FAZER LOGINA tarde na mansão Visconti parecia cena de filme, mas daqueles com orçamento meio duvidoso. O esquadrão da polícia italiana não bateu na porta; praticamente derrubou o portão de ferro trabalhado, trazendo junto um mandado de prisão novinho em folha para o patriarca Stefano Visconti e sua elegantíssima esposa, Lucrécia. O orgulho da aristocracia local foi esmagado ao vivo, em alta definição, para toda a Itália assistir de camarote.Do lado de fora, a imprensa formava um verdadeiro circo. Flashs pipocavam e repórteres estapeavam-se por espaço enquanto o casal saía escoltado. Stefano tentava manter a postura de lorde com as algemas reluzindo no pulso, e Lucrécia olhava para as câmeras com o mesmo desdém de quem acabou de pisar num chiclete usando um sapato de sola vermelha. A manchete brilhava em vermelho neon nos jornais: lavagem de dinheiro, agiotagem e uma lista de esquemas ilegais que faria qualquer chefão da máfia pedir consultoria. Em questão de minutos, a mansão foi lacrada com fi
O departamento de Relações Públicas do Grupo Salvattore operava no modo "caos controlado."O que significava que todos fingiam trabalhar duro enquanto monitoravam a vida alheia pelas fofocas da intranet. Isso até Isabel cruzar as portas de vidro feito um furacão de categoria cinco, ignorando completamente os olhares assustados, dois estagiários com pastas e um café que por pouco não virou sobre um teclado.Com o celular em mãos como se segurasse um artefato sagrado, ela desfilou entre as baias e aterrisou na mesa de Juliana, desferindo um golpe dramático no tampo de madeira.— Juliana! Pelo amor de Deus, larga essa planilha! Você viu isso? O Grupo Moretti acabou de soltar uma nota oficial. É bomba!Juliana nem piscou. Manteve os olhos fixos na tela do computador, ajustou a postura na cadeira ergonômica e deu um gole calmo em sua xícara já fria.— Sim, Isabel. O eco da rádio-peão já chegou por aqui. Mas hoje eu nem consegui pegar no celular. E, sinceramente? Qualquer coisa que envolva
Elisabetta deu um passo à frente, o olhar duro, porém maternal, trazendo o peso da realidade de volta à sala.— Meu sobrinho... você acha mesmo que ela vai te perdoar? Depois de tudo o que aconteceu? Você chegou noivar com outra, engravidou essa mulher... O estrago foi feito.— Eu sei que o caminho é incerto, tia.Respondeu Nicola, encarando cada um dos familiares presentes com uma determinação inabalável. — Mas eu prometo a todos vocês: vou fazer o que for preciso para reconquistar a mulher que amo. Não importa o tempo ou o preço, vou consertar o erro que cometi quando a troquei por essa ilusão.Sem perder mais um segundo, Nicola deixou a mansão e rumou direto para a sede do Grupo Moretti. Direto no departamento de Relações Públicas, ditou uma ordem expressa. Pouco depois, uma nota oficial era emitida para a imprensa cancelando o casamento de Nicola Moretti e Caterina Visconti.O comunicado era gélido, curto e sem qualquer explicação.Em questão de segundos, a internet ruiu. A notíc
A luz fria das primeiras horas da manhã de sexta-feira mal atravessava as cortinas quando Nicola tomou o telefone. A voz, de tão firme, cortava o silênrio como uma lâmina.— Cancele tudo. Reuniões, assinaturas, almoços. Esvazie minha agenda do dia no Grupo Moretti. Agora.Sem esperar a resposta da secretária, desligou. O ar estava pesado, impregnado com o peso de uma traição que fazia seu sangue ferver. Minutos depois, o som dos pneus cantando sobre o pedrisco da entrada anunciava sua chegada à imponente Mansão Moretti. Ele entrou pela porta principal com passos firmes, o rosto esculpido em tensão, convocando a família para o salão principal. O casamento do século, marcado para o dia seguinte, simplesmente não aconteceria mais.Quando a verdade sobre o clã Visconti e o papel de Caterina na podridão daquela família foi jogada sobre a mesa, o silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O choque paralisou a sala, a não ser por uma pessoa. Na sua poltrona de couro, o velho Donato apenas ajei
Caterina sussurrou, a voz envenenada, empurrando as mãos da mãe para longe. — Vocês não valem absolutamente nada! Eu só me humilhei, eu só tentei ser a Sra. Moretti para salvar a pele de vocês! Lembra daquele empréstimo, papai? Lembra?! Eu tive que pedir um adiantamento astronômico para que os agiotas não cortassem a sua garganta! O rosto de Stefano empalideceu. Caterina deu um sorriso amargo. — O Nicola descobriu. Ele rastreou o dinheiro, ficou furioso e me confrontou hoje. Eu tive que contar a verdade. E querem saber o que ele disse? Ele me garantiu que não vai descansar enquanto não ver os Visconti mofando na cadeia! — Sua imbecil! Stefano esbravejou, dando um passo ameaçador. — Você acha que nós vamos presos sozinhos? Se nós cairmos, você vai junto, Caterina! Não pense que vai se isentar! Essa família afunda junta. Sua irmã, a Gina, foi infinitamente mais útil que você. Pelo menos ela soube casar com um Moretti no tempo dela e salvou nosso patrimônio naquela época. Agora qu
O rastro de pneu cantou alto na entrada de paralelepípedos, mas Caterina sequer se importou. Ignorou o caminho para sua própria cobertura no centro da cidade; o destino final, inevitável e indigesto, era a Mansão Visconti. Ao cruzar as portas duplas de madeira maciça, a atmosfera pesada do hall parecia congelada no tempo. Na sala de estar, banhada pela luz amarelada dos lustres de cristal, Stefano e Lucrécia Visconti repousavam no sofá de couro. Liam o jornal com uma tranquilidade plácida, a fachada perfeita de uma aristocracia decadente. Contudo, o baque seco da porta contra a parede e os passos descompassados de Caterina quebraram o encanto. Lucrécia foi a primeira a erguer os olhos. Ao ver a filha, os cabelos desgrenhados, o rímel preto escorrendo em sulcos sombrios pelas bochechas e os lábios trêmulos, a taça de chá em sua mão balançou. — Caterina! O que houve, minha filha? Lucrécia levantou-se num pulo, a voz afiada pelo sobressalto. — Olhe para você! Sua maquiagem está tod







