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04 - A CASA DAS LEMBRANÇAS

Author: Aurora Grace
last update publish date: 2026-07-11 13:38:01

(Valentina)

A água daquele chuveiro me prendeu por mais tempo em minhas lembranças do que eu gostaria.

Quando saí, voltei para a minha nova realidade.

Vasculhei meu novo closet, coloquei um pijama confortável e me entreguei ao cansaço daquele longo dia.

Na manhã seguinte, acordei cedo.

Me vesti para trabalhar. Afinal, eu tinha uma dívida enorme para pagar. Não podia me dar ao luxo de virar uma madame da alta sociedade. Precisava retomar meu trabalho e salvar minha empresa.

Quando saí do quarto, olhei ao redor.

Aquela parte da mansão eu lembrava muito bem.

Apesar das modificações, sempre foi a ala de Dominic e da Bia. Quando fui levada para o quarto na noite anterior, estava cega de raiva e nem reparei onde estávamos.

Se bem me lembro, onde hoje fica o quarto compartilhado existia uma sala de jogos. Nas laterais sempre foram os quartos de hóspedes. Em frente ao meu quarto era, ou ainda é, o quarto da Bia. Do outro lado... o dele.

Engraçado como uma casa consegue guardar lembranças.

Cada corredor parecia sussurrar um pedaço da minha juventude.

Desci as escadas e fui em direção à grande cozinha da mansão, que ficava ao lado do enorme salão que dividia as alas de Dominic e Augusto.

Antes mesmo de chegar lá, meus olhos pararam na piscina.

Na mesma hora, uma lembrança tomou conta de mim.

— Quando terminarmos a faculdade, vamos abrir nossa empresa. — dizia Bia, toda animada.

— Claro... como se o seu pai fosse deixar você escapar da empresa da família. — Ana respondeu, implicando com ela.

— Vai sim. A empresa é do Dom. Ainda bem. Eu quero construir algo meu... algo nosso, meninas.

Ela virou para mim.

— E você, Tina? Está tão calada. Desistiu do nosso sonho?

Sorri e balancei a cabeça.

— Nunca. Esse projeto é nosso. Vamos montar nossa empresa juntas.

Abracei as duas.

Éramos um trio inseparável.

Tínhamos sonhos, planos e a arrogância típica de quem acredita que o mundo inteiro está esperando por nós.

Naquela época, o futuro parecia simples.

Bastava terminar a faculdade.

Naquele tempo, eu jamais imaginaria que pisaria naquela casa usando o sobrenome Castellani. Muito menos que cada corredor carregaria lembranças que eu preferia esquecer.

Mas a vida adora rir da cara da gente.

O sorriso daquela lembrança morreu no mesmo instante em que ouvi uma voz atrás de mim.

— Bom dia, senhora Castellani.

Meu corpo inteiro gelou.

Me virei devagar.

Era Levi, o copeiro da noite anterior.

— Bom dia, Levi. Por favor... só Valentina.

O rapaz sorriu discretamente.

— Sim, senhorita.

Em seguida, seguiu em direção ao jardim carregando uma bandeja.

Assim que entrei na cozinha, os funcionários interromperam o que estavam fazendo para me cumprimentar.

— Bom dia, senhora Castellani.

Outra vez, agora em coro.

Não era apenas um sobrenome. Eram anos de lembranças, pessoas que eu amei e uma história que eu nunca imaginei que terminaria assim.

Aquele sobrenome me machucava.

Era como se cada vez que o ouvisse alguém girasse uma faca dentro do meu peito.

Respirei fundo antes de responder.

— Bom dia a todos. Gostaria que me chamassem apenas de Valentina. Senhora Castellani é a esposa do senhor Augusto.

Os funcionários trocaram olhares discretos.

Então um senhor de aproximadamente cinquenta anos deu um passo à frente.

— Sim, senhorita Valentina. Todos compreendemos.

Observei seu rosto por alguns segundos.

Até reconhecê-lo.

— Senhor Carlos... quanto tempo.

Um sorriso discreto apareceu em seu rosto.

— Muitos anos, senhorita. É bom tê-la novamente circulando por esta casa.

O senhor Carlos era o mordomo da família Castellani muito antes de eu conhecer qualquer um deles.

Sempre foi um homem discreto, observador e extremamente respeitado pelos funcionários.

Nunca se metia onde não era chamado.

Mas, se existia alguém que conhecia cada segredo daquela mansão, era ele.

Foi ele quem me conduziu até a sala de jantar.

A mesa do café da manhã ainda estava posta.

Pratos recolhidos.

Xícaras vazias.

Restava apenas uma.

A minha.

— Senhorita, este é o seu lugar à mesa. Ao lado do senhor Dominic.

Assenti em silêncio.

Não fazia sentido reclamar da posição da cadeira quando eu já havia assinado um contrato que me obrigava a dormir debaixo do mesmo teto daquele homem.

— Senhor Carlos, saberia me informar se meu carro já está aqui?

— Ainda não, senhorita. O senhor Dominic designou um motorista para levá-la ao trabalho.

Claro.

Mais uma decisão tomada por ele.

Sem perguntar.

Sem avisar.

Sem dar a mínima para o que eu queria.

Respirei fundo.

Ainda era cedo demais para começar uma guerra.

— Tudo bem. Obrigada.

Peguei um copo de suco, algumas frutas e uma fatia de pão com ovos mexidos.

Enquanto tomava café, abri o tablet para conferir os últimos relatórios da empresa.

Foi então que uma manchete chamou minha atenção.

"O casamento do ano."

Abri a notícia.

Lá estávamos nós.

Sorrindo.

Perfeitos.

Como se fôssemos o casal mais apaixonado do planeta.

Se alguém olhasse aquela fotografia, jamais imaginaria que poucas horas antes eu tinha assinado um contrato vendendo dois anos da minha vida.

Li a reportagem inteira.

Cada linha parecia debochar da minha cara.

A união entre Dominic Castellani, CEO da Corporação Castellani, e Valentina Valença, herdeira e vice-diretora da VV Group, reuniu duas das famílias mais influentes de StoneBridge em uma cerimônia marcada pela elegância e discrição.

Cercados por familiares, amigos próximos e importantes empresários da cidade, o casal celebrou o início de uma nova etapa cercada de carinho e votos de felicidade.

Pessoas próximas afirmam que a história dos dois começou muito antes do altar e foi construída sobre respeito, admiração e uma forte conexão entre as famílias.

Após a cerimônia, os convidados participaram de um elegante coquetel na mansão Castellani, encerrando uma noite que já entrou para a história da alta sociedade de StoneBridge.

Nossa equipe deseja ao casal uma vida longa, próspera e repleta de felicidade.

A imprensa descrevia uma história de amor perfeita.

Eu quase ri ao ler aquilo.

Fechei a notícia imediatamente.

Meu estômago embrulhou.

Conhecia a influência que Dominic tinha sobre aquela revista.

Mas ler uma mentira tão bem escrita me deu ainda mais raiva.

Amor.

Felicidade.

Casal perfeito.

Que piada.

Poucos minutos depois, segui para a empresa com o motorista que já me aguardava na porta da mansão.

O dia passou se arrastando.

Pilhas de papéis tomavam conta da sala de conferências.

Funcionários caminhavam de um lado para o outro carregando caixas, pastas e documentos.

Eu e Ana, minha melhor amiga e braço direito dentro da empresa, revisávamos cada relatório financeiro sem que ela entendesse o motivo daquela verdadeira força-tarefa.

Na verdade...

Ninguém entendia.

No horário do almoço, Ana pediu comida japonesa para nós duas.

Mal consegui tocar no prato, e olha que sushi sempre me anima.

Meu estômago parecia tão revirado quanto aqueles documentos.

E, a cada contrato que eu analisava, as cláusulas do meu próprio casamento insistiam em invadir meus pensamentos.

Raiva.

Ódio.

Humilhação.

Esperança.

Tudo misturado.

No fim daquela tarde, Ana fechou mais uma caixa de documentos e suspirou.

— Tina... dá uma pausa.

Me joguei na cadeira.

— Acho que estou precisando de uma água mesmo.

Peguei o telefone.

— Sabrina, por favor. Dois cappuccinos e duas águas.

Poucos minutos depois, Ana quebrou o silêncio.

— Amiga... me conta o que está acontecendo. Do nada você se casou. Achei até que estivesse grávida e não tivesse me contado.

Sorri sem humor.

— Antes fosse, amiga.

Ela segurou minha mão.

— Tudo bem. Se você não me contou é porque não pode. Mas, quando precisar de mim... eu vou estar aqui pra te ouvir.

Sorri de verdade pela primeira vez naquele dia.

— Obrigada por entender, Aninha. Quando eu puder, prometo que conto tudo. Mas não... eu não estou grávida.

Nesse instante, Sabrina entrou carregando a bandeja.

Colocou os cappuccinos e as águas sobre a mesa.

— Obrigada, Sabrina. Pode me trazer também o registro da copiadora, por gentileza?

— Claro, senhorita.

Ela saiu e voltou poucos minutos depois com uma pasta nas mãos.

— Aqui está. E o senhor Valença pediu que a senhorita vá até a sala dele.

Franzi a testa.

— Sabrina, avise que agora não posso.

— Ele disse que é importante.

Respirei fundo.

Conhecendo meu pai... boa notícia não era.

— Tudo bem. Já estou indo.

Ana se levantou.

— Vai lá. Eu termino por aqui.

— Tudo bem. Já está quase no seu horário. Amanhã continuamos. Acho que essa conversa vai demorar.

— Quando eu sair, deixo as chaves da sala com você.

Balancei a cabeça.

— Não. Fica com elas. Amanhã a gente continua cedo.

Peguei minha bolsa, o celular e o tablet.

Caminhei até a sala da presidência.

Bati duas vezes antes de entrar.

Assim que abri a porta...

Meu coração travou.

Antes mesmo de erguer os olhos, reconheci aquele perfume.

Não podia ser.

Levantei lentamente a cabeça.

Sentado diante da mesa do meu pai, completamente à vontade, estava Dominic Castellani.

Meu estômago embrulhou.

Sempre que aquele homem aparecia sem avisar, minha vida mudava de direção.

E, pela expressão dos dois, eu soube que aquela não seria uma conversa comum.

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