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CAPÍTULO 3

Author: Alyssa J
Afastei os três lobos renegados com tudo o que ainda me restava de força e então desmaiei por causa do envenenamento por prata.

Quando abri os olhos novamente, estava no centro de cura.

Meu corpo parecia ter sido desmontado e remontado da pior forma possível. A prata ainda circulava pelo meu sangue, e a sensação de queimadura se espalhava do meu ombro para o restante dos membros.

A porta se abriu.

Passos se aproximaram, acompanhados daquele familiar aroma de cedro.

Kieran.

Ele caminhou até a beira da cama segurando um delicado frasco de cristal.

— Erva do luar. Para envenenamento por prata.

Continuei encarando o teto.

Nem sequer olhei para ele.

— Deixe-me trocar seus curativos.

Ele deu um passo para mais perto.

Afastei-me bruscamente, torcendo o corpo para evitar sua mão.

O movimento foi rápido demais.

A ferida em meu ombro se abriu novamente com uma dor lancinante.

Mordi o interior da bochecha e ri friamente.

— O que está fazendo aqui? Veio verificar como está uma loba renegada?

Os olhos de Kieran escureceram. As íris azul-gelo permaneceram fixas em mim.

— Se eu não vier ver você...

Ele fez uma pausa.

— Quem mais virá?

Aquilo doeu mais do que qualquer ferimento.

Atravessou-me completamente.

Porque ele estava certo.

Minha mãe morreu protegendo meu pai na fronteira.

Meu pai trouxe para casa sua amante e a filha bastarda dela.

Aquele lugar chamado lar havia deixado de me pertencer há muito tempo.

Foi Kieran quem me deu a ilusão.

Dois anos me fazendo acreditar que eu ainda tinha alguém.

Que eu podia me apoiar nele.

Até a noite passada, quando ele foi embora ao lado de Melody.

Até o momento em que me chamou de uma loba renegada que não tinha nada a ver com ele.

Forcei meu orgulho a permanecer de pé e transformei meus lábios em algo parecido com um sorriso.

— Não faltam Alfas jovens e fortes fazendo fila para me visitar.

Sustentei seu olhar.

— Kieran, o que eu disse ontem sobre ter sentimentos por você... eu estava apenas entrando na brincadeira. Você realmente achou que eu gostava de você? Você era conveniente. Agora eu me cansei. Acabou.

Tentei parecer feroz.

Tentei fazer meu sorriso ser afiado o suficiente para machucar.

Mas meus olhos já estavam vermelhos.

Kieran me observou por um longo momento.

Sua expressão esfriou pouco a pouco.

— É mesmo?

Uma enfermeira bateu na porta e entrou.

— Alfa, a senhorita Melody está lá fora procurando por você.

— Vá ficar com seu verdadeiro amor!

As palavras saíram mais altas do que eu pretendia.

— Saia da minha frente!

Kieran permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Eu vim porque Emily me pediu para verificar como você estava.

Disse aquilo e virou-se para sair.

Eu ri.

Ri até meu corpo inteiro tremer.

Ri até as lágrimas aparecerem.

— Não se preocupe. Eu não sou iludida o bastante para pensar o contrário.

Kieran parou na porta.

Franziu a testa e olhou para trás.

Foi a primeira vez que ele me viu chorar diante dele.

Pareceu querer dizer alguma coisa.

Seus lábios se moveram.

Mas, no fim, nenhuma palavra saiu.

A porta se fechou.

Afundei novamente na cama do hospital.

As lágrimas escorreram silenciosamente.

Por muito tempo.

Até meus olhos ficarem secos, ardendo, e não restar mais nada.

Nos dias que se seguiram, troquei meus próprios curativos.

As queimaduras causadas pela prata me faziam suar de dor.

Cerrei os dentes enquanto limpava a ferida sozinha.

Aplicava a erva do luar.

Cheguei perto de desmaiar mais de uma vez.

Mas não pedi ajuda.

À noite, quando não conseguia dormir, ficava mexendo no celular.

De alguma forma, sempre acabava nas redes sociais de Melody.

Fotos cuidadosamente planejadas.

Kieran descascando maçãs para ela.

Kieran preparando seu café da manhã.

Melody apoiada suavemente em seu ombro.

A legenda dizia:

"O melhor Alfa oferece a você toda a ternura do mundo."

Fiquei olhando aquelas fotos até meu peito doer em ondas.

Mas não chorei.

Disse a mim mesma que nunca mais derramaria uma lágrima por Kieran Frost.

Uma semana depois, recebi alta.

O envenenamento por prata estava praticamente curado, mas a cicatriz em meu ombro permanecia.

Como uma marca.

Uma lembrança do quão estúpida eu tinha sido.

Fui até a fronteira do território e bati à porta da bruxa.

— Preciso de uma poção. Uma que altere o cheiro de um lobo e rompa todos os laços de sangue.

A bruxa me observou com os olhos arregalados.

— Tem certeza? Depois que beber isso, não haverá volta. Seu vínculo com a alcateia será rompido. Suas conexões de sangue desaparecerão. Até mesmo o cheiro da sua loba mudará. O efeito leva duas semanas para se completar, e não existe antídoto.

Não hesitei.

Inclinei a cabeça para trás e bebi tudo de uma vez.

Era amarga.

Amarga como todas as lágrimas que já engoli.

Restavam duas semanas.

Minha família.

Kieran.

Eu não queria mais nada disso.

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