FAZER LOGIN(Valentina)
Eu deveria estar acostumada.
Essa era a verdade.
Depois de algumas semanas convivendo com Dominic Castellani, eu deveria ter aprendido que aquele homem sempre encontrava uma maneira de me tirar do sério.
Era impressionante.
Ele não precisava fazer grandes coisas.
Às vezes bastava aquele olhar arrogante.
Aquela postura de dono do mundo.
Aquela mania irritante de achar que sempre tinha razão.
Mas naquela manhã...
Ele conseguiu se superar.
Cheguei cedo na empresa.
Ainda estava tentando me acostumar com aquela nova realidade.
Novo prédio.
Novos corredores.
Novas pessoas.
Novas regras.
E, principalmente...
O fato de que, agora, meu sobrenome estava ligado ao dele.
Valença e Castellani.
Uma união que todos enxergavam como uma grande oportunidade.
Uma parceria histórica.
Um casamento perfeito entre duas grandes famílias.
Todos acreditavam nisso.
Todos, menos eu.
Entrei na minha sala deixando minha bolsa sobre a cadeira.
Ana já estava sentada em sua mesa, analisando alguns documentos enquanto tomava seu café.
Assim que me viu, abriu aquele sorriso provocador que eu conhecia muito bem.
— Bom dia, esposa do ano.
Revirei os olhos.
— Nem começa.
Ela segurou o riso.
— O quê? Estou apenas falando a verdade. A cidade inteira está comentando sobre vocês.
Peguei alguns relatórios em cima da mesa.
— A cidade inteira adora uma boa mentira.
Ana me observou por alguns segundos.
— Você ainda não consegue aceitar, não é?
Levantei os olhos para ela.
— Aceitar o quê?
— Que, para todo mundo lá fora, você e Dominic Castellani são o casal perfeito.
Soltei uma risada sem humor.
— Perfeito é uma palavra muito forte.
Voltei minha atenção para os documentos.
— Eles não sabem nem metade da verdade.
Ana ficou séria.
Ela sabia exatamente do que eu estava falando.
Antes que pudesse responder, meu celular vibrou.
Olhei a tela.
Número desconhecido.
Ignorei.
Alguns segundos depois, chegou outra mensagem.
Dessa vez, apenas duas palavras.
"Encomenda na recepção."
Franzi a testa.
Encomenda?
Eu não estava esperando nada.
Levantei os olhos para Ana.
— Ana, chegou alguma encomenda para mim hoje?
Ela pareceu procurar a lembrança.
— Agora que você falou...
Abriu uma gaveta ao lado da mesa.
— Chegou sim.
Retirou um envelope pardo.
— Um carteiro trouxe logo cedo. Eu ia te entregar, mas acabou passando.
Peguei o envelope.
Meu nome estava escrito na frente.
Nada mais.
Sem remetente.
Sem identificação.
Olhei para Ana.
— Você sabe quem mandou?
Ela negou.
— Não. Só pediu para eu assinar o recebimento.
Uma sensação estranha percorreu meu corpo.
Não sabia explicar.
Mas algo dentro de mim dizia que aquilo não era uma simples correspondência.
Abri.
E no mesmo instante...
Meu corpo inteiro travou.
Meu cérebro demorou alguns segundos para entender o que meus olhos estavam vendo.
Não, aquilo não podia estar certo.
Dentro do envelope tinham fotos.
Peguei a primeira.
Depois a segunda.
Depois a terceira.
Meu coração acelerou.
Porque eu reconheci aquele rosto.
Dominic.
Naquela mesma noite.
Depois da solenidade da empresa.
Ele estava em um motel barato no centro da cidade.
Não era um lugar onde alguém esperaria encontrar Dominic Castellani.
Sem luxo.
Sem segurança.
Sem aquela imagem impecável que ele fazia questão de manter.
Era justamente o tipo de lugar que passaria despercebido.
Mas alguém tinha percebido.
E alguém tinha tirado aquelas fotos.
Várias.
Fotos demais.
Na primeira, ele estava entrando no local.
Na segunda, estava com uma mulher.
Próxima demais.
Na terceira...
Os dois estavam se beijando.
Mas não era apenas um beijo.
Era a forma como ele segurava aquela mulher.
A forma como ela tocava nele.
A intimidade daquelas imagens.
Era recente.
Era pessoal demais.
Era algo que ninguém deveria ter registrado.
Meu olhar foi para o verso de uma das fotografias.
E então eu vi.
Uma frase escrita à mão.
"Pena que o marido esqueceu a esposa na lua de mel"
Senti uma raiva subir pelo meu corpo.
Mas não sabia exatamente de onde vinha.
Era pela quebra do contrato?
Pela exposição?
Ou pelo fato de que alguém tinha conseguido me atingir usando Dominic?
Uma parte de mim tentou encontrar uma explicação.
Outra parte...
Aquela que eu não queria ouvir, e me recusava a dar nome...
Sentiu uma irritação absurda.
— Tina?
A voz de Ana me trouxe de volta.
Levantei os olhos.
Ela percebeu imediatamente minha expressão.
— O que aconteceu?
Rapidamente guardei as fotos dentro do envelope.
Não queria que ninguém mais visse aquilo.
Principalmente ela.
— Preciso resolver uma coisa.
Levantei.
— Agora.
Ana franziu a testa.
— Tina...
Mas eu já estava saindo.
Eu não sabia exatamente o que estava sentindo.
Raiva.
Vergonha.
Irritação.
Tudo misturado.
Mas uma coisa eu sabia.
Dominic tinha assinado aquele contrato comigo.
Ele conhecia as regras.
Ele sabia exatamente o que estava em jogo.
Subi até o último andar onde ficava a presidência.
A secretária dele levantou os olhos assim que me viu.
— Senhorita Valentina.
Ignorei a formalidade.
— Dominic está ocupado?
Ela pareceu hesitar.
— Ele está em uma reunião, mas...
— Avise que eu preciso falar com ele.
Minha voz não deixou espaço para discussão.
Ela tentou responder, mas eu já estava esperando.
Poucos minutos depois, a porta abriu.
— Senhorita Valentina...
Não esperei terminar.
Entrei.
Fechei a porta atrás de mim.
Dominic estava atrás da mesa.
Como sempre.
Calmo.
Controlado.
Como se nada no mundo fosse capaz de tirar aquele homem do eixo.
E aquilo me irritou ainda mais.
Ele levantou os olhos.
— Aconteceu alguma coisa?
Não respondi.
Fui até ele sem dizer uma única palavra.
Ele percebeu minha expressão.
Levantou da cadeira.
Eu dei o ultimo passo que faltava para chegar até ele.
Minha mão se moveu antes que meu cérebro pudesse impedir.
O som do tapa ecoou pela sala.
Por alguns segundos...
Nenhum de nós falou.
Dominic virou lentamente o rosto de volta para mim. Passando o polegar sobre o lábio inferior.
Ele notou uma única gota de sangue. Lambeu o dedo e me olhou.
Ele não parecia com raiva.
Parecia surpreso.
E talvez isso fosse ainda pior.
Joguei as fotos sobre a mesa.
— Você pode me explicar isso seu babaca?
Ele olhou para as imagens uma única vez, mas seus olhos pararam em algum ponto que eu não sabia dizer o que era.
Depois voltou os olhos para mim.
— Onde conseguiu isso?
A pergunta dele me irritou ainda mais.
— Essa é a sua preocupação Dominic?
Cruzei os braços.
— Você sabe muito bem quais são as regras do contrato, seu idiota.
Ele permaneceu em silêncio.
— Nós temos uma imagem para manter, Dominic.
Minha voz saiu mais alta.
— Você acha que eu estou preocupada porque você saiu com alguém? Se quiser dormir com metade da cidade. Durma. Só não seja estúpido o suficiente para deixar alguém fotografar.
Ele arqueou levemente a sobrancelha.
Como se tivesse percebido algo que eu mesma não queria admitir.
Aquilo me deixou furiosa.
— Não confunda as coisas.
Ele pegou uma das fotos.
Analisou por alguns segundos.
— Você acredita em tudo que recebe?
Soltei uma risada sem humor.
— Olha só. Além de tudo, agora vai dizer que as fotos são falsas?
Ele levantou os olhos para mim.
Aquele olhar frio voltou.
— Eu vou dizer que você deveria pensar antes de agir.
Aproximei-me da mesa.
— Não venha me dar lição de moral. Você não pensou antes de agir nesse caso.
Minha respiração estava acelerada.
— Eu não pedi para casar com você. Não pedi para fazer parte desse teatro. Mas já que estamos presos nesse maldito contrato, pelo menos tenha a decência de cumprir a sua parte.
Por alguns segundos, nenhum de nós falou.
Então ele disse:
— Você está com ciúmes, Valentina?
A pergunta me pegou desprevenida.
Meu rosto esquentou.
— Não seja ridículo Dominic.
Ele continuou me olhando.
E eu odiei perceber que aquela pergunta tinha acertado exatamente onde eu não queria olhar.
— Eu estou preocupada com a empresa.
Pausa.
— Você acha que eu também não tenho vontade? Tenho. Mas diferente de você, eu lembro do contrato antes de fazer qualquer idiotice.
Ele ficou em silêncio.
Mentira.
Ou talvez metade verdade.
Porque naquele momento eu não sabia mais o que me incomodava.
As fotos.
A mulher.
Ou o fato de que eu não deveria me importar.
Peguei minha bolsa.
— Faça o favor de resolver a sua bagunça antes que alguém da imprensa coloque as mãos nessas imagens.
Virei para sair.
Mas antes de abrir a porta, ouvi a voz dele.
— Valentina.
Parei.
Não olhei para trás.
— O quê?
Alguns segundos de silêncio.
— Nem tudo é o que parece.
Meu coração deu uma pequena batida diferente.
Mas ignorei.
Abri a porta.
— Claro. Deve existir outro Dominic Castellani andando por aí beijando mulheres em motéis baratos.
Saí.
Porque naquele momento eu precisava lembrar uma coisa.
Dominic Castellani era apenas meu marido no papel.
Apenas um contrato.
Nada mais.
Então por que aquelas fotos tinham conseguido me machucar tanto?
VALENTINAAs palavras dele ficaram suspensas entre nós.Como se o tempo tivesse decidido parar apenas para me torturar.Meu cérebro simplesmente se recusava a processar o que meus ouvidos acabavam de ouvir.Dei um passo para trás.Depois outro.Balancei lentamente a cabeça.— Não...Minha voz saiu tão baixa que mal consegui escutá-la.Dominic permanecia sentado na beira da cama.Os olhos vermelhos.As mãos trêmulas.Nunca imaginei que veria Dominic Castellani destruído daquela forma.Mas, naquele instante...Aquilo deixou de importar.Porque o que ele acabava de dizer...Era impossível.Continuei recuando.— Não impossível...Sorri.Um sorriso completamente sem sentido.Daqueles que aparecem quando a mente tenta escapar da realidade.— Essa não teve graça.Ele não respondeu.
DOMINICA primeira sensação foi a dor.Não no peito.Na cabeça.Uma dor pesada.Como se cada pensamento batesse contra o meu crânio.Abri os olhos lentamente.A luz da manhã atravessava parcialmente as cortinas.Demorei alguns segundos para reconhecer meu próprio quarto.As lembranças vinham em pedaços.O bar.Os copos.Levi.Depois...Escuridão.Passei a mão pelo rosto.Quando tentei me sentar, senti o estômago protestar.Foi então que notei o balde ao lado da cama.As toalhas espalhadas pelo chão.Uma camisa dobrada sobre a poltrona.E...Alguém dormindo ao meu lado.Meu coração parou.Valentina.Ela estava sentada, encostada na cabeceira.O corpo levemente inclinado na minha direção.Uma das mãos ainda repousava sobre meu ombro.Como se tive
VALENTINAA mansão estava silenciosa.Estranhamente silenciosa.Passei a maior parte da noite tentando terminar alguns relatórios da CV Group.Sem sucesso.Lia a mesma página três vezes.E não entendia nenhuma linha.Meu telefone vibrou.Sorri discretamente ao ver o nome de Bia."Vou dormir na casa da Ana hoje. A gente acabou colocando a conversa em dia e perdi a hora kkk. Não me espera."Respondi apenas:"Aproveita. Boa noite."Poucos segundos depois ela enviou um emoji de coração.Sorri sem perceber.Pelo menos alguém naquela casa ainda parecia feliz.Olhei o relógio.Quase duas horas.Dominic ainda não tinha voltado.Estranhei.Ele nunca chegava tão tarde.Pensei em mandar mensagem.Peguei o celular.Desisti.Não fazia sentido.Havia duas semanas...Ele mal r
DOMINICDuas semanas.Dias fingindo que ainda existia alguma normalidade na minha vida.Quatorze dias acordando na mesma mansão.Trabalhando na mesma empresa.Sentando à mesma mesa de reuniões.Olhando para a mulher que eu amava...E repetindo para mim mesmo que nunca mais poderia tocá-la.Se existia algum tipo de punição pior do que aquela...Eu não queria conhecer.Naquela sexta-feira, permaneci na presidência muito depois de todos terem ido embora.O último andar da Castellani estava completamente silencioso.A cidade brilhava do lado de fora através da enorme parede de vidro do meu escritório.Bridgstone nunca dormia.Eu também não.Levantei da cadeira.Afrouxei a gravata.Caminhei até a janela.Lá embaixo...As pessoas continuavam vivendo.Entravam em restaurantes.Voltavam para casa.
VALENTINADuas semanas, foram necessários para eu entender que o silêncio também podia machucar.Ele não gritava.Não discutia.Não quebrava nada.Mas destruía aos poucos.A rotina voltou exatamente ao que era antes das montanhas.Reuniões.Contratos.Assinaturas.Almoços de negócios.Eventos.Coletivas.E Dominic...Sempre a poucos metros de mim.Tão perto.E completamente inacessível.Era estranho perceber como duas pessoas podiam dividir praticamente todos os dias de trabalho e, ainda assim, parecerem desconhecidas.Nas reuniões ele falava comigo apenas o necessário.Chamava meu nome.Ouvia minhas opiniões.Concordava ou discordava.Tudo com absoluta educação.Tudo absolutamente profissional.Nem uma palavra além daquilo.Nem um olhar que demorasse um segundo a mais.E, aos poucos...Eu comecei a fazer exatamente a mesma coisa.Se ele queria distância...Eu lhe daria distância.No começo doeu.Depois...Virou defesa....Naquela manhã desci para o café mais cedo do que de costume.
ValentinaDepois da coletiva que fomos forçados a fazer na biblioteca da mansão depois do evento com investidores.Ficamos apenas Eu, Dominic e Levi na sala.Levi fechou a porta, ficou ao lado como um cão de guarda.Até ele parecia diferente.Permaneci parada, em pé em frente a Dominic.Olhei pra ele e observei alguns segundos.— Então era isso...Ele levanta os olhos.— O quê?Dei uma risada amarga.— O homem das montanhas morreu mesmo.Ele apertou a mandíbula.Não respondeu.Aquilo me machucava de um jeito, que não precisava.Continuei.— Sabe qual é a pior parte?Ele permaneceu em silêncio.— Eu tentei resistir Dominic.Minha voz falhou.— Desde o primeiro beijo. Desde o hotel. Desde aquela primeira noite. Eu dizia que era errado. Que tínhamos um contrato. Que precisávamos parar. Quem sempre avançava...Era você.Ver a culpa atravessar os olhos dele.Mas ele continuar calado.Aquilo me destruia.— Minha mãe chegou a dizer...Dei uma pequena risada sem humor.— "Faz um novo contrato







