MasukNo centro daquelas rochas, Aria via a mãe lutando pela vida. O som de carne rasgada e ossos batendo contra o chão ecoava pela clareira enquanto os lobos atacavam sem parar.
Ela gritava, desesperada, implorando para que parassem. Mas o lobo à sua frente a mantinha presa, esmagando seu corpo contra o chão com a pata pesada.
Kaelen deu um passo na direção dela.
— Acabe com isso — ordenou, sem desviar os olhos da jovem. — Deixe apenas a garota.
O lobo que a segurava se afastou. No mesmo instante, os olhos de Aria buscaram os de Janete.
A loba acinzentada reuniu a última faísca de vida em seus músculos. Com um movimento explosivo, ela se desvencilhou dos agressores e avançou não contra Kaelen, mas contra a própria filha. Aria não teve tempo de reagir. O focinho pesado e ensanguentado da mãe bateu contra o seu peito, empurrando-a com força total para trás.
O chão sumiu.
O vento cortou seus ouvidos enquanto o corpo caía no vazio do abismo. A última imagem que teve do topo da colina foi a silhueta de Kaelen correndo até a borda, os olhos arregalados de fúria.
Então, a água congelante a engoliu.
O impacto contra o rio foi como bater em um muro de concreto. O frio extremo perfurou a pele de Aria, travando seus pulmões instantaneamente. O turbilhão escuro a arrastou para o fundo, girando seu corpo como uma folha seca. Ela bateu o ombro contra uma rocha submersa, a dor disparando pelo braço, mas o instinto falou mais alto.
Atravesse a ponte. Custe o que custar.
Aria forçou as pernas a chutarem a correnteza, lutando para manter a cabeça acima da superfície. O rio a arremessava de um lado para o outro, rasgando o vestido branco, até que a força da água a jogou contra uma margem de cascalho e lama do outro lado.
Ela tossiu violentamente, cospindo a água de Squamish enquanto se arrastava para fora da correnteza. Seus dedos se cravaram na lama escura. Seus joelhos estavam ralados, os braços sangravam e o corpo inteiro tremia.
Seus olhos percorreram a margem à sua volta, procurando qualquer sinal. Mais à frente seu corpo foi lançado contra o chão de pedra e rolou alguns metros antes de parar completamente imóvel. Nua, coberta de sangue e marcada por cortes profundos, ela respirava com dificuldade, como se cada inspiração fosse uma batalha perdida.
— Mãe...
A voz morreu em sua garganta.
No instante seguinte, ela disparou colina abaixo, tropeçando nas pedras, ignorando os galhos que arranhavam sua pele. Caiu de joelhos ao lado de Janete e a tomou nos braços, apertando-a contra o peito como se pudesse impedir que a vida escapasse de seu corpo.
Os olhos de Janete se abriram lentamente. Ainda havia amor neles, mas a vida esvaía-se rápido.
— Minha... filha... — A voz saiu em um fio, entrecortada por uma tosse que tingiu seus lábios de vermelho.
— Não fala... por favor... eu vou tirar você daqui.
A mãe sorriu. Um sorriso pequeno e triste de quem já conhecia o fim.
— Me escuta...
Aria balançava a cabeça, recusando-se a aceitar.
— Não... não... por favor...
— Atravesse... a ponte — outra tosse estremeceu o corpo debilitado. — Promete...
As lágrimas escorriam sem controle.
— Eu prometo... mas a senhora vem comigo. Nós vamos conseguir...
Janete ergueu a mão com dificuldade. Os dedos frios tocaram a bochecha da filha pela última vez.
— Você... sempre... foi... o meu maior orgulho.
— Não... mãe... a culpa foi minha... — Aria desabou sobre ela.
A mulher reuniu a última faísca de força nos músculos.
— Nunca... diga isso... — Respirou fundo, arrastando o ar com um esforço sobre-humano. — Eu escolheria... você... outra vez. Mesmo sabendo... como terminaria.
Um brilho sereno cruzou suas pupilas.
— Eu te amo...
A mão escorregou pelo rosto de Aria e caiu pesadamente sobre as pedras. O silêncio tomou conta da margem do rio.
— Mãe...? — Nenhuma resposta. — Mãe...
Aria segurou o corpo inerte, sacudindo-o pelos ombros.
— Mãe!
O grito rasgou a noite, ecoando pelas montanhas. Ela pressionou a testa contra a de Janete, mas o calor da pele já desaparecia. A mãe havia partido. O mundo de Aria ruiu ali mesmo, no chão lamacento.
O estalo de um galho do outro lado do rio quebrou o luto.
Aria ergueu o rosto devagar. Na margem oposta, Kaelen observava tudo. Imóvel, como se apreciasse um espetáculo desenhado para ele. Atrás do Alfa, dezenas de lobos aguardavam em um silêncio cúmplice.
A voz dele atravessou a escuridão.
— Acabou, Aria.
Ela apertou os dentes até sentir o gosto ferroso do próprio sangue.
— Venha — Kaelen estendeu a mão. — Não há mais ninguém para protegê-la.
Aria olhou para a estrutura de madeira logo acima, depois para o corpo inerte no chão. Por fim, fixou os olhos no Alfa. O peito queimava com um ódio que ela nunca soube que existia.
Com as pernas vacilantes, ela se levantou. Cada passo em direção à colina parecia uma traição, mas era a última vontade da mãe. Quando alcançou a primeira tábua de madeira da ponte, a voz de Kaelen chicoteou suas costas.
— Se atravessar essa ponte... — Ele sorriu, as feições tomadas por uma diversão predatória. — Eu destruirei esta alcateia. Homens, mulheres, crianças... todos morrerão. E o sangue deles estará em suas mãos.
Aria fechou os olhos por um segundo. Quando tornou a abri-los, a garota assustada da lanchonete havia desaparecido. As lágrimas ainda limpavam a sujeira de seu rosto, mas a voz saiu firme, baixa e letal.
— Então faça isso.
Kaelen arqueou uma sobrancelha, o sorriso sumindo de seus lábios.
— Porque eu também fiz uma promessa — ela o encarou diretamente, sustentando o olhar do monstro. — Um dia... eu volto.
Deu mais um passo sobre as tábuas da ponte.
— E quando esse dia chegar... — Aria sorriu pela primeira vez. Não era um sorriso de Alegria, mas o de alguém que havia perdido tudo. — Eu mesma vou arrancar a sua cabeça.
E, pela primeira vez, os olhos de Kaelen deixaram de enxergar uma menina indefesa. O brilho que encontrou no olhar de Aria não era medo... era vingança.
Capítulo 133Aria mordeu o lábio inferior com tanta força que sentiu o gosto metálico e quente do próprio sangue na língua. O peito subia e descia em arfadas curtas e descompassadas. A dúvida não era apenas um pensamento; era uma lâmina afiada rasgando sua mente ao meio. Aquela alcateia tinha se tornado seu porto seguro, o único refúgio onde finalmente experimentara o sabor da liberdade. Acreditar que Hulio ou os outros pudessem se virar contra ela parecia uma traição vil à confiança que construíra. Mas Maike... Maike era a única testemunha viva de sua infância, o garoto que sangrara por ela no passado.Antes que ela pudesse formular qualquer resposta, o rangido estridente cortou o ar abafado. A cela pareceu encolher quando a porta se abriu devagar, revelando a silhueta alta e imponente de Mason sob a luz amarelada do corredor.— Aria, o tempo acabou. Você precisa vir — disse o guarda. Sua voz saiu neutra, impecavelmente profissional, mas seus olhos semicerrados vasculhavam a cela,
Capítulo 132 Aria guardou o papel amarelado no bolso do casaco com cuidado. O olhar de Maike continuava sobre ela, sério e pesado, fazendo o ar da cela parecer ainda mais frio do que a pedra.Ela deu dois passos à frente, encurtando a distância entre eles, e o envolveu em um abraço firme. Sentir o calor de Maike, o cheiro familiar de terra e folha seca que ele sempre carregara, trouxe-lhe uma onda passageira de conforto em meio à tempestade de dúvidas.— Eu estou realmente feliz em te ver, Maike — murmurou ela, afastando-se devagar, mantendo as mãos apoiadas nos ombros dele. — Mas, sendo sincera com você... acho que a sua cabeça está criando conexões onde não existem. Você está pensando demais sobre isso.Ela soltou os ombros dele e deu meia-volta, encarando as paredes nuas de cimento.— Isso tudo não tem nada a ver comigo — continuou, soltando um riso soprado e sem vida. — Como eu poderia carregar uma força dessas? Eu mal consigo me manter em pé quando o perigo aparece! Mal con
Capítulo 131Aria segurou o papel antigo com as pontas dos dedos trêmulas, sentindo a textura áspera e gasta do pergaminho sob a pele. As margens estavam levemente chamuscadas, e a superfície coberta por símbolos e caligrafias em uma língua ancestral que ela jamais vira antes — runas entrelaçadas em espirais finas que pareciam pulsar sob a luz fraca da cela. Impotente diante das palavras que não conseguia ler, os olhos de Aria foram inevitavelmente atraídos para as ilustrações desenhadas em nanquim desbotado. À medida que percorria as sequências de imagens, o ar em seus pulmões pareceu congelar. A primeira gravura retratava um bebê recém-nascido, pequeno e indefeso, repousando sobre um altar sob a projeção direta de uma lua cheia colossal. Ao encarar aquela figura, um arrepio visceral percorreu a espinha de Aria; o coração disparou contra o peito numa aceleração quase dolorosa, acompanhado por um sentimento avassalador de familiaridade, como se reconhecesse aquele momento em uma mem
Capítulo 130Uma batida seca e ritmada ecoou contra a madeira da porta. Mason não esperou que ela respondesse para entreabri-la, mantendo a postura ereta e a expressão profissional de um guarda treinado.— Aria — chamou ele, com a voz neutra. — O Alfa autorizou sua visita ao prisioneiro. Antes mesmo que o guarda terminasse de pronunciar a frase, Aria se levantou em um salto da beirada da cama. O alívio percorreu seu corpo como um choque elétrico. Ela calçou os chinelos de forma apressada, mal ajustando-os nos pés, e passou por Mason.— Vamos — disse ela, já dando passos largos pelo corredor. Mason a acompanhou de perto, mantendo uma distância calculada de proteção e vigilância. O trajeto até a ala de contenção no subsolo era frio, e o cheiro de umidade e pedra antiga ficava mais denso a cada passo. Quando finalmente pararam diante da cela de ferro batido onde Maike estava mantido, o guarda retirou o molho de chaves do cinto. O metal rangeu quando a tranca cedeu. Mason segurou a p
Capítulo 129— O quê? — Lisi desviou o rosto rapidamente, tentando disfarçar o rubor quente que ameaçava subir por seu pescoço. — Não sei do que você está falando, Luke. Por que o Rayzel teria qualquer coisa a ver com a minha decisão?Luke soltou um suspiro pesado, o peito largo subindo e descendo enquanto cruzava os braços sobre o tórax.— Lisi, eu conheço você melhor do que qualquer pessoa neste mundo. E conheço o Rayzel. — Ele fez uma pausa carregada de gravidade, sustentando o olhar sobre ela. — Eu nunca vi aquele homem perder o controle ou virar uma fera desgovernada por causa de ninguém daquela maneira. O que está acontecendo entre vocês?Lisi virou-se para ele, as palavras atropelando-se num tom defensivo e apressado:— Ele é o Beta desta alcateia, Luke! E eu sou apenas uma garota que ainda está aprendendo a segurar uma espada! Minha loba é fraca... Por que um homem na posição dele teria olhos para mim?Luke franziu o cenho de imediato. A expressão dura cedeu lugar a uma indign
Capítulo 128Lisi não parou para pensar.Assim que deixou o quarto de Rayzel, atravessou os corredores dos alojamentos com passos rápidos e pesados. O peito apertado e a respiração descompassada denunciavam a tempestade em seu interior. Não queria encontrar ninguém. Não queria ouvir perguntas curiosas. Muito menos precisava de alguém tentando convence-la de que tudo ficaria bem.Ela precisava esquecer. Ou, pelo menos, silenciar por alguns minutos aquilo que estava queimando dentro dela.Por isso, seguiu diretamente para o pátio de treinamento deserto.Pegou uma espada de treino no suporte de madeira. Depois outra. E começou.Os primeiros golpes saíram carregados de fúria pura. Cada estocada era mais forte e violenta do que a anterior. Ela golpeava os bonecos de palha e madeira até os braços começarem a tremer pelo esforço, corrigia a própria postura com brutalidade, repetia os movimentos e atacava novamente.Quando as palmas das mãos começaram a arder e esfolar, não parou. Quando as p







