MasukO sol da manhã começava a filtrar pelas frestas das cortinas do chalé quando batidas firmes, mas discretas, ecoaram na porta. Heitor, que já estava de pé e devidamente vestido, caminhou a passos leves para não acordar a esposa caso ela ainda estivesse dormindo. Ao abrir a porta, deparou-se com um funcionário da pousada segurando uma bandeja colossal, transbordando com o que havia de melhor na cozinha.— Bom dia, senhor Heitor. O café da manhã da dona Ruth — anunciou o rapaz, com visível zelo.— Bom dia. Por favor, monte tudo na varanda — pediu Heitor, indicando o espaço externo que dava para o jardim. — Queremos tomar o café aproveitando a vista.O movimento e o som baixo das vozes despertaram Ruth. Ela se espreguiçou na cama, sentindo o corpo bem mais leve do que nos dias anteriores. Sentando-se no colchão, sorriu ao ver o marido na porta da varanda.— Bom dia, amor — disse ela, com a voz ainda um pouco arrastada pelo sono.Heitor virou-se imediatamente, com o semblante iluminado ao
Carlos engoliu em seco, olhando de Heitor para Ruth, sentindo o chão sumir sob os seus pés. Ele tentou ajeitar a postura, buscando uma última linha de defesa para não perder totalmente a pose.— Senhor Heitor, eu... estava aqui conversando com ela e, sabe, acho que ela não entendeu — gaguejou o gerente, forçando um sorriso nervoso. — Eu gerencio esse lugar há anos.Heitor deu mais um passo à frente, cruzando os braços. A sua presença imponente parecia diminuir o tamanho daquela sala. O olhar dele era puro gelo.— Acho que você é quem não entendeu, Carlos — rebateu Heitor, com a voz pausada e firme. — A pousada é dela. Você é apenas um funcionário. Um funcionário que eu pensei que fosse mais esperto. Porque, pelo que vi, minha esposa falou tudo com clareza. E sim, eu estarei presente sempre que ela precisar, mas a última palavra é sempre a dela. Caso você queira continuar aqui, terá que respeitá-la, obedecer à sua chefe e fazer o seu trabalho impecavelmente bem feito.Carlos olhou para
Heitor e Ruth saíram da sala da presidência caminhando lado a lado, e a atmosfera pesada que costumava rondar o andar da diretoria simplesmente desapareceu, dando lugar a sorrisos sinceros. Ao passarem pela recepção, Heitor parou em frente à mesa da secretária com uma leveza inédita.— Desmarque todos os meus compromissos da tarde, Paula — ordenou ele, o tom de voz suave. — E ligue para a Dulce. Diga a ela que não se preocupe, pois nós não temos hora para chegar em casa hoje.— Sim, senhor! — respondeu Paula, abrindo um sorriso cúmplice.Ao chegarem perto dos elevadores, Heitor avistou o motorista que aguardava pacientemente.— Eduardo, você está dispensado por hoje. Daqui para frente eu cuido da minha esposa. Leve o carro dela de volta para a mansão e vá descansar.— Sim, senhor. Muito obrigado — agradeceu Eduardo, fazendo um aceno respeitoso para Ruth.— Vamos, meu amor? — perguntou Heitor, sorrindo e estendendo a mão para a esposa.— Sim — consentiu Ruth, encaixando seus dedos nos
— É meu. O capuccino é meu — disse Ruth, girando calmamente a cadeira de couro e encarando o marido com um meio sorriso.Paula quase infartou no meio da sala, prendendo a respiração. A expressão ríspida e imponente de Heitor desmoronou em uma fração de segundo. Os olhos dele se arregalaram, as pastas quase escorregaram de suas mãos e o choque deu lugar a uma emoção pura e avassaladora.— Ruth?! Amor... O que você está fazendo aqui? — gaguejou ele, completamente desarmado. Ele olhou rapidamente para a secretária, com o coração disparado. — Paula, por que você não me chamou imediatamente na sala de reuniões?— É que... — Paula tentou se justificar, com os olhos arregalados. Ela disse... eu pensei que.... — Eu que não deixei, Heitor — interrompeu Ruth, com a voz mansa, mas firme. — Eu queria te fazer uma surpresa.Um sorriso largo e iluminado, que há um tempo não visitava o rosto de Heitor, brotou em seus lábios. Ele caminhou a passos rápidos até ela, curvando-se para lhe dar um breve,
O peso no coração e na alma parecia não dar trégua para Ruth. Era a dor dilacerante do luto de uma família viva. Naquela noite, Heitor chegou mais tarde em casa, com o semblante exausto e visivelmente estressado pela rotina pesada. Ao entrar no quarto e ver Ruth ainda deitada na penumbra, o cansaço acumulado dele transbordou em frustração.— Ruth, você já comeu? — perguntou ele, a voz firme. — Vamos dar uma volta na praça?— Hoje não — respondeu ela, encolhendo-se. Heitor olhou ao redor, os olhos cansados absorvendo o ambiente.— Ruth, você precisa levantar, sair desse quarto! Olha pra mim!Com um esforço doloroso, Ruth sentou-se na cama. Ela estava visivelmente debilitada: os cabelos desgrenhados, olheiras profundas marcando o rosto pálido. Embora passasse o dia deitada, o sono nunca era completo. Ela acordava várias vezes no sobressalto de alucinações terríveis; muitas vezes ouvia a voz de Maria chamando seu nome no vazio e despertava apavorada. Mas guardava o pavor para si. Não qu
O tempo lá fora continuava a correr, mas dentro do quarto de Ruth o relógio parecia ter parado completamente. A mensagem deixada por Ana na barra de notificações foi o último eco do mundo exterior. Depois daquilo, o silêncio se instalou. Ninguém mais a procurou. A mãe e a irmã sumiram, e Ruth também não procurou ninguém. O cordão que a ligava à periferia havia sido cortado de forma abrupta, deixando em seu lugar uma ferida aberta e purulenta.Quase um mês se passou daquela mesma maneira. Trinta dias em que a vida de Ruth se resumiu ao espaço retangular daquela cama. Ela passava as manhãs e as tardes mergulhada em uma sonolência pesada, um desânimo que parecia anestesiar seus músculos. Levantar-se requeria uma energia que ela simplesmente não possuía. O dia passava arrastado sob o olhar impotente e penalizado de Dulce, que subia as escadas com bandejas intocadas. Ruth passou muitos dias sem comer quase nada. A falta de nutrientes começou a cobrar o seu preço físico: às vezes, ao tentar







