FAZER LOGINANTONIO TOMMASO
Na sala da presidência, a luz matinal entrava pelas janelas do chão ao teto, emoldurando a silhueta de Henry. Ele se virou para encontrar Antônio Tommaso, seu novo assessor. — Bom dia, Sr. Tommaso. Pontual, como eu esperava. Henry cumprimentou, com um aperto de mão firme. Antônio, aos 35 anos, exalava a confiança de quem já tinha sobrevivido a crises em Wall Street, ou em Hong Kong. Ele abriu seu tablet, pronto para o relatório. — Bom dia, senhor. A agenda de hoje é densa, mas estratégica. O mercado está ansioso pelo seu primeiro pronunciamento oficial. Henry sentou-se em sua poltrona de couro. — O mercado pode esperar até que a casa esteja em ordem, Antônio. Quero eficiência total, do depósito à diretoria. Sem distrações. Mal sabia Henry que, enquanto buscava o controle absoluto, a rotina silenciosa daquela copa, e especificamente o desinteresse de uma certa copeira acabaria cruzando seu caminho de formas que nenhum relatório de assessoria poderia prever. A penumbra do escritório no 42º andar conferia à cena um ar de conspiração digno de um filme de espionagem. Henry, encostado na borda da sua mesa de carvalho, encarava Antônio com uma intensidade incomum. — Antônio, preciso de um favor... Começou Henry, baixando o tom de voz. — E preciso de total sigilo. Não pode haver rastros, nem registros oficiais. Antônio, sempre impecável e com a postura de quem antecipa crises antes que elas ocorram, inclinou-se levemente. — O senhor sabe que minha discrição é absoluta, senhor. Do que se trata? — Consiga para mim um uniforme completo da equipe de limpeza. Carrinho, luvas, crachá genérico... tudo. Para amanhã cedo. O queixo de Antônio caiu por uma fração de segundo, uma falha rara em sua fachada profissional. — Um uniforme de... limpeza, senhor? Gaguejou. — Se houve algum incidente com a manutenção, eu posso resolver agora mesmo. Não há necessidade de o senhor se envolver com... Henry soltou uma risada curta, interrompendo o choque do assistente. — Não é nada disso, Antônio. Eu sou o CEO, mas sinto que vivo em uma bolha de relatórios filtrados. Quero caminhar livremente por cada departamento, ouvir as conversas reais no café, no almoço, nas horas de descanso, ver como as coisas funcionam sem que ninguém endireite a postura ou mude de assunto quando eu passo. Quero ser invisível. Antônio relaxou os ombros, embora ainda processasse a logística daquela "operação secreta". Uma estratégia de infiltração. Arriscado, mas... brilhante, de certa forma. Nesse exato momento, a pesada porta de madeira rangeu. Gioconda, a copeira que trabalhava na presidência há mais de uma década, entrou equilibrando uma bandeja de prata com o café recém-passado. Instantaneamente, o clima de tensão se dissipou. Henry e Antônio trocaram um olhar cúmplice e abriram sorrisos calorosos para ela. — Bom dia, senhorita! O cheiro está maravilhoso como sempre! Disse Henry, transbordando uma simpatia quase suspeita. Gioconda, que conhecia cada tique nervoso e cada mudança de humor daqueles homens, arqueou uma sobrancelha enquanto servia as xícaras de porcelana. — Os senhores precisam de algo mais?... Observou ela, com a autoridade que só anos de casa permitem. Henry olhou para Antônio e assentiu. Gioconda era o coração daquela empresa; se alguém sabia quem era quem nos corredores, era ela. — Gioconda, sente-se um minuto por favor! Pediu Henry. — Vou precisar da sua ajuda. Estamos planejando uma pequena "inspeção fantasma". Vou usar um uniforme da limpeza para circular pela empresa sem ser reconhecido. A reação de Gioconda foi um silêncio reflexivo. Ela olhou para as mãos de Henry, depois para o terno sob medida dele. — O senhor não dura dez minutos sem que alguém note esse jeito de andar de quem manda em tudo! Comentou ela, com um brilho divertido nos olhos. — Mas a ideia é boa. Se o senhor quer mesmo saber o que o povo fala, precisa de um carrinho de limpeza de verdade. Ela cruzou os braços e assumiu uma postura protetora. — Fique tranquilo. Eu sei exatamente de alguém no departamento de limpeza qur podemos pegar um uniforme sem que ninguém sinta falta. Vou cuidar para que o senhor passe despercebido pela copa. Meu silêncio é o seu escudo, patrão. Henry sorriu, desta vez de forma genuína. O plano estava em marcha inicial.Elisabetta deu um passo à frente, o olhar duro, porém maternal, trazendo o peso da realidade de volta à sala.— Meu sobrinho... você acha mesmo que ela vai te perdoar? Depois de tudo o que aconteceu? Você chegou noivar com outra, engravidou essa mulher... O estrago foi feito.— Eu sei que o caminho é incerto, tia.Respondeu Nicola, encarando cada um dos familiares presentes com uma determinação inabalável. — Mas eu prometo a todos vocês: vou fazer o que for preciso para reconquistar a mulher que amo. Não importa o tempo ou o preço, vou consertar o erro que cometi quando a troquei por essa ilusão.Sem perder mais um segundo, Nicola deixou a mansão e rumou direto para a sede do Grupo Moretti. Direto no departamento de Relações Públicas, ditou uma ordem expressa. Pouco depois, uma nota oficial era emitida para a imprensa cancelando o casamento de Nicola Moretti e Caterina Visconti.O comunicado era gélido, curto e sem qualquer explicação.Em questão de segundos, a internet ruiu. A notíc
A luz fria das primeiras horas da manhã de sexta-feira mal atravessava as cortinas quando Nicola tomou o telefone. A voz, de tão firme, cortava o silênrio como uma lâmina.— Cancele tudo. Reuniões, assinaturas, almoços. Esvazie minha agenda do dia no Grupo Moretti. Agora.Sem esperar a resposta da secretária, desligou. O ar estava pesado, impregnado com o peso de uma traição que fazia seu sangue ferver. Minutos depois, o som dos pneus cantando sobre o pedrisco da entrada anunciava sua chegada à imponente Mansão Moretti. Ele entrou pela porta principal com passos firmes, o rosto esculpido em tensão, convocando a família para o salão principal. O casamento do século, marcado para o dia seguinte, simplesmente não aconteceria mais.Quando a verdade sobre o clã Visconti e o papel de Caterina na podridão daquela família foi jogada sobre a mesa, o silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O choque paralisou a sala, a não ser por uma pessoa. Na sua poltrona de couro, o velho Donato apenas ajei
Caterina sussurrou, a voz envenenada, empurrando as mãos da mãe para longe. — Vocês não valem absolutamente nada! Eu só me humilhei, eu só tentei ser a Sra. Moretti para salvar a pele de vocês! Lembra daquele empréstimo, papai? Lembra?! Eu tive que pedir um adiantamento astronômico para que os agiotas não cortassem a sua garganta! O rosto de Stefano empalideceu. Caterina deu um sorriso amargo. — O Nicola descobriu. Ele rastreou o dinheiro, ficou furioso e me confrontou hoje. Eu tive que contar a verdade. E querem saber o que ele disse? Ele me garantiu que não vai descansar enquanto não ver os Visconti mofando na cadeia! — Sua imbecil! Stefano esbravejou, dando um passo ameaçador. — Você acha que nós vamos presos sozinhos? Se nós cairmos, você vai junto, Caterina! Não pense que vai se isentar! Essa família afunda junta. Sua irmã, a Gina, foi infinitamente mais útil que você. Pelo menos ela soube casar com um Moretti no tempo dela e salvou nosso patrimônio naquela época. Agora qu
O rastro de pneu cantou alto na entrada de paralelepípedos, mas Caterina sequer se importou. Ignorou o caminho para sua própria cobertura no centro da cidade; o destino final, inevitável e indigesto, era a Mansão Visconti. Ao cruzar as portas duplas de madeira maciça, a atmosfera pesada do hall parecia congelada no tempo. Na sala de estar, banhada pela luz amarelada dos lustres de cristal, Stefano e Lucrécia Visconti repousavam no sofá de couro. Liam o jornal com uma tranquilidade plácida, a fachada perfeita de uma aristocracia decadente. Contudo, o baque seco da porta contra a parede e os passos descompassados de Caterina quebraram o encanto. Lucrécia foi a primeira a erguer os olhos. Ao ver a filha, os cabelos desgrenhados, o rímel preto escorrendo em sulcos sombrios pelas bochechas e os lábios trêmulos, a taça de chá em sua mão balançou. — Caterina! O que houve, minha filha? Lucrécia levantou-se num pulo, a voz afiada pelo sobressalto. — Olhe para você! Sua maquiagem está tod
O silêncio no escritório era denso, quase sufocante, quebrado apenas pelo som descompassado da respiração dos dois. Nicola deu dois passos à frente, a mandíbula travada, os olhos faiscando com uma mistura de desprezo e alívio tardio. A ficha finalmente tinha caído, e a verdade o queimava por dentro.— Cala a boca, Caterina! A voz de Nicola ecoou, grave e cortante como uma lâmina. — Você não tem moral nenhuma para pronunciar o nome da Gina, muito menos o da Juliana. Eu demorei, mas finalmente enxerguei a jogada. Essa criança... isso nunca foi um acidente. Foi um golpe da barriga friamente calculado.Caterina tentou dar um passo atrás, mas a postura rígida de Nicola a encurralava contra a pesada mesa de mogno.— Agora tudo faz sentido.Ele continuou, o tom subindo carregado de escárnio. — Você esperou a noite perfeita. Viu que eu tinha bebido além da conta, aproveitou o meu estado e mentiu descaradamente dizendo que tomava anticoncepcional só para me impedir de comprar a pílula do di
Nicola estalmou as mãos no peito dela, empurrando-a com uma firmeza que beirava a repulsa. O espaço entre os dois, antes sufocado pelo cheiro pesado do perfume importado de Caterina, virou um abismo.— Não use essa criança para tentar me arrancar o que você quer, Caterina.A voz dele veio baixa, guttural, cortando o ar como lâmina fria.Ela deu um passo em falso para trás, ajustando o casaco sobre o ventre ainda plano. Os olhos brilhavam com uma mistura perigosa de pânico e raiva controlada.— Eu estou gerando o seu filho, o herdeiro que você tanto queria! É assim que você me descarta? Como se eu fosse um fardo?— Chega! Nicola a interrompeu, a voz desprovida de qualquer calor. — Eu vou cancelar tudo. Não vai haver casamento sábado. Nem mês que vem. Nunca. Está me ouvindo? Acabou.O choque desfigurou o rosto perfeitamente maquiado de Caterina. As mãos dela voaram para os próprios lábios, o desespero finalmente quebrando sua compostura aristocrática.— Nicola, pelo amor de Deus! Você







