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Capítulo 4: Adestramento de Luxo

Author: Yanca Borges
last update Petsa ng paglalathala: 2026-05-01 22:58:39

​— Coluna ereta, Jade. Uma Luna não se senta, ela se posiciona.

​A voz da Sra. Sterling cortou o ar como um chicote de couro. Ela era uma loba anciã, seca como um deserto e com o coração provavelmente feito de gelo e protocolos. Eu estava sentada em uma cadeira de encosto reto há três horas, com dois livros pesados sobre a cabeça e um espartilho que reduzia minha capacidade pulmonar a meros suspiros.

​— Eu não sou uma Luna, Sterling — sibilei, sentindo uma gota de suor escorrer entre minhas escápulas. — Eu sou um projeto de arquitetura que meu pai está tentando finalizar.

​— Menos sarcasmo e mais elegância. O Alfa Caleb não vai tolerar essa sua língua afiada na frente dos convidados do conselho.

​— O Alfa Caleb não consegue nem tolerar o próprio reflexo sem passar meia hora ajeitando o topete — retruquei, e o livro da esquerda escorregou, batendo no chão com um estrondo que ecoou pela sala de música.

​Sterling soltou um suspiro de pura decepção. Ela caminhou até mim, seus saltos batendo no mármore com uma precisão irritante.

​— Você não entende a gravidade disso, entende? — Ela segurou meu queixo com dedos frios e ossudos. — Você é a vitrine da Matilha da Lua Prateada. Se você falhar no banquete de noivado, a aliança com a Matilha de Ferro desmorona. E se isso acontecer, o sangue que será derramado nas fronteiras estará nas suas mãos.

​— Engraçado como a paz mundial sempre depende de eu saber qual garfo usar para o peixe — ironizei, afastando o rosto do toque dela.

​— Levante-se. Vamos praticar a dança de abertura. De novo.

​Eu queria rosnar. Queria rasgar o tapete persa com as minhas unhas e pular pela janela. Mas eu sabia que meu pai estava assistindo pelas câmeras. Se eu não cooperasse, ele cortaria minha única liberdade: as caminhadas solitárias pela floresta. E, depois de ver Dominic ontem à noite, a floresta era o único lugar onde eu realmente me sentia viva.

​A música começou — um piano clássico, monótono e sem alma. Sterling assumiu o papel do "homem" na dança. Ela segurou minha mão e minha cintura, me conduzindo pelo salão.

​— Sorriso suave, Jade. Olhos baixos, mas submissos. Você deve parecer que está flutuando, não marchando para a guerra.

​— É difícil não marchar quando você está sendo levada para o abate.

​— O Caleb te deseja, menina. Vi o jeito que ele te olhou. Você deveria usar isso a seu favor em vez de lutar contra o inevitável.

​— O desejo dele me dá náuseas, Sterling. É como se um réptil estivesse deslizando pela minha pele.

​Eu tentava focar nos passos, mas minha mente estava a quilômetros dali. Eu me imaginava dançando sob a luz da lua, mas não com um herdeiro engomado. Eu imaginava mãos brutas apertando minha cintura com uma força que deixaria marcas. Imaginava o cheiro de sândalo abafando esse cheiro de mofo da sala de etiqueta.

​— Você está distraída — Sterling acusou, apertando meu braço. — Sua frequência cardíaca está acelerada. No que está pensando?

​— No quanto eu gostaria de ver este piano cair em cima do Caleb.

​— Chega! — A porta do salão se abriu e meu pai entrou. A aura de Alfa dele inundou o recinto, pesada e sufocante. — Sterling, deixe-nos.

​A velha se curvou e saiu sem dizer uma palavra. Fiquei sozinha com o homem que deveria me proteger, mas que passava os dias planejando como me vender.

​— Você está sendo difícil de propósito — Silas disse, caminhando ao meu redor. — Caleb ligou. Ele disse que o beijo de despedida ontem foi… frio.

​— Talvez porque eu estivesse tentando não vomitar o jantar dele na boca dele.

​O tapa veio tão rápido que eu não tive tempo de desviar. Minha cabeça virou para o lado e o gosto metálico de sangue inundou minha boca. Eu não caí. Eu não ia dar a ele esse prazer.

​— Você vai aprender a ser a fêmea que eu mandei você ser — ele rosnou, o rosto a centímetros do meu. — Caleb é a nossa salvação. Se eu tiver que te quebrar para que você se encaixe no molde dele, eu farei isso.

​Eu olhei nos olhos dele, sentindo o calor do tapa queimar na minha bochecha. O ódio era uma chama límpida no meu peito.

​— Você pode me quebrar, pai. Mas um objeto quebrado não tem utilidade em um altar. O que você vai entregar para o Caleb? Um cadáver bonito?

​Ele levantou a mão novamente, mas parou. O som do meu celular apitando em cima do piano interrompeu a tensão. Era uma notificação de emergência da rede de segurança da mansão.

​Silas franziu a testa e pegou o aparelho.

​— O que é isso? — Ele olhou para a tela. — Um rastro de calor nos fundos da propriedade.

​Meu coração deu um salto. Dominic.

​— Devem ser apenas cervos, pai — eu disse, tentando manter a voz neutra, apesar da adrenalina disparar.

​— Cervos não desativam sensores de pressão, Jade.

​Ele saiu da sala aos gritos, chamando os guardas e o Beta de segurança. Fiquei ali, parada no centro do salão vazio, com a bochecha ardendo e o sangue pulsando nas pontas dos dedos.

​Caminhei até a janela e olhei para o jardim. O sol estava se pondo, tingindo o céu de um vermelho sangrento. Eu sabia que não eram cervos. E sabia que a segurança da matilha não ia encontrar nada. Dominic não era alguém que se deixava pegar a menos que quisesse ser visto.

​Limpei o sangue do canto da boca com as costas da mão. O vestido azul estava amassado, e meu cabelo, que Sterling gastou horas arrumando, estava um desastre.

​Eu nunca me senti tão bonita.

​Se meu pai queria guerra, ele teria. Se Caleb queria uma boneca, ele ia descobrir que algumas bonecas vêm com lâminas escondidas.

​E se Dominic estivesse realmente lá fora, me assistindo… então talvez o treinamento de etiqueta não fosse totalmente inútil. Afinal, uma Luna precisa saber exatamente como se portar enquanto assiste o reino do seu inimigo queimar.

​Fui para o meu quarto, ignorando os gritos dos guardas lá fora. Eu tinha uma longa noite de sonhos eróticos pela frente, e dessa vez, eu não ia lutar contra eles. Eu ia deixá-los me consumir até que eu não restasse nada da "Jade obediente".

​Eu estava pronta para ser o caos que Dominic esperava.

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