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Capitulo 5: O peso do passado

Author: Ge Valdez
last update publish date: 2026-09-23 00:37:06

A caixa de papelão reforçado já estava fechada, mas as lágrimas de Ruth continuavam a cair, silenciosas e teimosas, molhando a fita adesiva transparente antes mesmo que ela percebesse. Com os dedos latejando intensamente pelo calo profundo da tesoura e o lado esquerdo do rosto ainda queimando sob o estigma do tapa da mãe, ela terminou de passar a última camada de fita.

Tomou um banho rápido, mecânico, sob a água fria que parecia anestesiar temporariamente a dor do corpo. Vestiu sua melhor roupa — uma calça jeans simples, mas bem cuidada, e uma blusa de algodão clara. Decidiu sair sem tomar café da manhã. Seu estômago estava completamente fechado pela angústia e pelo nó de humilhação que engolira na garagem, mas ela prometeu a si mesma, num sussurro, que comeria um salgado barato na rua assim que aquela entrega estivesse feita.

Ela chamou um carro por aplicativo usando os poucos centavos que restavam em sua conta digital. Quando o veículo chegou, ela entrou com esforço, acomodando as caixas grandes com todo o cuidado do mundo no banco de trás, como se estivesse transportando cristais raros.

À medida que o carro avançava, deixando para trás as ruas esburacadas e a poeira da periferia em direção ao imponente centro financeiro da capital, a mente de Ruth se transformava em um turbilhão caótico. Ela precisava sair daquela casa. A violência da mãe havia quebrado o último vínculo de tolerância que ela possuía. Mas para onde ir? Com que dinheiro?

Em silêncio, enquanto olhava a paisagem mudar pela janela, ela começou a repassar as poucas e escassas opções que tinha. “E se eu pedir ajuda para a minha tia?”, pensou por um breve segundo, buscando desesperadamente uma tábua de salvação.

No entanto, o pensamento foi imediatamente barrado por um calafrio terrível, gélido, que lhe subiu pela espinha e fez seus pelos se arrepiarem. Não. Definitivamente, não.

Em segundos, como uma represa que se rompe, as lembranças sufocantes que ela tentava trancar a sete chaves no fundo da memória vieram à tona com força total. Ruth fechou os olhos com força, mas ainda conseguia sentir, com uma nitidez aterrorizante, as mãos daquele velho gordo e fedorento — o marido de sua tia — tocando todo o seu corpo sem permissão quando ela era apenas uma criança indefesa de nove anos.

Lembrou-se da náusea imediata, do cheiro de bebida barata misturado ao suor dele, e de como passava horas escovando os dentes e cuspindo no banheiro depois que ele tentava beijar sua boca à força nos cantos escuros da casa. Lembrou-se daquela mão nojenta tentando apertar seus seios que nem sequer tinham se desenvolvido, e o pavor congelante, que paralisava seus movimentos, quando ele tocava sua intimidade.

“Se você falar alguma coisa para alguém, você vai apanhar tanto que não vai conseguir levantar do chão”, ele ameaçava na época, com os olhos fixos nela. E Ruth, por tudo o que já sofria dentro de sua própria casa, por ver a mãe sempre culpá-la por tudo, acreditava piamente que o mundo inteiro se voltaria contra ela se abrisse a boca. Aprendeu a se trancar em uma concha.

As marcas daquela infância corrompida, onde apanhar, ser abusada e ser silenciada eram a regra de sobrevivência, estavam ali, vivas e sangrando em seu psicológico. Sem que ela percebesse, as lágrimas começaram a rolar grossas e pesadas pelo seu rosto, desenhando caminhos molhados na bochecha que ainda guardava a vermelhidão do tapa recente. Um choro silencioso, mas carregado de anos de uma dor acumulada que ninguém nunca se importou em consolar.

O motorista do aplicativo a olhava com frequência pelo retrovisor interno. Ele manteve um silêncio respeitoso, tocado pelo sofrimento genuíno daquela jovem que segurava uma caixa de papelão como se fosse seu bem mais precioso, sem saber exatamente como intervir naquele choro tão doloroso.

— Chegamos, moça... É aqui — a voz mansa do motorista finalmente a despertou daquele transe de memórias sombrias.

Ruth piscou várias vezes, tentando afastar os fantasmas do passado, e olhou pela janela.

— Ah... desculpa, eu estava distraída — falou ela com a voz embargada, limpando as lágrimas rapidamente com as costas das mãos calejadas pelo trabalho.

Ela pagou a corrida, desceu do veículo com cuidado e pegou o pesado fardo de caixas. Ao erguer os olhos, quase não acreditou na magnitude do que viu. O prédio da HVTech era imenso. Uma torre monumental de espelhos que parecia tocar o céu, refletindo o azul das nuvens e a luz forte do sol da manhã. Para quem vinha de uma pequena garagem de cimento batido na periferia, aquele lugar parecia um outro planeta, uma fortaleza de deuses intocáveis.

Engolindo o choro a seco e ajeitando a postura, Ruth respirou fundo. Ela tentou demonstrar o máximo de naturalidade e profissionalismo que conseguiu reunir em sua alma destroçada e cruzou as imensas portas giratórias de vidro.

O chão de granito polido brilhava tanto que ela conseguia ver perfeitamente o reflexo de seus sapatos simples e gastos. O ambiente exalava o perfume caro do sucesso e o som suave do ar-condicionado central. Ela caminhou timidamente até o balcão de mármore escuro da recepção.

— Senhora, bom dia... — disse Ruth, forçando sua habitual doçura e educação na voz, embora o brilho opaco de seus olhos entregasse a devastação interna.

— Por favor, poderia avisar à senhora Paula que a Ruth está aqui com os mimos corporativos do evento?

A recepcionista, impecável em seu uniforme sob medida e postura corporativa, apenas assentiu com um aceno mecânico, discou alguns números no telefone interno e repassou o recado de forma breve. Ao desligar, olhou para a jovem de forma neutra.

— Pode subir até o trigésimo andar. À sua esquerda terá uma sala de reuniões principal. Espere lá dentro, a senhora Paula já irá ao seu encontro.

— Muito obrigada — agradeceu Ruth, com um aceno humilde.

Ela caminhou com passos hesitantes até os elevadores inteligentes de alta velocidade. Assim que as portas de metal escovado se fecharam e o visor digital começou a subir rapidamente pelos andares, o estômago de Ruth deu um nó violento.

O reflexo no espelho cristalino do elevador não mentia e nem perdoava: a bochecha esquerda ainda guardava a sombra avermelhada e o leve inchaço do tapa de sua mãe, e seus olhos amendoados revelavam toda a rejeição crônica daquela manhã.

— Engole o choro, Ruth... por favor — repetiu para si mesma em um sussurro quase inaudível, fechando os olhos e respirando o ar frio e artificial.

— Seja profissional. É o seu trabalho. Você consegue.

As portas do trigésimo andar se abriram com um bipe eletrônico suave. O andar era silencioso, carpetado e exalava poder. Ruth ajustou o peso da caixa em seus braços cansados e caminhou na direção indicada da sala de reuniões, sem ter a menor ideia de que o homem implacável que controlava todo aquele império bilionário estava a poucos metros dali, caminhando pelo corredor com uma pasta na mão, prestes a ter seu mundo blindado e durão colidido pela dolorosa realidade dela.

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