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Capítulo 4

Author: Ana Bela
Na manhã seguinte, Gael foi me buscar no hospital.

Ele provavelmente não havia dormido a noite inteira. Os olhos estavam vermelhos, marcados pelo cansaço. Assim que se sentou, ele olhou primeiro para o frasco do soro:

— O sangramento voltou ontem à noite?

— Voltou.

— Por que você não me avisou?

Eu olhei para ele.

Na noite anterior, eu tinha ligado para ele. O celular tocou apenas duas vezes antes que ele recusasse a chamada.

Mais tarde, Danilo me contou que Milena tinha chorado sem parar enquanto tratavam o ferimento dela, e que Gael estava lá dentro, acompanhando-a. Segundo ele, Gael não podia atender naquele momento.

— Eu fiquei com medo de incomodar você. — Respondi.

Gael ficou em silêncio por um instante.

Talvez ele também tivesse se lembrado daquela ligação.

Então ele estendeu os braços e me puxou para junto dele:

— A Milena cortou a mão em um pedaço de cristal. Ela precisou levar dois pontos. Desde pequena, sempre teve muito medo de sentir dor. E não havia mais ninguém com ela. Eu não podia simplesmente deixá-la sozinha.

Eu respondi baixinho:

— Entendo.

— Sobre a pulseira, eu sei que você ficou magoada. — Ele fez uma pausa, e a voz dele baixou um pouco. — Naquela época, fui eu quem brigou com ela por orgulho. Depois, ela foi embora do país. Eu segui em frente nesses sete anos, mas ela nunca mais voltou. Dora, eu tenho uma dívida com ela.

Eu fiquei encostada no peito dele, ouvindo as batidas tranquilas do coração dele.

Então era isso.

Ele sempre se lembrava do que devia a Milena.

Por isso, quando ela voltou ao país, ele lhe deu um cargo, conteve os boatos por ela e a carregou primeiro para fora do incêndio.

Eu também já tinha uma dívida com ele.

Quando minha mãe ficou gravemente doente, eu me ajoelhei diante da caixa de pagamento e implorei ao médico que esperasse mais um dia.

Foi Gael quem me levantou do chão e me entregou o cartão bancário para que eu pagasse a conta do hospital.

Mais tarde, quando ele foi afastado do círculo de poder da família Loureiro, eu o acompanhei no escritório apertado, dividindo marmitas baratas com ele e organizando documentos até o amanhecer.

Em eventos de negócios, quando alguém tentava fazê-lo beber de propósito, eu ficava na frente dele. Cheguei a beber até sofrer uma hemorragia gástrica só para impedir que ele continuasse bebendo.

Naquela época, eu sempre achava que ele tinha me dado demais e que tudo o que eu fazia ainda era pouco.

Só depois que aquele incêndio levou meu filho embora foi que eu finalmente tive coragem de admitir:

"Durante esses sete anos, eu nunca recebi a bondade dele sem dar nada em troca."

Eu já havia quitado minha dívida.

Gael percebeu que eu estava distante e tocou meu rosto:

— Quando você estiver um pouco melhor, eu vou levar você para passar um tempo no sul. Além disso, você sempre quis ver o mar, não quis?

Eu olhei para o rosto dele, tão perto do meu, e meus olhos arderam de repente.

No segundo ano de casamento, ele também prometeu me levar para ver o mar.

Antes da viagem, a Loureiro Participações sofreu uma grave crise de liquidez.

Naquela noite, Gael ficou recostado no sofá do escritório e, pela primeira vez, seus olhos ficaram vermelhos diante de mim.

"Dora, eu talvez perca tudo."

Eu cancelei as duas passagens e transferi todas as minhas economias para a conta dele.

"Tudo bem. Eu ajudo você a conquistar tudo de novo."

Mais tarde, quando a Loureiro Participações se estabilizou, ele me abraçou e disse que, quando sua posição estivesse segura, compensaria aquela viagem.

Eu esperei por cinco anos.

Agora, ele finalmente se lembrava. Mas eu já não queria ir.

— Está bem.

Mesmo assim, eu concordei como antes.

Ele sorriu de leve e se inclinou para beijar minha testa:

— Durma. Eu vou ficar com você.

Naquela noite, algo raro aconteceu: ele não foi embora.

Eu ouvi a respiração dele e permaneci de olhos abertos até o amanhecer.

Depois que recebi alta, não voltei a falar sobre o incêndio nem fiz perguntas sobre Milena.

Entreguei ao advogado as joias, os imóveis e as ações que Gael havia me dado e pedi que ele cuidasse de tudo.

Quando a empregada Iva viu a penteadeira meio vazia, não conseguiu conter a pergunta:

— Senhora, por que a senhora está guardando essas coisas?

— Eu não gosto mais desses modelos.

Ela não desconfiou de nada.

Todos sabiam que Gael havia me mimado por sete anos. Todos tinham certeza de que eu jamais abriria mão do título de Sra. Loureiro, muito menos do conforto que aquela vida me proporcionava.

Mas todos se esqueceram de uma coisa.

Quando entrei na família Loureiro sete anos antes, eu tinha apenas uma mala velha.

Dentro dela havia duas trocas de roupa, a foto da minha mãe e um comprovante de pagamento de trezentos e setenta mil.

Agora que eu ia embora, uma única mala ainda era suficiente para carregar tudo o que me pertencia.

No dia da minha partida, Gael foi para a cidade vizinha.

O projeto assumido por Milena havia dado problema. Alguns diretores se recusavam a assinar os documentos, e ele foi pessoalmente ajudá-la a contornar a situação e convencê-los a assinar.

Pela manhã, ele me enviou uma mensagem:

[Eu volto assim que resolver isso.]

[À noite, nós dois vamos jantar juntos.]

O tom era o mesmo de sempre.

Ele provavelmente pensava que eu continuaria como nos últimos sete anos, esperando por ele em casa, com as luzes acesas.

Mas, daquela vez, eu não respondi.

Quando o anúncio do aeroporto ecoou, entreguei o acordo de divórcio ao advogado:

— Entregue a ele depois que o avião decolar.

O advogado olhou para os documentos patrimoniais:

— A senhora realmente não quer a casa, as ações nem as joias?

— Não quero.

— Isso seria suficiente para garantir o conforto da senhora pelo resto da vida.

Eu baixei os olhos para minha mão.

Ali, onde a aliança de casamento havia ficado por sete anos, restava apenas uma marca clara na pele.

— Se eu aceitar essas coisas, vou continuar sentindo que tenho uma dívida com ele. Assim, está tudo certo.

Quando o avião atravessou as nuvens, as luzes de Zair começaram a ficar cada vez menores lá embaixo.

Sete anos antes, eu saí de um porão e entrei na família Loureiro. Na primeira noite, ao deitar em uma cama tão macia, eu passei horas sem coragem de me mexer.

Gael riu da minha falta de jeito e me puxou, cobertor e tudo, para dentro dos braços dele.

Ele disse:

"Dora, esta é a sua casa."

Depois disso, eu aprendi a usar vestidos de gala, a beber vinho tinto e a sorrir enquanto lidava com as pessoas da família Loureiro que me desprezavam.

Com o tempo, eles finalmente pararam de me chamar de "garota pobre" na minha frente.

E eu quase esqueci que, na verdade, nunca havia pertencido àquele lugar.

Até aquele incêndio.

Quando Gael soltou minha mão e se virou para carregar Milena nos braços, eu finalmente me lembrei.

Na família Loureiro, só quem era escolhido por ele tinha o direito de ficar.

Quanto a mim, ele havia me tirado da miséria por acaso, uma única vez. E cometi o erro de acreditar que ele me escolheria pelo resto da vida.

Aquela cidade me deu os dias mais difíceis da minha vida. Também me deu um lar tão bonito que parecia um sonho.

Agora, meu sonho tinha acabado.

Eu não morri naquele incêndio.

Mas a esposa de Gael ficou presa nele para sempre.

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