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Capítulo 5: O Banquete dos Abutres

Author: Yanca Borges
last update publish date: 2026-05-02 17:47:28

​O espelho não mentia: eu parecia o tipo de pecado que faz um homem trair a própria alma. O vestido verde-esmeralda não era apenas uma roupa; era um grito de guerra envolto em seda italiana. Ele deslizava pelo meu corpo como uma segunda pele, revelando as costas nuas e uma fenda que, a cada passo, contava uma história de rebeldia que meu pai tentava esconder.

​— Jade, você está... — Minha mãe parou na porta do quarto, a voz sumindo. Ela viu as joias, o batom cor de sangue e o olhar de quem não ia aceitar ser a sobremesa de ninguém. — Seu pai disse para não exagerar. Ele queria que você parecesse... doce.

​— Doce dá cárie, mamãe — respondi, calçando os saltos agulha dourados que mais pareciam adagas. — Hoje eu sou o veneno.

​Saí do quarto sem esperar por ela. Desci as escadas da mansão Lua Prateada sentindo o peso de cada olhar. O salão estava um nojo de perfeição. Flores brancas por todo lado, o cheiro enjoativo de lírios e a elite das matilhas desfilando seus ternos de três peças e sorrisos falsos. No centro de tudo, Caleb conversava com dois Anciãos, rindo de algo que provavelmente não tinha graça nenhuma.

​Assim que meus pés tocaram o mármore do salão, o silêncio se espalhou. Não era o silêncio de admiração que meu pai queria. Era o silêncio do choque. Eu não era a noiva obediente em tons pastéis. Eu era uma predadora em pele de seda.

​Caleb se virou. A taça de champanhe na mão dele ficou congelada no ar. O desejo dele me atingiu como uma lufada de ar quente e sujo. Ele me devorou com os olhos, da fenda do vestido até a curva do meu pescoço, e eu quase pude ouvir as engrenagens da cabeça dele girando, imaginando como seria me tirar daquele vestido.

​— Jade — ele disse, a voz saindo mais rouca do que o normal. Ele caminhou até mim, ignorando os Anciãos. — Você decidiu seguir o meu conselho e ser... impactante.

​— Eu não sigo conselhos, Caleb. Eu sigo instintos — dei um sorriso que não chegava aos olhos, mas que fez a pulsação no pescoço dele acelerar. — Gostou do que comprou?

​— Eu comprei o melhor. E você está divina.

​Ele tentou passar a mão pela minha cintura, mas eu fiz um movimento fluido, pegando uma taça de vinho da bandeja de um garçom que passava, esquivando-me do toque dele com a precisão de uma bailarina de combate.

​— Nada de pressa, querido. Temos uma noite inteira de teatro pela frente — sussurrei, deixando o hálito quente roçar o rosto dele antes de me afastar.

​Meu pai, Silas, apareceu ao nosso lado. Ele estava radiante de orgulho falso, mas o brilho de aviso nos olhos dele era claro: Não estrague isso. Eu apenas ergui a taça para ele em um brinde silencioso. Eu ia brilhar tanto que ele ia se cegar.

​O jantar foi uma tortura de etiqueta. Caleb sentou ao meu lado, sua coxa roçando a minha "acidentalmente" sob a mesa. Eu sentia o calor dele, a posse que ele tentava exercer apenas com a presença, e cada fibra do meu ser gritava de repulsa. Ele falava sobre expansão de território, sobre como a nossa união criaria um império de ferro e prata. Eu apenas sorria, concordava com a cabeça e bebia meu vinho, sentindo o gosto da vingança que eu estava cozinhando.

​— Você está muito quieta, Jade — Caleb murmurou, inclinando-se para perto, o cheiro de loção pós-barba cara me sufocando. — O que está passando nessa cabecinha linda?

​— Estou pensando em como o verde combina com o seu teto — menti, olhando fixamente para os olhos dele. — E em como eu vou adorar ver você tentar me domar.

​O desafio nos meus olhos o deixou louco. Ele apertou o guardanapo de linho com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Ele achava que tinha o controle. Ele achava que eu era o prêmio.

​Mas enquanto eu jogava esse jogo psicológico com o idiota ao meu lado, minha pele começou a formigar. Uma eletricidade estática percorreu meus braços, fazendo os pelos se arrepiarem.

​O ar no salão mudou. No meio do cheiro de comida cara e perfumes franceses, um rastro de algo selvagem se infiltrou. Sândalo e ozônio.

​Minha respiração travou por um segundo. Olhei para a imensa parede de vidro que dava para a floresta. Lá fora, o mundo era sombras e mistério. Aqui dentro, era luz e falsidade.

​Eu sabia que ele estava lá.

​Dominic estava nas sombras, além do alcance das luzes de segurança. Ele estava de pé, imóvel como uma estátua de granito, com os punhos cerrados e a mandíbula tão tensa que parecia prestes a quebrar. Ele via tudo. Via o jeito que Caleb me olhava, via o toque invasivo no meu ombro, via o sorriso que eu usava como escudo.

​Um rosnado baixo, inaudível para os humanos mas vibrante para os lobos, escapou do peito de Dominic. Ele queria estraçalhar aquele vidro. Queria arrancar a cabeça de Caleb e quebrar cada osso do meu pai por me colocar naquele palco. O laço de parceiro estava puxando o peito dele, uma dor física que exigia que ele me reivindicasse ali mesmo, na frente de todos.

​— Toque nela de novo — Dominic rosnou para a escuridão, as unhas cravando na palma das mãos até tirar sangue. — Toque nela de novo e eu garanto que este será o seu último banquete.

​Eu senti a fúria dele. Era como se uma corda invisível nos conectasse, e a vibração do ódio dele estivesse alimentando a minha própria força.

​Levantei-me da mesa, pedindo licença com a voz mais doce que consegui fingir.

​— Preciso de um pouco de ar fresco. O excesso de... hospitalidade está me deixando tonta.

​— Eu acompanho você — Caleb disse, já se levantando.

​— Não — coloquei a mão no peito dele, impedindo-o. — Fique. Converse com meu pai sobre os termos do contrato. Eu quero um momento sozinha para processar a minha "sorte".

​Lhe dei uma piscadela provocante e caminhei em direção à varanda. Senti o olhar de Caleb nas minhas costas, queimando minha pele, mas assim que cruzei a porta de vidro, o ar fresco da noite me atingiu como uma bênção.

​Caminhei até o parapeito de pedra e olhei para a floresta. Eu não conseguia vê-lo, mas sabia exatamente onde ele estava. O silêncio da mata era pesado, carregado com a presença de um predador que não aceitava ordens de ninguém.

​— Eu sei que você está aí — sussurrei para o vento, segurando as joias de esmeralda no meu pescoço. — E eu espero que você esteja gostando do show. Porque no próximo ato, eu não vou ser a única a sangrar.

​Um movimento súbito na linha das árvores me fez prender o fôlego. Por um segundo, dois globos de cinza metálico brilharam na escuridão. O impacto foi tão forte que minhas pernas fraquejaram. Não era o olhar de posse de um comprador como Caleb. Era o olhar de um dono. De um par. De alguém que me destruiria e me salvaria ao mesmo tempo.

​Ouvi os passos pesados de Caleb se aproximando da porta da varanda. Ele não ia me dar nem cinco minutos de paz.

​— Jade? — ele chamou, a voz carregada de uma impaciência perigosa.

​Olhei uma última vez para a floresta. Dominic tinha sumido nas sombras, mas o cheiro dele ainda estava impregnado no ar, me dando a coragem que eu precisava.

​Virei-me para Caleb com o meu sorriso mais radiante e letal.

​— Entre, Caleb — eu disse, a voz firme e direta. — Vamos terminar logo com esse teatro. Eu mal posso esperar para ver o que a noite nos reserva.

​Eu estava deslumbrante. Eu estava pronta. E, no escuro da floresta, o verdadeiro Alfa estava apenas esperando o sinal para transformar aquele banquete em um campo de guerra.

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