LOGINRuth transformou uma humilde garagem em seu pequeno império de papelaria personalizada. Doce, batalhadora e leal até demais, ela suporta calada as exigências de uma família tóxica que suga suas economias e suas forças. Ela só precisa de uma chance para mudar de vida e conquistar sua liberdade.Do outro lado da cidade, no topo de uma torre espelhada, está Heitor. Um CEO implacável, rude e marcado por traumas profundos do passado que o transformaram em um homem incapaz de confiar em qualquer pessoa. Para ele, o mundo é feito apenas de oportunistas.Quando um erro crucial ameaça arruinar o maior evento da empresa de Heitor, o destino decide cruzar esses dois mundos completamente distantes através de um telefonema desesperado.Ela busca uma saída. Ele exige perfeição. Entre prazos impossíveis, choques de realidade e uma atração irresistível que nenhum dos dois consegue controlar, eles descobrirão que a cura para suas dores mais profundas pode estar justamente no oposto que tanto temiam.Nos Braços do CEO é uma história emocionante e visceral sobre superação, segundas chances e o poder de curar marcas que o passado deixou na alma.
View MoreO som estridente da impressora antiga trabalhando na garagem ecoava pela cabeça de Ruth como uma contagem regressiva. O visor do computador usado, comprado após meses de economia, piscou duas vezes antes de estabilizar a imagem do molde de uma caixa personalizada. Ruth suspirou, limpando o suor da testa com as costas da mão, mas manteve o sorriso no rosto ao ver o corte perfeito do papel. Aquele pequeno espaço de três por quatro metros, roubado da garagem da família, era o seu império. O seu orgulho. Ali, naquele pequeno espaço, ela se sentia feliz, ela podia ser ela mesma, sorrir, cantar, dançar, e por alguns minutos que fosse.... ser feliz!
— Ruth! Ô, Ruth! — a voz de Dona Maria cortou o ar, vinda da cozinha, carregada daquela irritação de sempre. — Deixa essa besteira de papel de lado e vai no mercado! A Ana veio almoçar e precisa levar as coisas do menino. E vê se me passa cinquenta reais para o leite, que o dinheiro do seu padrasto sumiu junto com ele há anos e você sabe muito bem disso! Ruth fechou os olhos por um segundo. A tristeza que guardava no olhar aprofundou-se, mas ela não respondeu com grosseria. Nunca respondia. — Já vou, mãe! Só preciso terminar de rodar esse pedido — respondeu, mantendo a doçura na voz, embora o coração estivesse apertado. Ana, a irmã mais nova de vinte anos, apareceu na porta da garagem com o bebê de três anos no colo. Tinha ido morar com o pai da criança, mas passava mais tempo ali, sugando o pouco que Ruth conseguia produzir. — Ruth, faz uns cartões de visita pro meu marido também? Ele tá querendo começar a vender umas coisas. Faz de graça, né? Afinal, é pro seu cunhado. E capricha viu, quero que fique perfeito! — Pediu Ana, com a habitual chantagem emocional disfarçada de intimidade. Ruth apenas assentiu com a cabeça, sentindo o peso invisível que a impedia de enxergar o óbvio: ela precisava pegar suas poucas coisas, sua impressora parcelada e ir embora dali. Mas a fé de que as coisas mudariam e a lealdade àquela família tóxica a mantinham presa. Apesar de tudo, ela tinha esperança, que um dia todos ali a reconheceriam, por todo o esforço que sempre fez. Do outro lado da cidade, no trigésimo andar de uma torre espelhada no bairro mais nobre da capital, o clima era de guerra. Heitor, aos trinta e três anos, ajustava o paletó sob medida diante da parede de vidro que exibia a imensidão da cidade aos seus pés. Ele era o CEO de uma empresa de tecnologia em ascensão, um império construído do absoluto zero com suor, noites em claro e uma desconfiança crônica. Desde o acidente de carro que tirou a vida de seus pais quando ele era criança, Heitor aprendeu que o mundo não perdoava os fracos. Fora criado pela babá, a única pessoa em quem realmente confiava. O resto do mundo? Apenas bajuladores e oportunistas de olho no seu carro importado e na sua conta bancária. Para sobreviver e manter o respeito no mercado, Heitor moldou uma casca. Tornara-se um homem rude, arrogante, implacável. A porta da sua sala abriu-se e Paula, sua secretária executiva, entrou pálida, segurando uma pasta.— Senhor Heitor... o fornecedor dos mimos corporativos para o evento de amanhã à noite... — a voz dela falhou.
— Eles enviaram o lote com o logotipo antigo. E o acabamento das caixas está descolando.
São duzentos empresários internacionais, a nata da sociedade...Heitor virou-se lentamente. Seus olhos faiscaram. Ele deu dois passos em direção à mesa, apoiando as mãos no mogno polido.— Você está me dizendo que o evento mais importante da década nesta empresa vai ser arruinado por incompetência?
— a voz dele não se elevou, mas o tom cortante fez Paula dar um passo atrás.
— Eu não quero desculpas, Paula. Eu quero o material impecável na minha mesa amanhã cedo. Se aqueles investidores não receberem o padrão que eu exijo, você pode passar direto no departamento pessoal. Saia da minha sala! Paula saiu correndo, as lágrimas já inundando os olhos. Ela desabou no corredor de serviço, encostando-se na parede da copa, sem saber como resolver um milagre em menos de vinte e quatro horas. Lúcia, a funcionária da limpeza que recolhia os descartes da copa, parou o carrinho ao ver o desespero da secretária. Lúcia morava na periferia, na mesma rua de Ruth, e conhecia bem a dor de um dia difícil.
— Dona Paula... desculpa me meter na conversa de vocês — disse Lúcia, com o respeito de quem conhece seu lugar, mas a firmeza de quem sabe o que diz.
— Mas eu ouvi o problema. Tem uma menina lá na minha rua, a Ruth. Ela começou a trabalhar desde os doze anos, vendeu de tudo nessa vida e agora abriu uma papelaria na garagem dela. Mês passado, ela fez os mimos do aniversário da minha filha. Uma perfeição que dá gosto de ver. Ela é muito caprichosa e trabalha dia e noite. Se a senhora quiser, eu tenho o telefone dela aqui.
Paula olhou para o celular simples de Lúcia, que exibia fotos de caixas de papel perfeitamente alinhadas, com laços de cetim impecáveis. Era uma loucura. Confiar o evento de um império a uma papelaria de garagem na periferia era um risco absurdo. Mas o olhar furioso de Heitor ainda queimava em sua mente. Ela não tinha escolha.— Me passa o número, Lúcia. Agora, por favor. Na garagem barulhenta, o celular de Ruth começou a tocar sobre a mesa cheia de retalhos de papel e fitas. Ela atendeu o aparelho com a mão esquerda, enquanto com a direita tentava alinhar uma régua.
— Papelaria Encantos da Ruth, boa tarde! Como posso ajudar?
— A voz dela saiu doce, acolhedora e incrivelmente profissional, escondendo completamente o grito que Dona Maria acabara de dar da sala por causa de um pote de açúcar.— Ruth? Meu nome é Paula, sou secretária da presidência da H.V.Tech Company, e gostaria de contratar os seus serviços....
O destino de dois mundos completamente diferentes acabara de se cruzar através de uma linha telefônica. Ruth ainda não sabia, mas tudo em sua vida estava prestes a mudar, apesar de ainda ter que passar por um turbilhão de frustrações e emoções...Ruth respirou fundo, forçando o ar a entrar nos pulmões para acalmar os batimentos cardíacos. Terminou de lavar a louça em silêncio e decidiu sair; precisava caminhar e comprar algumas coisas. Queria fazer uma surpresa especial para Heitor, mas as palavras venenosas de Carmen ecoaram em seu pensamento pelo resto do dia, como uma sombra persistente.Enquanto isso, no escritório da empresa, o clima era puramente profissional. Heitor havia contratado Daniela como estagiária. Ao receber a notícia, a prima, fingindo uma gratidão excessiva, avançou e o abraçou com firmeza. Heitor, no entanto, estava em seu habitat natural. Com os olhos faiscando, ele a afastou com fúria:— Comporte-se, Daniela! Aqui é um ambiente profissional, aja como tal.— Ah, tá certo... — murmurou ela, retraindo-se com um biquinho ensaiado. — Eu só estou muito feliz e agradecida.— Me agradeça mostrando serviço — rebateu Heitor, frio e cortante.O resto do dia passou voando. Ruth retornou à mansão quase ao mesmo tempo
A manhã seguinte àquela noite maravilhosa começou com o choque da realidade assim que Ruth e Heitor cruzaram a porta da mansão. Na sala, Carmen e Daniela já os aguardavam de braços cruzados, a impaciência estampada nos rostos.— Heitor, onde estava? — disparou Carmen, a voz ríspida. — A Dani já está arrumada há horas!— Vou tomar um banho rápido e desço em um minuto. Vem, amor — respondeu Heitor, ignorando a cobrança.Ele segurou a mão de Ruth e a puxou em direção às escadas, deixando as duas mulheres bufando de ódio na sala. Já no quarto, Heitor soltou um suspiro pesado e resmungou, passando a mão pelo rosto:— Por um momento, eu tinha esquecido essas duas... Vou tomar um banho.Enquanto a água do chuveiro corria, Ruth ficou pensativa, sentada na beira da cama. Uma angústia apertava seu peito; ela não estava gostando nada daquela aproximação forçada de Daniela na rotina de trabalho do noivo. Quando Heitor saiu do banheiro e começou a se arrumar, percebeu o semblante abatido dela.— O
O carro de Heitor cortava as ruas em direção à periferia, mas o trajeto foi interrompido quando ele estacionou em frente a uma grande loja de brinquedos. Ao voltar para o veículo, trazia nos braços uma bola reluzente para Gael. Ruth sorriu, tocada pelo gesto espontâneo.— Você é maravilhoso, amor. Obrigada por pensar nele — elogiou ela, com os olhos brilhando.Ao estacionarem em frente à humilde casa, o pequeno Gael correu ao encontro deles. Um grande sorriso de surpresa iluminou o rosto do menino ao receber o presente das mãos de Heitor. A gritaria alegre da criança logo atraiu Maria e Ana para a calçada.Maria aproximou-se com passos lentos, os olhos avaliando o carro e as roupas do casal antes mesmo de saudar a filha.— Bem-vindos! Olha, finalmente lembrou-se da família — disparou Maria, com a voz carregada de sarcasmo. — Estou vendo que estão muito bem, né?— Sim, mãe, estamos ótimos. E como estão as coisas por aqui? — perguntou Ruth, tentando manter a leveza.— Ah, minha filha, c
Horas depois, Ruth e Heitor finalmente cruzaram a porta do quarto. O clima de romance e cumplicidade que os envolvia, no entanto, balançou assim que os pés de Ruth tocaram o topo da escada de mármore.Na sala de estar, instaladas confortavelmente como se fossem as verdadeiras donas da casa, Carmen e Daniela folheavam algumas revistas de grife e cochichavam com os rostos colados.Aproveitando que Heitor se distraiu por um momento olhando o celular para checar as mensagens de trabalho, Ruth apressou o passo de mansinho. Ela seguiu direto pelo corredor em direção à cozinha, buscando o acolhimento e o respiro de que tanto precisava.— Dulce, você precisa de uma ajuda por aqui? — perguntou Ruth, aproximando-se com passos leves do balcão onde a governanta organizava as louças.— Ah, não, minha querida! Está tudo sob controle por aqui, não se preocupe — Dulce respondeu, abrindo um sorriso acolhedor, mas o cansaço e o descontentamento em seus olhos eram evidentes. — Vocês dois já vão sair?—












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