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Capítulo 3

Author: Ana Bela
Depois que a declaração foi publicada, todos passaram a elogiar Gael por sua decisão rápida e precisa. Alguns também me elogiavam por ter agido com maturidade, como se esperava da Sra. Loureiro.

Para abafar de vez os boatos, Hebe organizou um jantar da família. Antes do evento, ela fez questão de me avisar:

— Esta noite, os mais velhos da família Loureiro estarão presentes. Não fique com essa cara fechada. A Milena levou um susto enorme. Se ela disser alguma coisa errada, você deve relevar.

Eu assenti:

— Eu sei.

Gael escolheu para mim um vestido longo e folgado:

— Você ainda não se recuperou completamente. Só precisa aparecer no jantar e depois voltar para descansar.

Depois de dizer isso, ele abriu o porta-joias, pegou um broche de pérola e o prendeu na altura do meu peito.

Aquele tinha sido o presente que ele me dera no nosso primeiro aniversário de casamento.

Na época, a Loureiro Participações passava por uma grave crise de fluxo de caixa, e aquele também havia sido o período em que Gael estava com menos dinheiro. Ele chegou a vender o carro e o relógio.

Eu disse que não queria presente nenhum. Mesmo assim, ele usou o dinheiro da venda do relógio para comprar aquele broche.

"Se as outras têm, minha esposa também precisa ter."

Eu toquei a pérola com os dedos.

Ela ainda estava ali.

Só que o homem que um dia me colocara em primeiro lugar parecia não existir mais.

Quando chegamos à casa da família Loureiro, Milena estava conversando com Helena Loureiro, a avó de Gael.

No pulso, Milena usava a pulseira de cristal da família Loureiro.

No ano em que passei a fazer parte daquela família, Helena disse que a pulseira deveria ser usada pela atual Sra. Loureiro.

Mas eu era a esposa de Gael havia sete anos e nunca sequer havia tocado naquela pulseira.

Hebe sorriu e explicou:

— A Milena está de vestido de gala hoje. Eu emprestei a pulseira para ela usar um pouco.

Milena ergueu a mão:

— Dora, você não se importa, não é?

Eu balancei a cabeça:

— Eu não me importo.

Ela sorriu com ainda mais doçura:

— É verdade. Você nunca usou esta pulseira antes. Acho que você nem gosta dela.

Gael franziu a testa, mas disse apenas:

— Vamos jantar.

Durante o jantar, Helena perguntou sobre o projeto da zona oeste.

Gael só havia conseguido fechar aquele negócio depois de passar meio ano trabalhando até altas horas com a minha ajuda, justamente na fase mais difícil de sua carreira.

Para fazer um diretor idoso de uma empresa parceira mudar de ideia e aprovar o projeto, eu esperei quatro horas por ele debaixo da neve. Quando voltei, estava com febre alta.

Gael me abraçou naquela noite e repetiu várias vezes:

"Dora, quando eu tiver o poder nas mãos, eu nunca mais vou deixar você implorar a ninguém."

Mas agora a nova responsável pelo projeto era Milena.

Ela estava sentada ao lado de Gael, falando com desenvoltura sobre as conquistas que eu o havia ajudado a alcançar.

Os mais velhos da família Loureiro a elogiaram sem parar:

— Milena sempre foi impressionante.

— A origem e a visão dela combinam perfeitamente com Gael.

Hebe acrescentou, em tom indiferente:

— Há coisas que esforço nenhum ensina depois.

Por baixo da mesa, Gael apertou minha mão. Era o mesmo gesto de antes, quando alguém da família tentava me constranger e ele segurava minha mão para me confortar.

Eu ainda sentia uma dor surda quando Milena soltou um grito de surpresa:

— Como a pulseira rachou?

Havia uma linha fina atravessando a pulseira de cristal.

Ela me olhou às pressas:

— Dora, agora há pouco você segurou minha mão...

Todos os olhares caíram sobre mim.

Hebe largou os talheres com força:

— Mesmo que você esteja irritada porque emprestei a pulseira para Milena, você não tinha o direito de destruí-la!

— Eu não toquei na pulseira.

— Se não foi você, quem foi? — Hebe gritou.

Milena tentou intervir depressa:

— Tia Hebe, por favor, não fique brava. A Dora acabou de perder o bebê. É normal que ela não esteja bem emocionalmente.

Aquilo parecia uma defesa. Na verdade, só fazia parecer que eu tinha atacado Milena por ciúme e não estava em condições de controlar minhas emoções.

Eu olhei para Gael. Ele franziu a testa, parecendo exausto:

— Dora, peça desculpas à minha avó primeiro.

— Não fui eu.

— A Milena não teria motivo para colocar o próprio pulso em risco.

De repente, eu me lembrei de muitos anos antes.

Um cliente da boate onde eu trabalhava me acusou de ter roubado o relógio dele.

Todos queriam revistar meu corpo.

Gael me colocou atrás dele e passou seis horas inteiras verificando as câmeras de segurança. No fim, obrigou aquele homem a se ajoelhar e me pedir desculpas.

Ele disse:

"Dora está comigo agora. Ela não vai suportar uma acusação dessas."

Mas, dessa vez, ele não investigou nada.

Talvez porque, no coração dele, Milena também não pudesse suportar uma acusação injusta.

Eu, por outro lado, já estava acostumada.

Hebe insistiu com frieza:

— O que você ainda está esperando?

Eu olhei para Gael.

Ele não desviou os olhos, mas também não veio para o meu lado.

Eu me levantei devagar e abaixei a cabeça diante de Helena:

— Eu sinto muito. Eu estraguei seu jantar da família.

A expressão de Gael suavizou:

— Dora sempre foi sensata. Este assunto acaba aqui.

Ele acompanhou Milena para que cuidassem do ferimento no pulso dela.

E não percebeu que, quando eu me levantei, uma mancha vermelho-escura já se espalhava sob a barra do meu vestido.

Na volta para casa, uma dor lancinante tomou conta do meu ventre.

Eu me curvei, enquanto o suor frio escorria pelo meu rosto.

O motorista viu meu rosto pelo retrovisor, se assustou e imediatamente mudou o caminho e me levou direto para o hospital.

O médico estancou o sangramento e falou comigo em tom severo:

— A senhora acabou de passar por uma cirurgia e ficou tanto tempo em pé. Não tem o menor cuidado com a própria saúde?

Eu estava deitada na cama do hospital, com tanta dor que não conseguia falar.

Gael apenas pediu que Danilo me transmitisse uma mensagem.

O ferimento de Milena havia infeccionado. Ele não viria naquela noite.

Do lado de fora da janela, as luzes se apagaram uma a uma.

Eu abri o acordo de divórcio enviado pelo advogado e assinei meu nome na última página.

Minha partida ficou marcada para dali a sete dias.

Aquele dia seria o aniversário da morte da minha mãe.

Sete anos antes, Gael gastou trezentos e setenta mil para dar à minha mãe mais meio ano de vida.

Agora, eu o havia acompanhado pelos sete anos mais difíceis da vida dele.

E também havia deixado um filho no céu. Eu já havia quitado minha dívida de gratidão com ele.

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