mim — aquela fração empática que eu teimava em não conseguir sufocar — ainda sentia um nó no peito ao pensar no que ela devia estar enfrentando. No entanto, a minha vida com o Matteo finalmente tinha encontrado um eixo de paz. Pela primeira vez em muito tempo, as coisas pareciam nos trilhos, leves e certas. Eu não tinha o menor interesse em dar um único passo para trás e me lançar novamente no olho daquele furacão.Naquela manhã, porém, a minha rotina parecia disposta a me atropelar. Olhei para o relógio na mesa de cabeceira e vi que mal passava das cinco e meia. A minha agenda do dia estava tão absurdamente lotada que tive que sair de casa bem cedo, no mais absoluto silêncio.Deslizei para fora da cama de fininho, tentando não fazer o menor ruído. Matteo continuava dormindo profundamente, o rosto relaxado contra o travesseiro, um braço pesado jogado sobre o lado onde eu estava até
AnnaO silêncio que se instalou no carro logo após a porta se fechar e Emma acenar antes de desaparecer no hall do seu prédio era quase denso. O trajeto até ali tinha sido marcado pela empolgação da minha prima, que passou o caminho inteiro rasgando elogios ao Matteo e fazendo piadas sobre o nosso namoro. No entanto, assim que ficamos a sós, a tensão que eu vinha acumulando na calçada do bar voltou com força total.Matteo manobrou com a habilidade de sempre, olhando pelo retrovisor antes de engatar a marcha e voltar para a avenida. Ele deslizou uma das mãos pelo console central, buscando meus dedos, mas mantive meus braços cruzados sobre o peito, encarando o trânsito lá fora.— Na sua casa ou na minha? — perguntou ele, a voz calma, grave e baixa, carregada daquele tom casual de quem sabia exatamente o poder que exercia sobre mim.— Na minha — respondi, seca, sem esconder a irritação.Matteo deu um sorriso de lado, soltando um suspiro divertido pelo nariz.— Ei... Deu tudo certo, meu a
AnnaO ar fresco da noite nos atingiu assim que pusemos os pés fora do táxi, logo na calçada do bar. As luzes amareladas do letreiro piscavam, projetando uma atmosfera viva e acolhedora sobre as mesas externas, que já começavam a lotar. O som abafado da música ao vivo vazava pelas janelas de vidro, misturando-se ao burburinho alegre dos clientes e ao barulho dos copos brindando.Emma trazia o celular empunhado na mão direita e os polegares voavam pela tela enquanto caminhávamos em direção à recepção do estabelecimento.— A Beth acabou de mandar mensagem — avisou Emma, erguendo os olhos do aparelho e ajeitando a alça da bolsa no ombro. — Ela já está chegando com a Samanta, vamos garantindo uma mesa grande perto do lounge. Ah, e mandou avisar que o irmão dela, o Gabriel, está vindo pra cá também e vai trazer uns amigos dele.Parei por um segundo na entrada, olhando para o movimento do bar e sentindo uma onda inesperada de expectativa no peito. A conversa com a Emma no meu apartamento ti
AnnaA campainha tocou antes mesmo que eu conseguisse colocar as coisas da segunda mala de roupa de volta no cabide. A porta do meu apartamento se abriu com o baque seco da chave girando, e Emma atravessou a entrada como um verdadeiro furacão de curiosidade e energia.Ela nem sequer tirou os sapatos ou largou a bolsa direito no aparador. Parou no meio do corredor, cruzou os braços sobre o peito e me encarou de cima a baixo com um olhar clínico, os olhos semicerrados e as sobrancelhas erguidas em um arco inquisidor.— Pode ir parando tudo e abrindo a boca, dona Anna! — disparou Emma, sem um pingo de cerimônia, enquanto caminhava a passos firmes na minha direção. — Agora você vai me contar cada detalhe. Conheceu algum gringo lindo nesse desfile em Nova York? Porque você está com uma cara completamente diferente... Uma cara inconfundível de quem transou a viagem inteira!Senti minhas bochechas queimarem instantaneamente. Soltei uma gargalhada alta, balançando a cabeça diante da falta de
AnnaO ar abafado e característico da cidade nos recebeu assim que os portões do aeroporto se abriram. O contraste com o clima ameno de Nova York foi imediato, mas nada parecia mais quente do que o olhar que Matteo sustentava sobre mim enquanto colocava as últimas malas no porta-malas do carro.Assim que entramos no veículo e ele deu a partida, bastou uma olhada de relance para o banco do motorista para ver Matteo me encarando com aquela clássica expressão de cachorro que caiu da mudança. Os lábios levemente curvados para baixo e os olhos azuis num tom pidão impecável.— Tem certeza de que você não quer mudar de ideia e ir direto para o meu apartamento? — perguntou ele, fazendo um bico dramático enquanto manobrava o carro para sair do aeroporto. — O meu colchão é infinitamente melhor, o silêncio é perfeito e eu garanto que faço um café da manhã muito mais gostoso do que qualquer coisa que você tenha na sua despensa agora.Soltei uma risada curta, balançando a cabeça diante do showzinh







