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05 - OUTRA VEZ, DOMINIC

Penulis: Aurora Grace
last update Tanggal publikasi: 2026-07-11 14:03:42

(VALENTINA) 

Meu corpo inteiro travou.

Por alguns segundos, tive a impressão de que estava vendo uma miragem.

Mas não.

Era ele.

Dominic Castellani.

Sentado em uma das poltronas em frente à mesa do meu pai, completamente à vontade, como se aquele lugar também lhe pertencesse.

Vestia um terno escuro impecável, sem uma dobra sequer. A postura era a mesma de sempre. Coluna ereta, mãos apoiadas sobre a perna e aquele olhar frio que parecia enxergar tudo ao redor.

Quando nossos olhos se encontraram, ele apenas fez um leve movimento com a cabeça.

Nem um sorriso.

Nem um "boa tarde".

Como se algumas horas antes nós não tivéssemos nos casado.

Meu pai levantou imediatamente.

— Tina, ainda bem que chegou.

Olhei para Dominic outra vez.

Meu coração acelerou.

O que ele estava fazendo ali?

Minha vida já não era dele pelos próximos dois anos?

O que mais aquele homem queria arrancar de mim?

Entrei na sala tentando esconder o desconforto.

— O senhor queria falar comigo, pai?

Meu pai sorriu.

Um sorriso cansado.

— Sim, querida. Sente-se.

Obedeci.

Mas meus olhos continuavam presos em Dominic.

Ele permanecia em silêncio.

Aquilo sempre me irritou.

Aquele jeito de ficar calado enquanto parecia saber exatamente o que estava acontecendo.

Sempre foi assim.

Desde a faculdade.

Na verdade...

Desde muito antes daquele contrato existir.

A mesma postura. O mesmo silêncio. O mesmo olhar impossível de decifrar. Bastou encará-lo por alguns segundos para minha memória voltar exatamente ao dia em que ele reapareceu na minha vida

Fazia pouco mais de duas semanas que eu havia descoberto o verdadeiro tamanho do problema da empresa.

Sempre trabalhei ao lado do meu pai.

Conhecia praticamente todos os setores.

Ou, pelo menos, era isso que eu acreditava.

Naquela manhã entrei na sala financeira decidida a revisar alguns contratos antigos.

O que encontrei foi muito pior do que esperava.

Notas vencidas.

Empréstimos.

Parcelamentos.

Renegociações.

Duplicatas.

Documentos que nunca passaram pelas minhas mãos.

No começo achei que fosse apenas desorganização.

Depois vieram os números.

E eles não mentiam.

Quanto mais eu lia...

Pior ficava.

Passei os dias seguintes praticamente trancada na sala de conferências. Revirei contratos, balanços, extratos e caixas de documentos procurando um erro que justificasse aqueles números. Não encontrei. Quanto mais eu investigava, mais dívidas e mentiras apareciam.

Naquela tarde invadi a sala do meu pai sem bater.

Joguei uma pasta sobre a mesa.

Os papéis deslizaram até ele.

— O senhor vai me explicar que merda é essa?

Ele levantou os olhos lentamente.

Pela primeira vez em toda a minha vida...

Vi meu pai parecer velho.

Muito velho.

— Fecha a porta, Tina.

Obedeci.

Cruzei os braços.

— Isso tudo é verdade?

Silêncio.

— Pai... responde.

Ele continuou calado.

— A empresa está falindo?

Ele fechou os olhos por alguns segundos.

Depois assentiu.

Senti minhas pernas perderem a força.

— Desde quando?

— Quase um ano.

Meu sangue ferveu.

— Um ano?

Minha voz ecoou pela sala.

— O senhor escondeu isso de mim durante um ano inteiro?

Ele abaixou a cabeça.

— Eu tentei resolver sozinho.

Comecei a andar de um lado para o outro.

Minha respiração pesava.

Meu peito queimava.

— Quantas pessoas sabem?

— Muito poucas.

— Ana?

— Não.

— Isabel?

— Não.

Respirou fundo antes de completar.

— Só eu... o advogado... e aquele maldito contador.

Fechei os olhos.

Vice-diretora da empresa.

Filha do dono.

E era a última a descobrir que tudo estava afundando.

Sentei na cadeira.

Passei a mão no rosto.

Demorei alguns segundos para conseguir perguntar.

— Quanto?

Meu pai empurrou outra pasta na minha direção.

Abri.

Li uma página.

Depois outra.

Mais uma.

Meu estômago virou.

Era muito pior do que eu imaginava.

Muito pior.

— Não existe saída...

Foi a única frase que consegui dizer.

Meu pai não respondeu.

Naquele instante alguém bateu na porta.

Três batidas secas.

Meu pai respirou fundo.

Olhou para mim.

Depois para a porta.

— Pode entrar.

A maçaneta girou lentamente.

Meu pai sequer precisou dizer quem era. Assim que a porta se abriu e a figura daquele homem surgiu no vão da porta, senti meu estômago afundar.

Dominic Castellani acabava de entrar novamente na minha vida

— Filha...

A voz do meu pai me arrancou daquela lembrança.

Pisquiei algumas vezes.

Dominic continuava sentado exatamente na minha frente.

Assim como naquele dia, ele parecia completamente no controle da situação.

Frio.

Imóvel.

Como se nunca tivesse saído dali.

Olhei diretamente para ele.

— Já não basta o contrato de casamento? O que mais você quer?

Ele sustentou meu olhar.

Nem piscou.

— Uma fusão.

Franzi a testa.

— O quê?

Meu pai tentou intervir.

— Filha, calma. Isso vai ser bom para todo mundo.

Soltei uma risada sem humor.

— Bom pra quem, Dominic?

Olhei para Dominic.

Depois para meu pai.

— A empresa já é praticamente dele. Minha vida pelos próximos dois anos também. Agora o resto da dignidade que me sobrou vai junto pro lixo?

Dominic respirou fundo.

Acomodou-se melhor na cadeira. Fez um sinal com a mão para meu pai.

— Deixa que eu explico para essa cabeça dura, senhor Valença.

Revirei os olhos.

— Vai pro inferno Dominic.

Meu pai pigarreou.

Dominic ignorou completamente minha resposta.

— As dívidas foram quitadas. Mas isso não resolve o problema da empresa.

— Descobriu isso sozinho?

Ele continuou como se eu nem tivesse falado.

— A Valença continua sem capital para operar. Sem investimento, vocês não passam de alguns meses.

Cruzei os braços.

O pior era que ele estava certo.

E eu odiava admitir isso.

— Então teremos outro contrato?

— Não.

Respondeu seco.

— Teremos uma fusão.

Ficamos nos encarando por alguns segundos.

Meu pai resolveu quebrar o silêncio.

— Filha... vou me aposentar.

Olhei para ele sem entender.

— O quê?

Foi Dominic quem respondeu.

— A Valença continuará existindo.

— Seu pai vai deixar a presidência para você.

— Eu continuo respondendo pela Castellani.

— Você assume definitivamente a Valença.

— As duas empresas passam a atuar juntas.

— Quarenta e nove por cento continuam sendo seus.

— Quarenta e nove por cento permanecem comigo.

— Os dois por cento restantes serão destinados ao programa de participação nos lucros dos funcionários.

Aquilo fazia sentido.

E era justamente isso que me irritava.

Porque odiar Dominic era muito mais fácil quando ele estava errado.

Mas, pela primeira vez desde aquele maldito contrato...

Dominic não parecia estar pensando só nele.

Mesmo assim...

Ainda era ele dando as cartas.

Sorri sem vontade.

— Já estou casada com o capeta.

Olhei para ele.

— O que mais pode dar errado?

Ele cruzou os braços.

— Tem mais uma coisa.

Dei uma risada curta.

— Claro que tem. Com você nunca é simples. Nunca é só uma coisa quando se trata de você.

— A partir da próxima semana, toda a equipe da Valença será transferida para a sede da Castellani.

Fechei os olhos.

Respirei fundo.

Contei até três.

Não adiantou.

— Ah, que beleza.

Abri um sorriso debochado.

— Era exatamente o que faltava. Morar sob o mesmo teto que você não basta, quer me aprisionar até no trabalho.

— Isso não está em discussão.

A resposta veio seca.

Claro. Sempre havia mais uma decisão já tomada por ele.

— Seu pai já aprovou a mudança.

Olhei para meu pai.

Ele desviou os olhos.

Aquilo doeu mais do que qualquer coisa que Dominic pudesse dizer.

— Parabéns.

Olhei novamente para Dominic.

— Você ganhou mais essa.

Depois encarei meu pai.

— E o senhor...

Obrigado por esconder mais uma coisa de mim.

Levantei da cadeira.

Minha garganta queimava.

Antes de abrir a porta, parei.

Sem olhar para Dominic.

Falei apenas para meu pai.

— Eu me sacrifiquei por você pai.

Respirei fundo.

— Por amor ao senhor.

Minha voz falhou.

— E tudo que recebi foi uma apunhalada atrás da outra.

Segurei a maçaneta.

— Antes eu tivesse deixado essa merda de empresa quebrar.

Saí batendo a porta.

Quando cheguei ao saguão, o motorista já me esperava.

— Boa noite, senhorita Valentina. Recebi ordens para aguardar o senhor Dominic.

Revirei os olhos.

— Que pena.

Porque eu não volto com aquele troglodita nem amarrada.

Atravessei a calçada.

Precisava respirar.

Precisava esquecer aquele homem por alguns minutos.

Foi então que vi Ana entrando no prédio onde morava, poucas quadras dali.

— Tina!

Ela sorriu ao me ver.

Mas o sorriso desapareceu quando olhou meu rosto.

Naquele instante eu só precisava de alguém que não estivesse tentando decidir minha vida.

Precisava de uma amiga.

Precisava de paz.

Fazia poucas semanas que eu tinha assinado aquele contrato.

Estava casada havia apenas um dia.

E minha vida já não parecia mais minha.

— Entra, amiga.

Olhei para ela por alguns segundos.

Assenti em silêncio.

Porque eu já não tinha liberdade.

Já não tinha escolha.

E, às vezes...

Parecia que nem minha própria vida me pertencia mais.

Naquele momento, comecei a entender que assinar um contrato era muito mais fácil do que escapar das consequências dele.

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