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Capitulo 4: o preço da perfeição

Author: Ge Valdez
last update publish date: 2026-09-23 00:29:48

A luz fraca e acinzentada da manhã começou a rasgar as frestas da garagem de flandres, mas Ruth não percebeu. Sem notar o tempo passar, ela havia cochilado ali mesmo, nos minutos finais da madrugada. Seu corpo exausto estava dobrado sobre a mesa de madeira velha, com a cabeça pesada apoiada sobre os braços cruzados.

Quando abriu os olhos, sobressaltada com a claridade repentina que invadia o ambiente, uma dor na região lombar, quase insuportável, fez com que ela prendesse a respiração por vários segundos. Cada músculo, cada vértebra de suas costas protestava violentamente contra o esforço daquela jornada desumana.

Ignorando o sofrimento físico com a resiliência de quem já estava acostumada a aguentar tudo calada, ela se endireitou na cadeira de plástico e olhou para o relógio. O pânico inicial de perder o prazo deu lugar a um orgulho imenso, morno e legítimo, que invadiu seu peito. Na mesa, perfeitamente alinhadas em fileiras simétricas, estavam as duzentas caixas corporativas. Faltava apenas colocar os laços de cetim finais, o que não demoraria muito, afinal todos os nós já haviam sido previamente moldados.

Ruth começou a amarrar os toques de acabamento. Seus dedos latejavam a cada movimento. Um calo grosso, esbranquiçado e dolorido já era visivelmente perceptível na lateral do dedo médio, onde o cabo rígido da tesoura havia pressionado por tantas horas seguidas. As pontas dos dedos ardiam pela fricção contínua contra a textura áspera e pela dobradura firme do papel de alta gramatura. Nada disso, porém, foi capaz de apagar o sorriso cansado que brotou em seus lábios.

— Ficaram lindos... — sussurrou para si mesma, sentindo os olhos marejarem de uma gratidão genuína pelo próprio talento.

— Vou embalar tudo. Vai dar tempo.

Nesse exato momento, o som ríspido e arrastado de chinelos de borracha no chão de cimento anunciou a quebra daquela paz efêmera. Dona Maria parou na porta da garagem. Estava com os braços cruzados sobre o peito e a cara amarrada, carregando a habitual nuvem de amargura que parecia persegui-la.

— Esqueceu dos seus afazeres de casa, foi? — cobrou Maria, o tom de voz coalhado de desdém, sem sequer olhar por um segundo para a beleza artística do trabalho exposto na mesa.

— Sabe muito bem que eu não tenho mais idade para fazer tudo sozinha nesta casa enquanto você fica aí brincando de colagem.

— Agora eu não posso, mãe. Tenho que finalizar essa entrega e ir direto para o centro agora de manhã — explicou Ruth, engolindo a seco a humilhação crônica de ver seu trabalho ser tratado como "brincadeira". Tentou manter a voz calma e doce enquanto organizava as peças em uma caixa maior de transporte.

Dona Maria arregalou os olhos, finalmente reparando na quantidade massiva de material reluzente.

— Tudo isso? Eita! Deve ter dado um bom dinheiro... — A ganância brilhou por um instante nos olhos da mulher mais velha.

— Devia ter me chamado para te ajudar, eu podia ter feito uns laços desses.

Ruth engoliu em seco, sentindo um gosto amargo na boca. Ela sabia perfeitamente que a mãe jamais ajudaria. Quantas noites ao longo de seus vinte e três anos já havia passado em claro, chorando de cansaço, para dar conta de suas encomendas e garantir a comida na mesa? Nunca tivera a ajuda de uma única alma daquela casa. E, no fundo, Ruth sabia que a mãe jamais faria o serviço direito; a papelaria de luxo exigia um amor, um capricho milimétrico e uma busca pela perfeição que Dona Maria simplesmente não possuía na alma.

— Vou tomar um banho, comer algo rápido e sair — disse Ruth, tentando apressar o passo para cortar o assunto.

— Você devia ajudar a sua irmã primeiro — rebateu Maria, mudando o tom de voz de forma cirúrgica para a velha e cruel chantagem emocional de sempre.

— A Ana vai precisar de dinheiro para o Gael hoje. Tem que comprar o material escolar do menino e ela está sem um tostão.

— Mãe, eu não tenho tempo e nem dinheiro sobrando agora — Ruth desabafou, a exaustão física e mental pesando como uma bigorna em sua voz.

— Esse dinheiro já tem destino para a empresa não quebrar. É importante eu entregar isso no prazo certo. Se eu me atrasar, o cliente não me paga.

— Mas você é uma egoísta de marca maior mesmo! — cuspiu Maria, dando um passo para dentro do espaço, aproximando-se com o dedo indicador em riste, quase tocando o rosto de Ruth.

— Tendo esse dinheirão todo na mão e não quer ajudar a própria família, o seu próprio sangue? Cuidado, viu... Deus castiga filha ingrata!

O estopim de Ruth, encurtado ao limite por conta da privação de sono e do esgotamento, finalmente acendeu. As marcas inflamadas em suas mãos doíam, suas costas queimavam e ouvir aquele julgamento cruel e deturpado depois de dar o próprio sangue pela casa era demais para suportar.

— Eu passei a noite inteira acordada no frio e no calor, mãe! Estou com as mãos em carne viva, preciso sair às pressas para não perder tudo... e a Ana ainda está dormindo e roncando a essa hora da manhã!

— Ela está cansada! — gritou Maria, a voz subindo o tom imediatamente, defendendo a filha caçula com a mesma parcialidade cega de sempre.

— Ela tem um filho pequeno para cuidar, as obrigações de uma mãe! E você? Você não tem ninguém, não tem homem, não tem filhos e nem faz nada que preste para ajudar dentro desta casa!

— Ela engravidou aos dezessete anos porque quis e a senhora sempre passou a mão na cabeça dela para protegê-la das consequências! — Ruth explodiu.

O esgotamento físico e o estresse traumático acumulados de anos de silêncio forçado vieram à tona como um vulcão, fazendo-a subir o tom de voz e gritar como nunca ousara fazer em toda a sua vida.

— Manda ela pedir dinheiro ao pai do filho dela! Enquanto eu sempre estava trancada aqui dentro trabalhando para pagar as contas, ela estava por aí na rua, farreando e fazendo menino!

O som que se seguiu foi seco, rápido e terrivelmente violento. O peso da mão calejada de Dona Maria atingiu o lado esquerdo do rosto de Ruth em cheio.

O tapa estalou pelas paredes estreitas da garagem silenciosa, deixando uma marca vermelha e estriada, instantânea, na pele alva e delicada da jovem. Ruth cambaleou um passo para trás com o impacto, esbarrando na mesa. O choque cortou seu ar.

A dor física do golpe não era nada comparada ao estraçalhar completo de sua alma naquele momento. Suas mãos trêmulas subiram lentamente até a bochecha ardente, que pulsava de dor. As lágrimas, grossas, pesadas e quentes, vieram sem que ela pudesse exercer qualquer controle, transbordando daquela tristeza profunda que ela sempre carregara no fundo do olhar. O último vestígio de infância e respeito filial havia morrido ali.

— Respeite a sua irmã, sua insolente! — esbravejou Maria, a voz trêmula de uma raiva descontrolada, sem demonstrar um único pingo de arrependimento ou remorso pelo que acabara de fazer.

— Está chamando a Ana de prostituta por acaso dentro da minha casa? Agradeça de joelhos por ainda ter um teto sobre a sua cabeça, sua infeliz! Ingrata! Está achando ruim? Pegue suas tralhas e saia da minha casa! Será um peso morto a menos para eu carregar nas minhas costas!

Maria virou as costas com violência e saiu batendo a porta interna que conectava a garagem à cozinha, deixando Ruth completamente sozinha no silêncio sufocante da oficina.

Com o rosto queimando, o coração transformado em estilhaços e a dignidade pisoteada, Ruth olhou para a caixa cheia de mimos de luxo prontos. Aqueles pedaços de papel eram sua única corda de salvamento para fugir daquele inferno.

Mais uma vez em sua vida, Ruth teve que engolir o choro e amordaçar a própria dor. Ela não tinha o luxo do tempo para chorar, desabar ou se lamentar na cama. Limpou as lágrimas com as costas da mão ferida, respirou fundo até o peito doer, ajeitou o cabelo e pegou a pesada caixa de papelão. Ela precisava atravessar a cidade e enfrentar o homem mais poderoso da capital portando um sorriso no rosto e uma marca de agressão na face.

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